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Sábado, 06 Outubro 2018 19:22 Última modificação em Terça, 16 Outubro 2018 20:45

Jessé Souza é um liberal contra os neoliberais - Resenha de 'A Elite do Atraso'

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País: Brasil / Resenhas / Fonte: Acervo Crítico

[Wesley Sousa*] O livro de Jessé Souza, A Elite do Atraso, publicado em 2017, já é certamente um livro muito conhecido do público brasileiro, seja pelo estilo linguístico seja pela temática atual que se propõe.

O autor escreve que o intuito foi de fazer uma leitura histórica da atual conjuntura brasileira, porque para ele, antes de qualquer coisa, nossa crise é uma “crise de ideias”. Nesta crise, temos um cenário para superação de certos paradigmas ultrapassados – cuja sua legitimidade deve, no entanto, ser questionada.

A tese central do livro e sua relevância
Até hoje, podemos afirmar, poucos marxistas fizeram uma critica a análise do conflito brasileiro que Jessé Souza tentou colocar, por isso, obviamente se torna uma coisa pertinente: porque seria uma indireta crítica a tese de Max Weber ainda que use as direitas categorias dele, principalmente – e de forma paradoxal – a crítica a um tipo de weberianismo que só o Estado seria o corrupto a favorecer o mecanismo de privatização e repasse de nossas riquezas nacionais à empresas multinacionais. Dessa forma, a visão superficial de Sérgio Buarque inviabilizaria a questão da “corrupção real” (que ocorre por fora do Estado pela “elite econômica” a ponto de legitimá-la).
 
A grande problemática enfrentada por Jessé ao longo do livro, ainda mais nas partes iniciais, tem como alvo a abordagem culturalista de Sérgio Buarque de Holanda em sua conhecida Raízes do Brasil. Para Jessé (e ele está convicto disso),  Buarque transforma os aspectos positivos da sociedade brasileira defendidos por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala ao dizer que a causa da desigualdade não reside no apenas fator econômico, mas nas instâncias culturais. Nesse sentido, todo o conflito de classes presentes no Brasil torna-se velado e transformado em um conflito construído, irrealista, entre Estado Patrimonialista (em que Jessé critica duramente Raymundo Faoro, autor do livro Os Donos do Poder – e com razão), caracterizado pela ineficiência política, personalismo, corrupção e o Mercado (representado, aqui pelo “avanço” trazido pela nossa modernidade). Buarque justifica-se pela igualdade social clássica da ideologia liberal. Assim, esta tradição de pensamento oculta a gênese da relação histórica entre Estado e mercado e de sua interdependência estrutural, porque o mercado é sempre divinizado.
 
A crítica importante fornecida pelo autor sobre “a construção de uma elite toda poderosa que habitaria o Estado só existe, na realidade, para que não vejamos a elite real, que está ‘fora do Estado’”, ainda que ‘captura do Estado’ seja fundamental para seus fins”. Aqui se tem uma crítica à leitura dominante, tipicamente weberiana, que o próprio Sérgio Buarque corrobora e vira alvo direto de Jessé. Segundo o autor, o “homem cordial se transforma em Roberto da Matta, o jeitinho brasileiro”. *
 
Nas partes intermediárias, ele introduz a partir de Pierre Bourdieu, a questão das “violências simbólicas cotidianas” contra as classes mais oprimidas da sociedade, nas opressões de classe. Outro ponto importante é o direto ataque a ideia de “patrimonialismo”: ao confrontar a tese conceitual de patrimonialismo, Jessé escreve que a ideia de Raimundo Faoro “é demonstrar o caráter patrimonialista na sociedade brasileira. [...] o conceito de patrimonialismo passa a ocupar o lugar que a noção de escravidão e das lutas de classe que se formam a partir dela deveriam ocupar.”. Para Jessé, Faoro ao usar a república portuguesa colonialista nada mais fez que um anacronismo pré-moderno na sua incorporação, uma ideia a-histórica e fora de contexto e sustentação real.
Pontos críticos para além das aparências
Ao que parece, a sociologia brasileira contemporânea está impregnada pelo petismo e o liberalismo social (quando tem viés progressista, no caso de Jessé, na segunda metade do livro especificamente), pois, como devemos de saber não se pode ser um anticapitalista pela metade; não adianta nutrir ilusões reformadoras inaugurada por Kautsky e elevada a enésima potência por Bobbio e Arendt (e seus asseclas à direita e à esquerda), cujo ali estão o mais vulgar fetichismo sociológico munido de um politicismo que vê no pragmatismo a solução imediata para os problemas da república liberal burguesa.
 
Jessé buscou, como era de se esperar, a crítica moralista ao judiciário brasileiro nas partes finais do seu livro. Uma crítica republicana no referente às classes sociais, tipicamente weberianas, à sua crítica acerca dos “privilégios da classe média”, para fundamentar a ideia de uma “ascensão social dos mais pobres nos governos do PT”. Embora seja parcial verdade, a desigualdade de renda acelerou nesse período. Estamos longe, como sugere o autor, de fazermos uma “democratização da mídia” para sequer termos uma TV pública – e vale lembrar que foi no governo petista que Lula fechou mais TVs comunitárias que FHC (Lula tinha como ministro das comunicações Hélio Costa, um aliado da família Marinho da Rede Globo). 

O sociólogo acertou quando descreveu o caráter moralista da classe média, mas erra ao atacar o efeito pela causa: a tal classe média não nutre ódio só pelo PT ou pelos pobres, mas reproduz uma ideologia que sustenta a burguesia em ideias, que se dá nas relações das estratificações sociais do sistema capitalista e não por um governo, como colocou equivocadamente. Fica, contudo, a parecer uma propaganda partidária e um moralismo cristão contra o moralismo burguês. O preconceito de classe se torna, em Jessé, a defesa de um programa que não tocou nessa questão da ideologia e nem na materialidade substancial desta engrenagem capitalista.
 
Como descreve o amigo Felipe Lustosa, crer não ser mais o desconhecimento acerca do estudo axiológico do valor, mas sim mal-caratismo socialdemocrata e a frágil tentativa de “humanização” num mundo coisificado. E é exatamente neste ponto que entra em campo o nosso ideólogo que se posiciona à esquerda. Esse é o ponto chave em que Jessé e outros dessa “sociologia” buscam: seu desejo íntimo é preservar o metabolismo do capital, com “melhorias dentro de um governo” (para ele, o petismo). Para essa sociologia, só há reprodução de ideologia: o capitalismo não é o problema central e sim o “neoliberalismo”.
 
Jessé é contra o “neoliberalismo” e não contra a subsunção formal do proletariado à forma valor e ao sobre-trabalho; se põe contra o “neoliberalismo” e não contra a propriedade privada dos meios de produção; é contra o “neoliberalismo” e não contra o Estado Burguês e nem da abolição das classes sociais! (Ele cita explicitamente o “exemplo” da Alemanha dos anos 80 como “paraíso comunista de Marx” no qual ele viveu no seu curso superior...).
 
Ele é um liberal contra os neoliberais, pois quer um “capitalismo justo”. Ao dizer nas páginas iniciais que “o principal aqui é evitar compreender as classes de modo superficial e economicista, como o fazem tanto o liberalismo quanto o marxismo”, se apresentaria, na aparência, com as tintas de um marxismo ou de “crítico ao varalatismo do culturalismo racista” quando lhe é conveniente. Seu intuito foi, certamente, uma análise da sociedade brasileira até o momento que não pode atacar seus reais problemas sistemáticos (com exceção a questão da herança racista, de fato, evidente). O pior, esse palavrório todo leva as mentes propensas às reflexões críticas ao mais do mesmo. Seria de supor, portanto, A Elite do Atraso de Jessé ser o seu atraso intelectual?
 
* Graduando em Filosofia pela UFSJ; colaboração de Jéssica Carvalho, graduanda em Filosofia pela UFSJ.
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