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Diário Liberdade
Sábado, 17 Novembro 2018 18:08 Última modificação em Domingo, 09 Dezembro 2018 14:15

Caso Khashoggi (III): a CIA, o M16 e a catarizaçom da Arábia Saudita Destaque

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País: Arábia Saudita / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: Blog de Nazanin Armanian

[Nazanín Armanian] Era de esperar que um “ato terrorista” afastasse a notícia do crime de Khashoggi das manchetes: um simpatizante de Trump enviava pacotes-bomba aos líderes do Partido Democrata, enquanto uns “anónimos” estavam a demonizar o jornalista desertor saudita, nas redes sociais.

Contodo, um setor do establishment norte-americano (de ambos os partidos), com o fim de mudar a política dos EUA no Oriente Próximo, pretende evitar que os trumpistas consiguam organizar o esquecimento sobre um crime que nem ocorreu nos EUA, e nem a vítima e os seus assassino som norte-americanos. A elite da superpotência abandonou o falso herdeiro e o golpista Mohammed Bin Salman (MBS) -- com a alcunha de “Mohammed Bone Sawman” (em referência ao uso de serra de osso utilizada para desmembrar Khashoggi), aproveita a incapacidade do presidente para gerir a primeira grande crise nas relaçons entre os EUA e o Reino da Arábia Saudita (RAS) e o fracasso de Mike Pompeo em convencer os turcos para encobrirem juntos o terrível assassinato.

“Este tipo deve ir embora”, sentenciou o senador republicano Lindsey Graham. Os adversários democratas de Trump, na véspera das eleiçons parlamentares de novembro, pretendem utilizar as relaçons do presidente (já riscado de pouco menos que “agente da Rússia” e pervertido sexual) com os “assassinos sauditas” para forçar o seu despedimento. A família de Salman, que se gaba de ter “no bolso” Jared Kushner, o genro de Trump e o home de Israel na Casa Branca, tinham comprado um andar da Torre Trump e um dos iates do magnata para o tirar de um aperto económico nos anos noventa. Dali o “Amo os sauditas” do presidente.

O crime mal planeado e pior executado de Khashoggi, o home da Irmandade mussulmana (HM), rival do waabismo, e quem numha entrevista tinha afirmado que “os sauditas merecemos algo melhor” que os atuais governantes, foi o floco de neve necessário para produzir o alude que está a levar a família de Samlan. Dizia Friedrich Engels, ao explicar a “Lei do tránsito da quantidade à qualidade”, que quando umhas mudanças quantitativas adquirem um nível crítico, se produz inevitavelmente umha mudança qualitativa. E há um antes e um depois de Khashoggi na história da RAS.

Afirma o diário británico Express que três semanas antes da chegada de Khashoggi dos EUA à Turquia, o O M16 conhecia os planos de MBS para o seu seqüestro; também o Washington Post publica que a inteligência norte-americana conhecia este plano. É possível que o herdeiro tenha caído numha armadilha parecida àquela que EUA preparou para Saddam Husein em 1990: a 30 de julho, Saddam informou a embaixadora dos EUA em Bagdá April Glaspie da sua intençom de invadir o Kuwait. Ela respondeu que o seu país nom tem nenguma opiniom com respeito aos conflitos inter-árabes (umha luz verde?). Depois, o vice-secretário de Estado, John Nelly, à pergunta de se os EUA ajudariam Kuwait em caso de um ataque do Iraque, responde: Nom temos tratados de defesa com nengum país do Golfo”. Bush pai ia sacrificar o Iraque numha devastadora agressom para agradecer aos deuses o fim da Uniom Soviética e anunciar sobre as cinzas do Iraque a Nova Ordem Mundial.

A CIA apoia o que foi o verdadeiro príncipe herdeiro Mohammed bin Nayef, em detençom domiciliar desde 2015. Está consciente de que MBS nom tem o apoio da Guarda Nacional da Arábia Saudita (SANG), na qual EUA destinou 4.000 milhons de dólares para a sua “capacitaçom”, nem do clérigo waabita, nem dos três milhares de príncipes (uns 200 deles fôrom seqüestrados na peculiar Noite de Vidros Rotos Saudita, no hotel Ritz de Riad, obrigando-os com surras e torturas a lhe entregar centenas de milhares de milhons), nem muito menos de milhons de homes e mulheres jovens que sonham com um país moderno. O declínio da economia agrava-se com a fuga de capitais e de cérebros e a paralisaçom da saída à saca da petroleira estatal Aramco, devido à incapacidade do regime de apresentar umhas contas transparentes.

Mohammed, de 33 anos, desmantelou o governo tradicional, concentrando a totalidade do poder nas suas maos. O caso Khashoggi revelou a farsa da estabilidade do reino sob o comando do “reformador” MBS: lembra as palavras Jeimmy Carter em dezembro de 1977, quando qualificava o Irám do Xá como umha “ilha de estabilidade”. Um ano depois, o Xá preparava as malas.

Choque entre dous modelos

Se bem é certo que os EUA, para preservarem a sua hegemonia sobre o Golfo Pérsico, deve associar-se com a Arábia Saudita ou com o Irám, também o é que a queda do regime do Xá em 1978 gerou sérias discrepáncias no establishment dos EUA a respeito de como o fazer, numha regiom que 1) é a principal reserva mundial do petróleo e gás, e 2) fica próxima das duas capitais rivais: Moscovo e Pequim, e bem longe de Washington.

Umha façom aposta em reconfigurar o mapa da zona, destruindo os países poderosos e convertê-los em mini estados controláveis mediante devastadoras guerras, a ocupaçom militar e um regresso ao colonialismo. Linha representada polos Bush, Clinton e Trump, que hoje pretende:

  • Conter o Irám. Trump é o único presidente de EUA que realizou a sua primeira viagem ao estrangeiro, visitando Riad e Tel Aviv, os grandes inemigos do Irám, e está a promover umha “OTAN sunnita” para umha guerra “delegada” contra os persas, a quem impujo um embargo de petróleo, com a esperança de que os sauditas consiguam preencher o vazio que deixaria o Irám no mercado.
  • Dividir os próprios países “sunnitas”: o Caso Khashoggi aumentou a tensom entre Ancara e Riad. Agora, Erdogan –quem sabe onde está o corpo de Khashoggi–, procura umha aproximaçom a Washington e fai com que o pêndulo de poder regional se incline para a Turquia. Nom há muito, Trump também provocou um conflito entre a Arábia e o Catar, e só invocou a paz quando recebeu do pequeno país um cheque no valor de 12.000 milhons de dólares para a compra de 36 avions F-15. A política de Trump foi fortalecer o eixo Riad-O Cairo- Dubái, e enfrentá-lo a Ancara-Doha, governados pola Irmandade Mussulmana (IM).
  • Retirar milhares de milhons de dólares dos sauditas, com ameaças: só um dia antes do assassinato de Khashoggi, Trump advertiu ao rei Salman: “Sem nós, nom durariam nem duas semanas”, já que Riad se tinha negado a baixar os preços do petróleo. Depois do crime de Istambul, o destino do regime da Arábia Saudita está completamente em maos do presidente dos EUA. Além disso, Washington nom estava nada contente com a visita de Salman a Moscovo em outubro de 2017: tinha tratado com Vladimir Putin desvincular o petróleo do dólar Nem pensar nisso! Trump mente ao dizer que as possíveis multas a Arábia poriam em perigo o seu contrato de 110.000 milhons de dólares em vendas de armas, e empurrárom Riad a comprar à Rússia ou China: este “contrato” foi negociado com Obama e ainda está por concretizar. Além disso, RAS, “si ou si”, terá que comprar armas aos EUA dentro de ao menos dez anos, refém das trocas, muniçons, treino, etc. que precisará para os seus avions e mísseis e que nengum outro país pode fornecer-lhe. O que preocupa ao presidente é a grande comissom que cobram os intermediários destes contratos.

Frente a esta política, a façom liderada por Barak Obama –quem qualificava aos sauditas de “chamados aliados”-, considera a Casa Saud sócios venenosos que prejudicam os interesses dos EUA, e advoga por um equilíbrio entre o Irám, Turquia, Israel e RAS, para assi centrar-se na contençom do principal inimigo: a China. A advertência de Obama de que os sauditas tinham que “compartilhar” o Oriente Médio com o Irám, provocou o desprezo da monarquia que na visita do presidente ao reino a 21 de abril do 2016 se negou a recebê-lo no aeroporto. A política dos EUA para esta regiom falhou quando em 2003 Bush substituiu o regime semi secular e árabe-sunnita de Saddam Husein por umha teocracia-xiita, provocando a ira de Israel, Turquia e Arábia. Daí que proponha:

  • Recuperar o acordo nuclear com o Irám, ou ao menos permitir que a Europa faga figura de “Ocidente bom”, e suavize as relaçons com Teerám. Nom todas as companhias norte-americanas som vendedoras de armas. Trump suspendeu, por exemplo, a venda de 73 avions Boeing a Irám, e Fijo com que fossem a Rússia e a China que dominem o mercado petrolífero iraniano.
  • Potencializar o outro islamismo reacionário: a Irmandade Mussulmana (IM), enfraquecendo o waabismo. Obama abortou a Primavera Árabe do Egito ao patrocinar Mohammed Mursi, quem foi derrocado com o dinheiro saudita pago ao general al Sisi.
  • Agora que os países árabes se aproximam de Israel (Netanyahu acaba de visitar Omám), EUA nom precisa de Riad para tirar Tel Aviv do isolamento.
  • Resgatar os chamados “valores ocidentais” -que Trump nem sequer usa como pretexto-, para condenar Riad; se nom, como poderiam condenar a Rússia ou a China polo desrespeito dos direitos humanos?
  • Arredar o Jack o Estripador saudita, por confundir o status do seu país ante EUA com o de Israel: em janeiro do 2010, seis agentes do Mosad, disfarçados com perucas e gorros, assassinárom o líder do Hamas, Mahmud al Mabhuh, num hotel de Dubai. Nom foi capa de nengum jornal! Há que arranjar um substituto, já que MBS, nom fijo mais que acumular fiascos em:

Impedir que o Irám aumentasse a sua influência na zona. Ao contrário: Catar, Omám e Kuwait veem em Teerám a garantia de um equilíbrio regional e manter a sua soberania, ameaçada polas tentaçons sauditas.

A guerra contra Iémen

Isolar o Catar.

Nom conseguir a expulsom do Hizbolá do governo de coligaçom libanês, apesar de ter seqüestrado o primeiro-ministro Saad Hariri e obrigá-lo a renunciar ao seu cargo. França reprovou a Arábia e restituiu Hariri no seu posto.

A inaudita reaçom às críticas: quando o governo canadiano o criticou em agosto deste ano polo encarceramento das ativistas na Arábia Saudita, expulsou o embaixador, congelou todo o comércio bilateral, cancelou os voos entre ambos os países e ordenou que os 16.000 estudantes sauditas em estágios regressassem ao país. Semanas depois, "crucificou" um homem e depois exibiu o seu corpo decapitado numha praça de Riad.

Salvar a Arábia dos Salman

Os ocidentais já nom pudérom apertar a mao de MBS e impera a necessidade de reformar a teocracia medieval saudita, que passou de ser um sócio desconfortável a insuportável.

Já em 1964, quando as forças progressistas tinham derrocados as suas monarquias na maioria dos países árabes, Gram-Bretanha organizou, através da SANG, um golpe de estado contra o rei imobilista Saud Bin Abdulaziz, em favor do seu irmao mais novo, Faisal, evitando umha revoluçom, que no sul do Iémen, país vizinho, acabou por levar os marxistas ao poder, e ainda hoje continua a ser a única república da Península Arábica. O golpe reforçou o papel do waabismo pan-islamista. Em 1969, os militares, apoiados por um setor do Pentágono, tentárom um outro golpe, planeando bombardear o Palácio Real, matar o rei e os príncipes, e instalar a República da Península Arábica.

Dita reforma na Arábia urge a Ocidente, tanto para maquilhar o seu tenebroso rosto, como para impedir revoltas sociais: “a evoluçom para evitar a revoluçom”. A Rússia (que aceitou a versom saudita do crime) alarga a sua influência na regiom, e sobre dous países que tradicionalmente estavam na órbita de EUA: Turquia e Irám. E a presença de MBS na primeira fila impede realizar ambos objetivos. E se nom vai por bem, EUA poderá:

  • Congelar a venda de armas a Riad, em virtude da Lei de Controlo de Exportaçom de Armas de 1976, e assim de passagem pôr fim da guerra contra Iémen agora que o MBS, nom pudo ganhar, em parte, pola ajuda inestimável de alguns príncipes sauditas aos Hutis. De facto, já há movimentos: o próprio Pompeo acabou de “pedir” a Riad um cessar-fogo e começam as negociaçons (secretas) entre Riad e Teerám.
  • Utilizar a Lei de Justiça contra Patrocinadores do Terrorismo (JASTA) que permite aos cidadaos dos EUA demandarem governos estrangeiros por cooperarem em ataques terroristas neste país, perseguindo a Arábia polo seu papel nos atentados de 11 de setembro.

O que desconhecem é a impossibilidade de modernizar umha teocracia.

- Ler a primeira parte da análise de Nazanin Armanian > Caso Khashoggi (I): o jornalista e o “Jack O Estripador”

- Ler a segunda parte da análise de Nazanin Armanian > Caso Khashoggi (II): Erdogan pom preço à cabeça do príncipe

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