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Segunda, 17 Julho 2017 23:46 Última modificação em Segunda, 17 Julho 2017 23:54

Alitalia: uma disputa fundamental que pode abrir novos cenários para a luta de classes

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País: Portugal / Laboral/Economia / Fonte: Em Luta

[Matteo Bavassano] Depois das mobilizações dos últimos meses e da vitória do Não no referendo de abril, continua a luta dos trabalhadores da Alitalia. Sábado, dia 27 de maio, houve uma manifestação muito participada em Roma, na qual participaram vários trabalhadores em luta e ativistas dos sindicatos de base.

A solidariedade de classe é obviamente fundamental para a continuação vitoriosa da luta: também por isso foi muito importante a greve de sexta-feira, dia 16 de junho.

Para além da greve na Alitalia – que ameaça cancelar centenas de voos perto do início das férias de verão de muitos italianos – foi anunciada uma greve geral dos transportes públicos e os sindicatos ativos no setor da logística como o SiCobas, AdlCobas e SolCobas também anunciaram o seu apoio à greve dos trabalhadores da Alitalia. Uma greve que promete ser muito importante, ao ponto de o Ministro dos Transportes e da Infraestrutura ter apelado ao “sentido de responsabilidade” das organizações que a convocaram, apelando a que a desconvocassem para evitar criar dificuldades. Este apelo tinha como destinatários os trabalhadores em luta, que responderam dizendo estar dispostos a um confronto... no dia seguinte à greve!

A verdade sobre os problemas da Alitalia

Contrariamente ao que é falsamente sugerido por toda a imprensa burguesa, como já assinalámos noutro artigo, todos os indicadores de custos operacionais da empresa (do custo do trabalho ao índice de custo por passageiro por Km) não só estão em linha com os de outras companhias europeias de referência (Air France-KLM, Lufthansa, British Airways), como, muitas vezes, são mais baixos. Também não é verdade que a crise se deva ao desenvolvimento das transportadoras low cost, ainda que estas tenham mudado significativamente o transporte aéreo de passageiros nos últimos 20 anos. A verdade é que não tem havido vontade política para salvar a companhia aérea nacional; pelo contrário, tem-se apostado na sua falência e desmantelamento.

A realidade – que, com exceção de quem trabalha no setor, poucos conhecem – é que as companhias aéreas low cost são pagas pelas autoridades aeroportuárias para manterem as rotas, como é o caso da Ryanair, que recebe uma percentagem das receitas das lojas dos aeroportos, para além de também receber financiamentos diretos das regiões. Portanto, é inútil virem culpar o mercado de transporte aéreo quando politicamente decidem financiar uma empresa que explora brutalmente os trabalhadores e paga impostos na Irlanda, em vez de investirem na Alitalia e continuarem a considerar o transporte aéreo um serviço público importante. Nacionalizar a Alitalia não só é possível como necessário para melhorar o setor do transporte aéreo em Itália, tanto do ponto de vista laboral e salarial dos trabalhadores como do ponto de vista dos passageiros, oferecendo serviços melhores e mais baratos. Para isso, é preciso pôr em causa o atual sistema aeroportuário privado: renacionalizar os aeroportos é essencial para gerir centralmente todos os “incentivos” pagos às várias empresas. Isto teria necessariamente de ser acompanhado do fim da liberalização de handling, que apenas levou à redução dos salários e ao agravamento das condições de trabalho.

A nacionalização é a única solução para salvar o setor do transporte aéreo em Itália, mas é claramente uma solução que o Governo não quer aceitar. É por isso que a greve de dia 16 deve pôr diretamente em causa as políticas governamentais para os transportes e deve enfrentar-se diretamente com o Governo, que até há pouco tempo fazia orelhas moucas às reivindicações e propostas dos trabalhadores e hoje tenta desajeitadamente pedir a desconvocação da greve.

O protesto dos trabalhadores vai mostrar a importância fundamental do setor da aviação em Itália e da Alitalia no seio da indústria, porque vai de facto bloquear todo o tráfego de passageiros. O ponto focal da batalha será o Aeroporto de Fiumicino: se, graças à determinação dos trabalhadores, o bloqueio durar mais de 24 horas, o Governo terá de ceder se não quiser correr o risco de uma paragem total do tráfego. E nesse ponto, a relação de forças vai estar do lado dos trabalhadores. Para isso é preciso apoiar os trabalhadores da Alitalia na sua luta e cercá-los de solidariedade de classe.

Uma grande disputa para além do setor do transporte aéreo

A luta na Alitalia pode tornar-se um passo fundamental para a luta de classes no nosso país: é a primeira disputa de alguma importância em muitos anos que pode sair vitoriosa, derrubando não só uma privatização falhada, mas convencendo os trabalhadores de que a privatização não é solução nem para eles nem para a economia e que, portanto, devemos lutar contra ela. Para ser vitoriosa é preciso que se dirija à auscultação das necessidades dos trabalhadores em luta em vez dos burocratas e assuma uma perspetiva de reivindicações corretas, ou seja, uma perspetiva não só corporativa (da Alitalia), mas mais geral. Esta perspetiva é fundamental, uma vez que, nos próximos anos, o Governo pretende privatizar as principais empresas de transportes públicos locais.

A classe trabalhadora deve lutar para vencer e criar um precedente perigoso para os proprietários burgueses, demonstrando que as empresas privadas devem ser salvas não através da traição dos trabalhadores e proteção dos parasitas, mas através da nacionalização das empresas sob controlo dos trabalhadores, cobrando assim aos patrões e gerentes o custo da reorganização produtiva necessária para manter as manter em funcionamento. Temos de mostrar e relembrar a classe trabalhadora de que é plenamente capaz de gerir a produção de acordo com o interesse geral da sociedade sem a necessidade de gerentes, acionistas e proprietários.

É com esta consciência que a classe trabalhadora italiana vai, finalmente, deixar de receber passivamente os ataques dos capitalistas e começar a retaliar, destruindo um sistema que humilha os trabalhadores para construir um mundo mais justo no qual podemos viver dignamente do nosso próprio trabalho.

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