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Quarta, 09 Outubro 2019 01:33

James Petras: “Não devemos ignorar o facto de que alguns grupos podem começar a tomar medidas violentas a favor de Trump”

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País: Estados Unidos / Institucional / Fonte: Resistir

Na sua entrevista semanal no CX36 do Uruguai, James Petras refere-se ao anúncio de um processo de julgamento político contra o presidente Donald Trump promovido pelo Partido Democrata: “Trump continua a denegrir a oposição dizendo que se trata de uma caça às bruxas, enquanto os democratas prosseguem com o processo, mobilizando os seus eleitores. A tensão vem crescendo com alguns comentários de Trump no sentido de que, se continuarem com o impeachment, isso provocará uma guerra civil, o que é insólito e grave.”

Diego Martínez: Petras, como estás? Bom dia, daqui do Uruguai, saudamos-te com muito prazer, sê bem-vindo.

James Petras: Bem, muito obrigado, igualmente para si e para os ouvintes

DM: Petras, para entrar em situações talvez tempestuosas da política local nos Estados Unidos, o Partido Democrata iniciou um processo de julgamento político contra o presidente Donald Trump, diga-nos o que pensa sobre essa situação, qual o alcance que pode ter, quais as possibilidades reais também de destituição do presidente ...

JP: Bem, a situação é muito tensa, não há qualquer solução, Trump continua a denunciar os opositores, dizendo que houve simplesmente uma caça às bruxas, e os democratas continuam com o processo, mobilizando os seus apoiantes.

Mas a tensão cresceu porque alguns comentadores pró-Trump disseram que, se continuam com esse impeachment a expulsão de Trump provocará uma guerra civil. É algo de grave, ameaçar que possa surgir violência se Trump for desalojado da Presidência, é algo de insólito pensar-se que de um conflito violento pode surgir uma guerra civil.

E isso indica que nos Estados Unidos o processo político, com muitas falhas, está a deslocar-se para outro lado da política, em direção a algo de insólito que é a guerra civil

Hernán Salina: Mas poderiam ocorrer situações de violência? Porque aqui muitos meios de comunicação estão a dizer que esta ameaça não teria consequências ou que este anúncio de julgamento político não chegaria a concretizar-se.

JP: Bem, é impossível ter uma opinião firme, uma guerra civil violenta como no século XIX é duvidosa, mas existem sectores a favor de Trump que são extremistas, são grupos que no passado agiram com violência.
Então, não devemos ignorar o facto de que alguns grupos podem começar a tomar medidas violentas a favor de Trump

DM: Bom.

E do ponto de vista político, isso dá força ao Partido Democrata para chegar a votar o impeachment do presidente Trump?

JP: Não creio, porque o Senado, que está nas mãos dos trumpistas, não votará a favor do impeachment, pelo menos até agora apenas um ou dois republicanos aceitaram a possibilidade de substituir Trump. A maioria dos republicanos continua a apoiar Trump e rejeitará um impeachment contra o presidente, principalmente porque não têm alternativa nas fileiras do Partido Republicano.
Então, é pouco provável que os democratas consigam maiorias no Senado, de forma semelhante às que conseguem no próprio Congresso.

DM: Bem, bem, acompanharemos isso de perto, Petras, porque seguramente isso gera uma deterioração da política dos EUA, para além da própria
imagem do Presidente da República, que é importante e sobre o qual há que falar.

Venezuela

Há outros temas que também estão sobre a mesa, toda a situação da Venezuela com esta denúncia que surgiu nas últimas horas de sobrevoos de alguns aviões militares dos EUA, algumas alianças que a Venezuela conseguiu e também algumas ameaças que está a viver por parte da Colômbia com essas imagens falsas que o presidente colombiano apresentou na ONU

JP: Há muita tensão sobre a Venezuela, e não apenas sobre a Venezuela, mas também sobre Cuba. Pompeo, o secretário de Estado dos Estados Unidos, está a tentar aumentar as pressões, tentando provocar incidentes.
As sanções contra Raúl Castro, por exemplo, e outros também, são simplesmente formas de provocar Cuba, e Cuba teve respostas muito poderosas na assembleia das Nações Unidas, poderíamos dizer que a guerra ideológica e as pressões continuam fortes, e os Estados Unidos multiplicando os confrontos. Os aviões norte-americanos próximos da fronteira com a Venezuela é muito grave, porque querem provocar uma resposta defensiva da Venezuela para usar como pretexto para lançar bombas sobre Caracas.
Nesta situação, devemos estar muito alerta porque as ameaças aéreas são uma indicação da forma que pode tomar a agressão militar dos EUA contra a Venezuela.

Haiti

HS: Vamos mudar para uma situação candente destes dias, que é novamente o Haiti. Petras, há mobilizações muito importantes, fala-se de um nível superior de mobilização que reúne diferentes sectores da sociedade haitiana exigindo a renúncia do presidente, incluindo acções como a tomada de esquadras da polícia que estão a ocorrendo a estas horas. Há uma mudança, um salto qualitativo ali na oposição ao governo do Haiti?

JP: Sim, a situação é muito evidente, 80% dos haitianos rejeitam o governo que é produto da intervenção norte-americana. Há corrupção, há intervenção, há uma negação de todos os problemas de fome no Haiti.
Neste momento, o povo do Haiti está no controle de grandes sectores do território, as esquadras de polícia estão nas mãos dos rebeldes e todo mundo está à procura do que responder. Washington continua a apoiar o governo corrupto, autoritário e repressivo.
Não há solução, Washington não oferece qualquer alternativa democrática, nem comida, nem nada. Creio que isso terminará numa revolução por parte dos haitianos para tratar de impor um governo mais democrático e representativo, que seja da vontade do povo e não de Washington
Iémen

DM: Bem, Petras, outro dos temas que também nos interessava é a situação entre o Iémen e a Arábia Saudita, com alguns importantes confrontos, há imagens que revelam duros golpes que os iemenitas infligiram ao exército da Arábia Saudita. Que pode dizer-se sobre isso pensando também no futuro, nas relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita e todo o ambiente ligado ao confronto com o Irão?

JP: Sim, os sauditas não podem defender o seu próprio exército, centenas de prisioneiros do exército saudita caíram nas mãos dos houthis. E como a Arábia Saudita não pode aceitar a contundente derrota, os prisioneiros acusam o Irão porque querem incitar os Estados Unidos a tomar partido na guerra.

Mas, na realidade, o problema da Arábia Saudita é o problema de não poder derrotar os iemenitas, os rebeldes houthis.

É evidente que a Arábia Saudita não pode enfrentar os houthis, eles derrotaram, capturaram muitos prisioneiros sauditas. Então, a Arábia Saudita transfere o problema para o Irão, a razão é que deseja envolver os Estados Unidos no conflito. O Irão é um pretexto para não reconhecer que a Arábia Saudita está derrotada (...) com os iemenitas.

HS: Bem, Petras, outros temas que deseje mencionar para fechar o contacto desta segunda-feira

Hong Kong

JP: Há muitas coisas, mas vou procurar ser selectivo. O problema de Hong Kong, onde as forças pró-americanas usaram mecanismos violentos e tentaram provocar uma revolta e não tiveram sucesso. A violência por parte dos manifestantes é uma provocação.

A grande maioria do povo em Hong Kong não quer qualquer violência, destruição de edifícios e outras coisas. Chamam-lhes pró-democratas, mas não são democratas, utilizam dinamite, todo tipo de violência e tentam derrubar o governante de Hong Kong. A imprensa internacional está a tomar partido, disfarçando os protestos como algo de democrático, e não há qualquer democracia. Mas o que eles querem é uma intervenção do governo chinês a acusar os manifestantes violentos.

Mas o facto, se olharmos para as bandeiras usadas pelos manifestantes, são bandeiras dos Estados Unidos e de outros países ocidentais, querem criar um incidente para a celebração do 70º aniversário da Revolução Chinesa esta semana, querem um incidente que possa tentar provocar o imagem da China revolucionária como simplesmente um país violento e terrorista.

outro assunto que quero mencionar é a votação no Afeganistão, onde 90% do povo não votou, eles rejeitaram o governo pró-americano. Mais uma vez temos uma fraude e a incapacidade de Washington de manter uma imagem democrática e de protectora dos direitos humanos. O Afeganistão é um país com 90% contra os pró-americanos e 10% com as malas prontas, mas que continuam a governar.

Esse é mais ou menos o meu comentário de hoje, com excepção de uma coisa em Honduras, onde forças pró-americanas assassinaram um líder indígena e ambientalista. Isso não é novidade: após o golpe de 2009, entrou um governo apoiado pelos EUA que matou muitos hondurenhos. E outra coisa que devemos levar em consideração é que a violência em Honduras vem justamente com os militares e as bases militares dos EUA na América Central.

Essa é a causa de tantos imigrantes que procuram escapar da violência, de governantes pró-americanos em Honduras.

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