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Diário Liberdade
Sexta, 17 Novembro 2017 19:16 Última modificação em Terça, 26 Dezembro 2017 17:07

Antom Santos, ex-preso independentista galego: "A independência é ilegal e vai continuar a ser perseguida por todos os meios"

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País: Galiza / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: El Salto

[Daniel Seixo para 'El Salto'. Traduçom do Diário Liberdade] Entre novembro e dezembro de 2011, umha operaçom policial levada a cabo na Galiza terminou com vários militantes independentistas encarcerados sob acusaçom de pertencerem à ‘Resistência Galega’. Entre os detidos, encontrava-se Antom Santos, com quem conversamos sobre a existência de presos políticos no Estado espanhol, o processo de independência que se vive na Catalunha, a irrupçom de Podemos na esquerda ou o projeto do independentismo galego.

Num contexto em que se começa a questionar a repressom política no Estado espanhol, consideramos necessário escuitar a voz de um militante independentista, que passou cinco anos da sua vida numha prisom, devido ao seu projeto para a Galiza.

Existem presos políticos no Estado espanhol?

Há presos políticos no Estado espanhol. Houvo durante todo o franquismo, durante a Transiçom ou reforma política e essa realidade chega até os nossos dias.

Som presos políticos os membros do Govern encarcerados?

Si. Estám encarcerados de maneira preventiva por razons políticas, pola sua ideologia.

Porque se utiliza entom o eufemismo de políticos presos?

Bom, o Estado espanhol sempre pretendeu se definir a nível interno e a nível internacional como umha democracia. Portanto, como fica contraditório com a existência de umha democracia manter pessoas encarceradas pola sua luita política, o Estado espanhol viu-se obrigado a contornar essa definiçom de presos políticos. A questom é que antes podiam utilizar o pretexto de que a imensa maioria das pessoas que estávamos presas por razons políticas éramos acusadas de estarmos relacionadas, direta ou indiretamente, com a violência, mas hoje na Catalunha nom podem ir a esse argumento, daí que agora tenham que torcer um pouco mais a linguagem. Fica mais complicado, mas na realidade é a mesma história de sempre.

Começa a sociedade a acordar a respeito da realidade dos presos políticos no Estado espanhol?

Considero que se está a produzir um processo de polarizaçom, o espanholismo está a sofrer um desafio como nom o sofreu em muitas décadas, portanto está a armar-se ideológica, política e mediaticamente. Isso obriga no campo contrário a se defender, nom sei é se se pode falar de umha sensibilizaçom ou antes de um processo em que todo o mundo deve tomar posiçom e a neutralidade torna extremamente complicada.

É a Catalunha hoje umha República independente?

É umha naçom que tem um governo que declarou a sua independência, essa independência nom é aceite polo Estado que a ocupa e a comunidade internacional nom intervém decisivamente.

Pode-se falar de democracia ou de direitos sociais no Estado espanhol quando a Constituiçom parece ter um peso muito maior do que a própria vontade popular?

Falemos com um pouco de perspetiva e fugindo da pura atualidade. O independentismo galego do após-guerra tem 40 anos de vida, tendo sido um dos poucos movimentos sociopolíticos que nom aceitou a “democracia” nem aceitou o jogo político. Nós sempre participamos politicamente na rua e nos movimentos sociais; por isso sofremos nas nossas carnes os efeitos de luitarmos contra o sistema. Desde um primeiro momento, dissemos em solitário, já nos anos setenta, que isto nom era umha democracia plena, que se tratava de umha democracia tutelada, onde os poderes fácticos continuavam em maos dos de sempre. O que hoje vemos na Catalunha é a aplicaçom em massa do que nós como movimento minoritário levamos sofrendo 40 anos. O que nos chama a atençom som estas vozes de surpresa. Nós levamos com presos políticos desde finais dos anos setenta, com umha legislaçom de exceçom, perseguidos pola polícia municipal e “nacional”, simplesmente por difundirmos propaganda nas ruas. Com todo isto, para nós agora chove no molhado. Qual é a diferença? Que agora é um movimento de massas e isso obriga todo mundo a se posicionar.

Como é possível que o proces incomode mais a cidadania do que a corrupçom ou os cortes?

É umha boa pergunta. Suponho que, nos momentos de crises e incerteza, correntes importantes de populaçom se alienan em massa com o poder, seja do tipo que for, seguramente procurando benefícios e tranquilidade política. Há pouco, escutei a um trabalhador que estava a tomar qualquer cousa num bar com um companheiro, a comentar que ele queria se manter alheio à questom catalá. Definia-se como apolítico e estava farto de que se produzissem ruturas de tipo familiar ou pessoal por essa causa. Esse operário fazia umha reflexom que era inteligente: “é fácil opinar de política quando se cobram seis mil euros por mês, mas eu cobro mil e nom podo”. Infelizmente, parte da sociedade sabe que alinhar com o poder tem vantagens imediatas. O franquismo nom morreu, ainda continua presente esse pensamento de nom se meter em sarilhos e ainda existe um franquismo sociológico, nom sei se maioritário, mas si muito forte. Um franquismo que hoje se manifesta de forma ostentosa porque se considera ameaçado.

Como se explica que alguém poda propor a ilegalizaçom de partidos como a CUP?

Existe umha legislaçom de exceçom no Estado espanhol, fruto do acordo entre fascistas e esquerda reformista nos anos setenta. Essa legislaçom de exceçom manifestou-se de várias formas, mas fundamentalmente na lei antiterrorista, posteriormente lei de partidos. Nós denunciamo-la em solitário e padecemos por isso, quando agora os moderados estám a padecer os ataques dessas leis, talvez seja porque no seu momento nom reparárom que entom o problema também ia com eles. Acontece que, naquela altura, o problema só era com os violentos, com “quatro radicais”, mas já havia umha artilharia legal que se estava a preparar para utilizar em situaçons como a que hoje vivemos.

Algo que se pode observar com a ameaça a várias comunidades da possibilidade de aplicar o artigo 155.

Efetivamente, lembremos aquilo de "primeiro vinhérom polos comunistas e eu nom era comunista"... É o reflexo da realidade.

Consideras que é possível a independência dentro da Constituiçom espanhola?

A resposta já está dada. A independência é ilegal e vai continuar a ser perseguida por todos os meios dentro da lei e inclusive fora da lei, eles praticárom anteriormente a guerra suja para isso e som capazes de continuar a aplicá-la. De facto, hoje nesse sentido estamos na ilegalidade.

O que supom entom a promessa de umha reforma constitucional?

A reforma constitucional é umha terceira via proposta pola esquerda reformista e polos entom nacionalismos autonomistas, pensando que era possível um dialogo de igual a igual com os poderes fácticos e com o Estado. Essa via leva quarenta anos a ser ensaiada e fracassou, porque umha parte nom quijo exercer o seu papel de interlocutor. É o nosso “inimigo” que fecha a porta, nom nós.

É a Audiência Nacional um órgao útil para a democracia?

Nom acho que exista democracia no Estado espanhol. Existe umha espécie de democracia tutelada para certos setores, que podem gozar e fazer uso dela, aceitando previamente umhas regras de jogo que para o meu som restritivas e mandam fora do jogo político um número importante de ideologias. Entom, partindo dessa premissa, a Audiência Nacional é um tribunal que se mantém em pé fundamentalmente para perseguir a dissidência política de todo o tipo. Fundamentalmente nacional, mas também social. Trabalha para isso e sempre se empregou muito a fundo contra o movimento independentista galego, para tentar desarticulá-lo.

Podemos falar de separaçom de poderes no Estado espanhol?

Nom sou especialista no tema, mas precisamente há uns dias lia um estudo que assinalava a falta de independência judicial na Espanha. Esse estudo assinalava que a independência judicial nesse país se encontrava em níveis inferiores a países como Quénia, China ou Arábia Saudita. Era um estudo do Foro Económico Copa do Mundo, creio, parece que até os seus próprios aliados no sistema indicam que nom existe separaçom de poderes no Estado espanhol.

O que achas da soluçom federal?

Nós somos independentistas, portanto achamos que umha naçom deve se constituir em Estado independente. Entra na lógica da afirmaçom e a existência das naçons que a cada naçom goze do seu Estado, se essa naçom tem garantido um status de soberania, essa soberania sempre a pode negociar em pé de igualdade com outras muitas naçons. O federalismo nom, mas o confederalismo sempre é umha opçom. No entanto, nós nom nos fiamos de poder confederar-nos com os espanhóis. Som um país que nos desprezou historicamente como naçom, ao igual que desprezou o nosso nacionalismo. Nós entendemos a possibilidade de nos confederarmos com numerosas naçons europeias, mas antes de confederarnos devemos ser independentes. Portanto, a via federal descartamo-la à partida.

Pode-se falar por parte do Estado espanhol de levantar muros por causa da independência na Catalunha, tendo presente a realidade de Ceuta e Melilha?

As relaçons políticas internacionais estám dominadas polo cinismo, por dous pesos e duas medidas. É só prestarmos atençom à posiçom da comunidade internacional com os movimentos independentistas no bloco do Leste, por puro interesse pragmático, simplesmente para liquidar o socialismo. Devemos comparar essa atuaçom com o ponto de vista que mantenhem hoje com a Catalunha, a dupla moral dá nas vistas. Outro exemplo seria a postura mediática com a violência opositora em Venezuela e essa mesma postura com as manifestaçons na Catalunha, som argumentos tam frouxos que nom se sustentam.

Está o Estado espanhol a doutrinar?

Existe um sistema educativo que tem entre os seus muitos cometidos um fundamental que é o de criar umha identidade nacional espanhola, é certo que a existência do Estado autonómico permitiu espaço de atuaçom para visons que eles chamam periféricas, o que, por outra parte, nom é revolucionário ou ilegal, já que o próprio Estado espanhol reconhece a existência de três nacionalidades históricas. Portanto, sim há doutrinamento político. Em todos os Estados europeus o ensino trabalhou desde para isso, aqui se desfrutou de umha verdadeira margem, umha verdadeira liberdade de discurso, mas agora parece que se vai avançar no sentido contrário, na recentralizaçom do Estado.

É a Galiza umha colónia?

Si, nós pensamos que é umha colónia. Pensamos que é umha colónia porque, além de ser umha naçom sem soberania, como muitas outras na Europa, foi umha naçom privada de classes dirigentes desde muito cedo, umha naçom incapaz de desenvolver de umha maneira autocentrada; nom fomos também capazes de ter um desenvolvimento económico normal em chaves capitalistas. Isso explica processos sociológicos muito conhecidos, como o ódio ao próprio, a ignoráncia sobre a nossa história ou a tentativa de abandonar a língua galega por partes importantes da nossa populaçom. A nossa história é a mais clara entre as três questons nacionais em disputa a respeito de umha origem milenar com umha tradiçom política própria; no entanto, é a mais silenciada de todas elas. Isto talvez tenha que ver com que carecemos de umas elites próprias que possibilitem o trabalho pola independência.

Que opinas de quem a partir da esquerda decide nom apoiar o movimento independentista na Catalunha ao nom conseguir encontrar nengumha bandeira com a que se identificar no mesmo?

Ante as questons nacionais, historicamente no Estado espanhol existírom duas formas de dúvida, a primeira tem que ver com verdadeiro purismo. Isso de que a questom nacional é de direita sempre se dixo, também no movimento operário galego antes do franquismo. É um argumento que tem certa verdade, mas que nom é umha verdade completa. É verdade que a questom nacional nom tem nengumha definiçom ideológica nem para um lado, nem para o outro, mas nós entendemos que como se dá conteúdo social a umha questom nacional, as forças de esquerda deveriam participar. Considero que essa primeira posiçom de dúvida é purista e para a minha equivocada. Depois existe umha visom mais falsa, mais traiçoeira, umha posiçom que, em nome de questons ideológicas, esconde a incapacidade de se defrontar com o Estado. Hoje qualquer pessoa, quer nacionalista ou nom, galega, espanhola, basca ou catalá, sabe que existe umha oportunidade de ouro para debilitar o Estado espanhol. Qualquer pessoa com certa lucidez deveria somar-se a essa trincheira, se nom o fai, expressa umhas dúvidas que nom som justificáveis num momento como este. Aí a ideologia funciona como umha coarctada.

Deve a Galiza ser independente?

Somos independentistas galegos, essa é a nossa motivaçom política.

Consideras a Galiza preparada para a independência?

A libertaçom nacional é um processo longo, nom é um processo que se poda medir numha vida. Trata-se de um processo de geraçons e nós agora estamos numha etapa histórica desse processo, um processo que logicamente ainda precisa madurar. Os grandes saltos qualitativos dao-se quando há umha soma de milhares de pequenos saltos quantitativos, a minha geraçom e as geraçons anteriores estamos a somar graos de areia a um processo de maturaçom da consciência nacional e de organizaçom. Nom estamos ainda nessa fase madura, mas também nom é algo que nos preocupe ou polo qual tenhamos pressa. Queremos é acumular forças e continuar em frente, sem nengum prazo fixo.

Joga o Estado espanhol com promessas a futuro sobre umha consulta independentista?

Um argumento muito utilizado na esquerda reformista e no nacionalismo reformista é esse de dizer: “hoje nom, mas manhá sim”, mas o tempo passa e as décadas passam, passam as etapas históricas e nunca chega esse manhá. A promessa continua a ser a mesma, já nos anos trinta muitos galeguistas utilizavam essa lógica.

Qual é hoje a situaçom do independentismo na Galiza?

Acho que vimos de umha situaçom paradoxal. Ideias que mantivemos em solitário e em condiçons muito adversas, vou atrever-me a dizer que hoje som maioritárias entre a gente crítica de esquerda. A própria ideia independentista era umha absoluita utopia, nom já chegar a ela, mas simplesmente formulá-la num papel. Na Catalunha vemos como parte dos que dirigem o processo independentista nom eram independentistas há vinte anos, inclusive na Galiza nós enfrentávamo-nos com o resto de nacionalismos por falar em independência. Acho que hoje esse tabu quebrou. Esse trabalho que nós figemos, de deslegitimaçom do Estado espanhol, de denunciar que isto nom era umha verdadeira democracia, de criticar que a política fosse umha atividade reservada para quatro profissionais pagos, de salientar que o fundamental era o assemblearismo e o trabalho na rua, todas essas ideias as pregávamos no deserto, hoje vemos que, desde a crise capitalista que começou em 2008 e os processos políticos que derivaram dela, estas som ideias que quase todo mundo compartilha.

Isso é o positivo, o negativo é que nom pudemos converter essas ideias em estruturas organizativas sólidas. Nom pudemos enraizar estruturas que permanecessem no tempo. Isto deve-se, por umha parte, a que o Estado realizou sempre um trabalho sujo para nos desativar com repressom de baixa intensidade, com um assédio ligeiro que no fundo cumpre a sua funçom, especialmente em gente pouco politizada, pessoas novas. Enfrentamo-nos a condenaçons de prisom e o trabalho propagandístico nos meios de comunicaçom. Existe também umha parte de responsabilidade própria, nom podemos alijar culpas. Em algo nos enganmos para nom termos essa estabilidade no tempo, provavelmente precisamos de nos fazermos mais conhecidos e reconhecíveis. Nisso estamos agora.

Como deve de ser o ativismo na esquerda hoje?

No ativismo da esquerda independentista, acho que nom há nada novo abaixo do sol. Todo está inventado e leva assi muito tempo. Acontece que o ativismo de esquerda independentista é um ativismo que hoje nom oferece nengum benefício imediato no sentido material. É um trabalho fundamentalmente movido por valores, polo sentido de melhorar esta sociedade no meio prazo. Precisa-se paciência como existe um cerco repressivo, nom vamos exagerar, também nom é dramático, mas sim tés umha marcaçom do Estado bastante incómoda. O principal problema é que vivemos numha sociedade que está consagrada no culto ao indivíduo. É muito complicado abrir umha fenda e defender como defendemos nós que o indivíduo progride quando progride a coletividade. Qualquer discurso de felicidade baseado no coletivo, na nossa sociedade tem umha dificuldade tremenda para fazer caminho, nom digo para fazer caminho saindo um dia de manifestaçom com milhares de pessoas à rua, refiro-me a que nosso dia-a-dia esteja guiado polo interesse coletivo. Isso é muito difícil. Esse é um problema que temos nós, que tem o anarquismo, que tem a esquerda revolucionária de modo geral. Algo de responsabilidade, repito, haverá pola nossa parte. Sempre fomos um movimento com demasiado conflitos internos, tendente em excesso às cisons, muito litigante, até hoje nunca demos ultrapassado isso.

Como consideras a irrupçom de Podemos na esquerda?

Eu isso vivim-no em prisom, sem a internet, portanto o vivim todo através dos meios convencionais, nom estava sobre o terreno, que é como se devem viver estes processos. Parece que havia umha ira acumulada e umha frustraçom muito grande contra o capitalismo, em partes importantes da populaçom e parece que Podemos durante umha etapa soubo capitalizar isso. Quanto ao independentismo galego, há duas cousas que nos afastam fundamentalmente: nós todo o que figermos, seja na linha ideológica que for, mais ou menos de esquerda, com todos os matizes que quigermos, vamos fazê-lo a partir da Galiza. Nunca vamos estar integrados numha estratégia que se elabore a partir de laboratórios doutras realidades, a nossa realidade é única e só a podemos transformar nós. Isso foi o primeiro que nos afastou de Podemos. O segundo foi que na dialética de rutura ou reforma nom há meio termo, como também nom há na questom nacional galega. Nom sei se rompo, se reformo, se dou um passo para a reforma, mas depois nom... Ou és umha força rupturista que giras na rua ou és umha força reformista que giras nas instituiçons. Nós somos umha alternativa ruturista, isso é o que nos diferencia no papel de Podemos. Mas já digo, respondo prudentemente porque eu nom vivim isto a pé de rua, se vocês me dizerem que conhecem um menino numha assembleia que é independentista, eu nom podo negá-lo, nom o vivim.

Foi Podemos transformado polo eleitoralismo?

Nós conhecemos o eleitoralismo no nosso país e como ele tem umha longa tradiçom. Esse eleitoralismo leva a confundir os meios com os fins: o que é um meio para determinada causa social acaba por ser um fim. O qual sempre dá numha burocracia muito consolidada na política institucional e nos ritmos que marcam os meios de comunicaçom, estagnando a mobilizaçom popular. Afinal entramos nessa dinámica de que agora nom é o momento, essa frase nom, assi nom, que prejudicaremos o voto de centro, etc, etc

Consideras que é legitima a luita violenta?

Os processos de mudança político radical som sempre ilegais. Violentos ou nom violentos, mas sempre ilegais. No Estado espanhol existe umha legislaçom que persegue a opiniom a respeito da questom da violência política, a legislaçom do Estado espanhol só permite aplaudir a violência política dos vencedores da Guerra Civil e os seus derivados. Portanto eu nom podo responder a essa pergunta nesta entrevista nem em nengumha outra, como também nom pudemos responder na Audiência Nacional quando o procurador do Estado no-la formulou. O procurador perguntou-nos se éramos a favor da luita armada e da violência política, ao qual respondim que éramos a favor de que os conflitos se solucionassem democraticamente. Hoje inclusive está a aplicar-se a categoria de violência a formas de mobilizaçom que antes nom o tinham, como é o caso dos dirigentes da sociedade civil catalá. Portanto, eu essa pergunta nom podo responder-cha. Nom para evitar a polémica, mas porque no Estado espanhol existe umha legislaçom que persegue a liberdade de expressom a esse respeito. Só pode existir umha opiniom legal, as ouras som carne para a Audiência Nacional.

Resiste-se o Estado espanhol a deixar morrer a ETA?

Nom podo opinar sobre a política concreta do Estado espanhol no País Basco. A ETA foi um movimento que combateu a ferro e fogo, legal e ilegalmente. Após a sua mudança radical de estratégia há uns anos, esperavam-se umha série de gestos do outro lado, mas só existiu umha política de vingança e de terra queimada. Os presos permanecem ainda atrás das grades, nom digo já que devessem estar na rua, que seria o lógico ao finalizar um conflito, só que nem sequer tenhem permitido acederem a um regime penitenciário similar ao do resto de presos do Estado espanhol.

Mas nom lhe parece especialmente estranha essa falta de interlocuçom por parte do Estado espanhol com umha organizaçom terrorista que pretende entregar as armas?

A única resposta do Estado espanhol nos últimos anos foi a de negar toda interlocuçom política ou militar. Tentárom desangrá-los e consumi-los.

Consideras Otegi um ator político válido?

Suponho que si, é um dirigente com muitos anos de bagagem e que foi referendado por grande parte dos militantes do seu movimento. Portanto, deveria poder considerar-se um ator político válido.

Como é possível que se esqueça tam cedo o acidente de Angrois, os incêndios na Galiza, a corrupçom, a crise dos refugiados ou as cargas de 1 de outubro?

Há dous fatores que ajudam a isso. Por um, lado vivemos numha sociedade de grande imediatismo, um mundo em que a memória se perde a olhos vistos. Algo que tem que ver com a revoluçom tecnológica. Hoje vivemos a estímulos de clique, isso nos permite estar muito “informados”, no entanto, nom nos permite diferenciar aquilo que é fundamental do acessório. Por outra parte, existe um monopólio sem fissuras no controlo dos meios de comunicaçom globais. O controlo das mensagens ideológicas por parte da classe dominante é brutal.

Que papel deveriam jogar os meios de comunicaçom no Estado espanhol?

Pergunta muito complicada

Podo-che assegurar que eu também nom sei a resposta

[Risos] Podo falar-che do papel dos meios de comunicaçom a respeito de nós. O seu papel foi um absoluto silêncio historicamente a respeito de todas as nossas açons, umha estratégia de nos considerar um inimigo. Isso e simplesmente reproduzir as notas de imprensa da polícia quando tinham que aplicar a mao de ferro da repressom, essa é a linha que os meios de comunicaçom aplicárom contra o independentismo e que nos fai jogar num panorama muito desfavorável.

Quantos meios se pugérom em contacto contigo a raiz da recente polémica a respeito dos presos políticos no Estado espanhol?

A Direta, Sermos e vocês.

Parece que num contexto em que poderia ser interessante conhecer a tua opiniom?

Nós entramos com muito eco mediático, com todos os focos nas nossas fotos e com todos os nossos dados à luz pública. Mas saímos em silêncio. Bom, saim eu, porque os meus companheiros continuam ali dentro. Saímos sem cobertura, sem voz, sem direito a réplica.

Nom interessa conhecer o teu ponto de vista sobre estes temas?

Isto é um conflito político por enquanto “incruento” para a populaçom. Digo ironicamente incruento, porque quem está a padecer a prisom é chamado violento polo sistema, para assi isto nom preocupar a populaçom. Para que isso funcione, os meios som parte da artilharia deste conflito. Cousa diferente é que existam meios independentes, na internet existem muitas cousas, mas os meios maioritários som os que som. Eu nom puxo do cabelo nem me lamento, fai parte da lógica das cousas.

Quando começas este caminho és consciente das possíveis repercussons?

Sempre o tivemos claro, desde um primeiro momento. A repressom é feita de cenários muito variados. Havia pessoas que se aproximavam de nós com o medo a terminar em prisom, mas nom tés necessariamente que terminar em prisom. Vás é ser vigiado, vam sofrer cambadelas e vás ser perseguido; depois, depende do teu nível de compromisso e doutros fatores mais aleatórios. O castigo pode ser mais ou menos duro, isso depende do caminho político da cada militante e de até onde quiger chegar. De forma muito geral, associa-se o independentismo com repressom e prisom, mas há muitos cenários possíveis, igual que existem muitos cenários possíveis dentro da prisom. Eu hoje estou aqui falando convosco num café, mas os meus companheiros estám a pagar treze anos e nove meses. Agora mesmo –olha o seu relógio– estám aponto de jantar e de se dirigirem para as suas celas. Os cenários som muitos. Nós, quando decidimos militar no independentismo galego, sabíamos que íamos estar vigiados, que iam ir por nós e que, dependendo do caminho que tomássemos, enfrentaríamos umhas conseqüências ou outras.

Que diria a esse pessoal que acusa Puigdemont de cobarde por tentar evitar o cárcere?

Sobre o compromisso que assume cada pessoa com o seu país ou com as suas ideias só pode se pronunciar a própria pessoa. Ninguém pode decidir aonde deve chegar outra pessoa. O único que lhe podemos pedir é coerência. Nós entramos em prisom como presos independentistas galegos, como tais nos comportamos em prisom e na Audiência Nacional, isso e sair como entramos, mais fortes se possível, é o que nós tentamos.

O que opinas do papel da CUP?

Som um movimento fraterno com o nosso, já desde os oitenta e noventa há umha muito boa relaçom com os movimentos independentistas cataláns.

Consideramos hoje esquerda radical o que há uns anos era simplesmente esquerda?

Há um processo de direitizaçom em todos os ámbitos. Posicionamentos que há trinta anos se consideravam mornos, hoje podem ser inclusive considerados como radicais. Todo muda muito rapidamente. Há duas décadas encontrávamo-nos no final da história, hoje muitos posicionamentos estám a abalar.

O que sentiu ao ver entrar em prisom os Jordis?

Nom sentim surpresa, porquanto conheço o Estado espanhol e sabemos até onde pode chegar. A única incerteza era ver os passos que se atreviam a dar no bando independentista, parece que até agora fôrom corajosos.

Tiveste um julgamento justo?

Nom, tivemos um julgamento num tribunal político. Julgamento ao qual fomos conduzidos após passarmos pola lei antiterrorista, sofrendo incomunicaçom, impedindo-nos a assistência de um advogado próprio. Chegamos a esse julgamento depois de um ano e meio presos, num regime que supunha umha prisom dentro da prisom, quem assistiu a esse julgamento pudo ver como se vulnerou o próprio direito à defesa, inclusive os próprios peritos fôrom expulsos da sala. A nossa condenaçom, ano mais, ano menos, estava pré-cozinhada.

Qual foi o motivo polo qual terminaste em prisom?

A condenaçom ditou-se contra quatro militantes galegos, dentro de um ciclo que se inicia em 2005 com a queda de militantes com certa regularidade, nós quatro fomos mais um capítulo dessa série de detençons. O conjunto da condenaçom foi por pertençá a organizaçom terrorista, falsificaçom documental e posse de explosivos. Dentro desse conjunto, eu e a Maria Osório fomos condenados unicamente polos dous primeiros delitos. Foi por isso que nós pagamos inicialmente dez anos, posteriormente reduzidos a oito e em terceira instáncia a cinco e cinco meses. Com as nossas detençons, nom se condenava essas quatro pessoas, era umha mensagem dissuassório para todo o movimento. Umha mensagem que tivo o seu efeito parcial e ao nosso ao redor se criou um verdadeiro “cordo sanitário” de proteçom. Sob o medo, ninguém toma decisons políticas sensatas, num ambiente de medo tomam-se decisons bastante estúpidas e irracionais, para isso existe toda essa panóplia do “enaltecimiento do terrorismo” e a lei antiterrorista.

O que se sente ao entrar em prisom?

Como preso político, um tem que manter a sua contribuiçom com o movimento, embora as comunicaçons sejam escassas e estejam intervindas. Isso depende muito do quanto gostares de escrever, em forma de artigos ou reflexons. Isso e a disciplina som vitais em prisom.

Consideras a política de dispersom umha dupla condenaçom para as famílias?

Si, é umha evidência. A ter um familiar em prisom, somam-se as longas viagens de autocarro, com o consequente risco de sofrer um acidente, umha despesa económica grande para famílias humildes e um meio social alheio à tua língua e aos teus costumes. A moral do coletivo fica desgastada mais facilmente se minas o seu meio, que som quem dam vida aos presos, por sorte nós contámos sempre com umha organizaçom fora que nos facilitou muito as cousas.

Sofreste torturas?

Gosto de ser preciso com isto. Teríamos que pegar no dicionário para saber que palavra usar exatamente, eu escutei verdadeiras torturas a outros presos, mas pessoalmente sofri maus tratos físicos e psicológicos, açons que sempre tinham que ver com a defesa dos meus direitos como preso político. Pequenas agressons que, mais que polo peso da agressom, pesam pola situaçom de humillaçom a que te submetem.

Como é a situaçom das prisons no Estado Espanhol?

Hoje som um modelo de macro cárcere ao estilo americano, nom existe já o velho cárcere provincial. As prisons estám estratificadas a nível interno, dentro nós estamos sempre na secçom mais conflituosa e em primeiro grau. Ali estamos submetidos a mais de 20 horas de cela por dia e à possibilidade de um regime de isolamento, que sofrim nalguma ocasiom e que algum companheiro sofreu por longas temporadas. Conhecemos os espaços mais irrecuperáveis dos cárceres espanhóis, portanto nom podo dizer nada bom delas. Mentiria se disesse algo bom, talvez um delinqüente económico ou um maltratador te podam dar outra opiniom, mas eu falo da minha experiência em prisom e é negativa. No pior dos casos, trata-se de repressom e no melhor deles de armazenar pessoas.

O teu depoimento parece derrubar a teoria da reinserçom

Para isso as percentagens de reincidência da populaçom presidiária som muito significativos.

O que dirias a quem hoje se enfrenta a penas de prisom por publicar umha mensagem numha rede social como Twitter?

Nom podo dar nengumha liçom. Só podo dizer que estamos num Estado de democracia tutelada ou umha falsa democracia e quem optar por dar o passo ao compromisso político deve ficar a saber a é que se expom. Nom o digo num sentido dissuassório, é um ato que tem consequências e há que saber carregar com elas com a cabeça alta e dignidade. Dentro da militáncia política, existem duas atitudes, dobrar-se ou continuar.

Achas que esquecemos partes do passado de personagens como Mandela ou Mujica e ficamos com a mensagem que nos contribui o sistema?

Si, acontece demasiado. É o mesmo que se passa quando os meios falam em manifestantes pacíficos na Ucránia, referindo-se a pessoas que com um fusil de assalto estám a derrubar o seu próprio governo, o poder cria o seu próprio cenário, ri-se de nós, acontece também quando falamos de terroristas na Europa e de rebeldes moderados na Síria.

O que sentiste quando utilizárom a tua profissom para te atacar?
Nisso a imprensa fijo sensacionalismo e admito que o movimento, polo que me chegou, foi pouco crítico. Eu tinha umha bolsa e certos compromissos com o meu departamento, mas ao terminar a minha tese, eu me fum tentar desenrascar-me no meio da precariedade, como todo jovem galego. A inabilitaçom simplesmente fai parte dos entraves que che vam impondo para que nom podas voltar à vida normal.

Qual é a situaçom dos presos políticos independentistas galegos?

Os presos independentistas pagam condenaçons por defenderem as suas ideias, e por isso deveriam estar presentes nas reivindicaçons políticas de todos os movimentos de esquerda. Todo aquele que tiver consciência política deve ter sempre em conta os presos políticos e os presos de modo geral. O local onde as injustiças som mais extremas e mais desassistidas é a prisom. Entre elas, a pobreza: se nom tiveres dinheiro na prisom, a cousa fica complicada. Devemos lembrar os presos independentistas nom por humanitarismo barato, e si porque esses gestos contam muito para lhes podermos fazer a condenaçom mais suportável.

O nacionalismo galego está a lembrar os presos independentistas?

Nom entro no que devem fazer, respeito-o como nacionalista, mas eu nom milito no nacionalismo institucional. Embora nom queira meter o pé na poça, acho que o apoio depois das últimas detençons foi bem mais contundente do que noutras ocasions. Neste momento, as nossas reivindicaçons som mais escutadas por esse setor político, inclusive nas instituiçons.

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