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Diário Liberdade
Segunda, 09 Setembro 2019 13:17 Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2019 13:21

Eu suspiro pela ditadura do proletariado

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António Santos

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As t-shirts com bandeiras americanas colavam-se aos corpos, bonés vermelhos MAGA (Tornar a América Grandiosa Novamente) saltavam como tampas de cabeças inchadas para que os seus donos recolhessem o suor, várias mulheres abanavam leques ao ritmo de música country, procurando em vão refrescar as carnes brancas, cozidas em banho-maria num estádio de Panama City, na Florida, que, nessa tarde de 8 de Maio de 2019, indicava 34 graus.


Finalmente, anunciado por uma voz histriónica como um lutador de wrestling, Trump surgiu em palco, apoteótico, engravatado e fisicamente imune ao aquecimento local e global. O comício entrou em ebulição. Perante a visão do magnata, uma enorme massa humana, com as credenciais da classe laboriosa estampadas no rosto, levantou-se. Parecia ter-se esquecido momentaneamente do insuportável calor, pegajoso e húmido. A maioria gritava «Trump! Trump!», alguns pediam a construção do muro, já outros, desactualizados, entoavam consignas pela prisão de Hillary Clinton. Igual a si próprio, o presidente garantiu ser o melhor presidente de sempre em todas as áreas da actividade humana e ridicularizou os seus adversários democratas. O público ora ria, ora aplaudia efusivamente. «Eles não param de chegar» avisou, grave, o presidente, «estamos muito preocupados, são pessoas muito más» O comício emudeceu «Estamos a construir o muro e vamos tornar a América grandiosa novamente, mas não se esqueçam: não os deixamos [os guardas na fronteira] usar armas. Não os deixamos. Outros países deixam. Nós não. Como paramos esta gente?». Alguém no público gritou: «Matando-os!». Trump riu-se. A massa humana acompanhou-o no sentido de humor.

Fazendo eco das palavras e dos risos de Trump, no dia 3 de Agosto, um fascista abriu fogo num hipermercado de um bairro latino de El Paso, no Texas, matando 22 pessoas. Num manifesto publicado na internet, o terrorista fez saber que estava a combater a «invasão hispânica». Entre 31 de Agosto e 3 de Julho, em menos de quatro dias, três tiroteios indiscriminados em Gilroy, na Califórnia, em El Paso, no Texas e em Dayton, no Ohio mataram 34 pessoas e feriram pelo menos 60. Somam-se aos 256 tiroteios em massa que ocorreram só nos primeiros sete meses deste ano, uma média de 1,2 tiroteios em massa todos os dias.

Os tiroteios em massa e o fascismo são dois sintomas da mesma patologia social. A violência fermentou um século na sociedade estado-unidense e transborda agora em tiroteios e em fascismo. A violência foi ritualizada no cinema, entornada em guerra contra o mundo inteiro, tolerada no quotidiano da polícia, justificada pelo racismo e empunhada orgulhosamente pelos pais-fundadores para escrever as páginas da História. Mas a forma de violência mais prevalecente, e a mais insidiosa, é a desigualdade que premeia todos os aspectos da vida social e política nos EUA. O descontentamento social ou é revolucionário ou é patológico e nos EUA ele transforma-se em frustração e em alienação que intensificam todas as formas de psicopatia, racismo, homofobia e xenofobia. Em Nova Iorque, o barulho de uma mota foi confundido com tiros, e milhares de pessoas atropelaram-se em Times Square numa fuga descontrolada, fazendo dezenas de feridos. O clima de pânico permanente generaliza-se, alimenta-se de si próprio e, sobretudo, favorece Trump.

Os comentários racistas de Trump encorajam os atentados que por sua vez justificam a concentração de mais poderes securitários e o fortalecimento do aparelho repressivo do Estado. Trump não é apenas cúmplice dos atentados fascistas, é o seu autor. E foi como tal que foi recebido em El Paso onde foi deixar os cínicos «pensamentos e orações». Milhares de pessoas, incluindo os profissionais de saúde que cuidavam das vítimas, protestaram nas ruas contra a presença do Presidente.

No dia seguinte ao atentado fascista, no Mississipi, o ICE, a infame polícia migratória, deteve em plena jornada de trabalho 680 operários «imigrantes ilegais». Segundo a Newsweek, desde 2016, o número de detenções de «imigrantes ilegais» em pleno local de trabalho aumentou 650 por cento. A pressão sobre os salários é directa. Dos 11 milhões de imigrantes não documentados que, segundo o Instituto Pew, vivem nos EUA, 8 milhões são trabalhadores no activo, totalizando mais de cinco por cento de toda a força de trabalho daquele país.

Os imigrantes detidos no Mississípi foram transferidos para um campo de concentração e sumariamente deportados, deixando centenas de crianças sozinhas, a dormir em ginásios de escolas ou entregues aos cuidados de vizinhos e amigos. Multiplicam-se, como um déjà-vu que provoca calafrios, os relatos de filhos de imigrantes escondidos em sótãos e caves. Há mortos por identificar em El Paso porque os familiares têm medo de ser deportados e vários órgãos de comunicação social dão nota de feridos que se recusaram a entrar num hospital. E há 11 milhões de pessoas, tantas como os portugueses, marcadas como sub-humanos, que se pode explorar, escravizar, violentar e matar livremente.

«Livremente». Voltemos comício de Trump na Florida. «Eles podem ir-se embora livremente ou podem pagar o preço. Esta é a terra da liberdade!», ironizou Trump. O comício riu novamente. E é por isso que eu suspiro pela ditadura do proletariado.

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