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Diário Liberdade
Terça, 28 Março 2017 06:43 Última modificação em Quinta, 30 Março 2017 16:28

Contra-Inteligência: Espiar dissuade a democracia - Entrevista com o cineasta Scott Noble (Parte 1)

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/ Comunicaçom / Fonte: Metanoia

[Kim Petersen, Tradução de Alejandro Garcia] Scott Noble é um extraordinário produtivo cineasta que construiu uma impressionante colecção de documentários na Metanoia Films. Os filmes tratam de tópicos como a determinação dos plutocratas de se entrincheirar e manter o seu poder e fortuna através de uma miríada de meios — entre as quais operações psicológicas, operações negras, propaganda, desinformação e mais. No ano passado, após ter visto Counter Intelligence, que aborda como os tentáculos das agências de espionagem se impregnaram nos governos e sociedades, tanto nacionais como internacionais, iniciei uma entrevista com Noble para aclarar mais tópicos levantados no filme.

Kim Petersen: Qual foi o teu objectivo ao fazer Counter-Intelligence?

O meu objectivo principal era ajudar as pessoas a entender as agências de informação e as técnicas que eles usam para fazer avançar políticas. A maior parte dos documentários que falam e.g. da CIA tentam provar ou desaprovar uma teoria particular sobre um evento controverso. Há muito pouco no sentido de uma análise estrutural. Ao fazer este filme tenho por objectivo explorar como funcionam estas agências no mundo real. Como mantêm segredos? Quais são os seus mais comuns modus operandi? Qual é o seu propósito final? Em um sentido mais lato quis perguntar se a democracia é sequer possível quando organizações como a CIA existem. Vivemos actualmente sob um híbrido de plutocracia (de plouto, “riqueza”) e cryptocracia (de krypton, “escondido”) que beneficia cerca de 1 porcento da população humana. Não é segredo de que somos governados pelos ricos, mas há uma relativa falta de entendimento da quantidade de informação que é ocultada da esfera pública. Um estudo de 2004, de Peter Galison, de Harvard, concluiu que “o universo de documentos classificados é seguramente não inferior e muito provavelmente muito maior que os documentos desclassificados.”

KP: É o governo Estado-Unidense que controla o governo sombra ou vice-versa?

SN: Isto não é uma questão simples de responder. Nos anos 70, Otis Pike, membro da Casa dos Representantes, investigou a CIA e determinou que este era um braço obediente do poder executivo. Na maior parte isto é provavelmente certo. Por outro lado há exemplos históricos da CIA desobedecendo ao Presidente. O director da CIA, Allen Dulles, continuou os voos dos U-2 sobre a União Soviética em desafio às ordens expressas por Eisenhower que baniam tais operações antes da cimeira com Khrushchev em Maio de 1960. Na Austrália e Bretanha, durante os anos 70, os governos trabalhistas de Gough Whitlam and Harold Wilson foram atacados não apenas pela CIA (o director da Contra-Inteligencia, James Jesus Angleton, considerava erradamente ambos os homens agentes da União Soviética) mas também pelos suas próprias agências de informação. Não vou entrar no assunto do assassinato de Kennedy; é suficiente dizer que considero a história oficial um disparate. Penso que o modelo de rede é mais útil que o binário “governo sombra vs. Governo visível.” Redes de poder cooperam na supressão da maioria, mas também competem entre eles, frequentemente de forma feroz.

Os nossos governantes jogam um jogo perigoso quando concedem uma influência significativa às agências de espionagem. O perigo do secretismo no governo já foi entendido desde, pelo menos, o tempo de Heródoto na Grécia Antiga (e provavelmente muito antes); as agências de espionagem secretas podem constituir uma ameaça não apenas aos objectivos professados por um governo (liberdade, democracia, honra, segurança etc) mas também aos próprios governantes. Em Counter- Intelligence Pt 1 (“The Company”) exibo uma citação de um membro do Congresso Estado-Unidense de, mais ou menos, 1800, duas décadas após a Convenção Constitucional [Convenção de Filadélfia], na qual ele exuberantemente avisa “se um sistema de espionagem é estabelecido, o país vai ter um enxame de informadores, espiões, e toda uma odiosa tribo de répteis que se reproduzem ao sol de um poder despótico.” Ou considera os escritos de Maquiavel sobre mercenários. Em “O Príncipe”, Maquiavel, argumenta com racionalidade que os mercenários, que dependem da guerra para a sua subsistência, têm uma tendência para criar conflitos quando absolutamente nenhum seria necessário.

“Não nos diz a história que assim que tivéssemos muitos soldados em Itália, e estes não obtendo o seu soldo, por as guerras terem chegado ao fim, formavam eles próprios Companhias, coagiam as cidades-estados a pagar-lhes, pilhavam as zonas rurais e eram uma praga sobre a nação?”

Maquiavel estava também preocupado por os mercenários usurparem o poder das autoridades legítimas. Um mês após o homicídio de John F. Kennedy, o antigo presidente Truman escreveu um op-ed para o Washington Post (retirado nas edições posteriores) no qual expressa preocupações semelhantes sobre a CIA aka The Company:

“[A CIA] foi desviada do sua missão original. Tornou-se um braço operacional e por vezes definidor de políticas do governo.”

A CIA não pode ser reduzida ao estatuto de uma organização mercenária, no entanto há algumas similitudes.

Peter Dale Scott reconheceu que o Office of Policy Coordenation — o braço original de “operações negras” dentro da CIA — servia como “ a coisa especial de Wall Street” nos primeiros anos da Guerra Fria. De facto o grupo conselheiro inicial organizado por Allen Dulles, ele próprio um advogado da Sullivan & Cromwell, consistia quase inteiramente de banqueiros investidores e advogados de Wall Street. O golpe de estado em Guatemala é elucidativo a este respeito. Foi essencialmente executado em nome da United fruit Company. Sem embargo, isto não infere necessariamente um conflito com o estado. O director da CIA, Allen Dulles, pertencia à firma de advogados da United Fruit e tinha acções na empresa; John Moors Cabot, Subsecretário de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, era irmão de um antigo presidente da United Fruit; e a secretária pessoal do Presidente Eisenhower era casada com o director do departamento de relações públicas da United Fruit. Se, tal como Mussolini escreveu, a característica definitiva do fascismo é “a fusão do estado com o poder empresarial” então os Estados Unidos já há muito tem tendências fascistas.

Hoje a situação é muito mais complexa. Mesmo que coloquemos de lado a espionagem empresarial, um campo em rápido crescimento, é difícil manter o rastro do número e do alcance das organizações de inteligência que operam nos EUA. Quando eu comecei a fazer Counter-Intelligence o número oficial era de 16; neste momento são 17. Quando esta entrevista for publicada pode muito bem haver 18. O crescimento insidioso destas agências é obviamente problemático, se por mais nenhuma outra razão porque as burocracias têm tendência a se auto perpetuar. Estas encontram maneiras para justificar a sua existência. No filme eu cito William Burroughs de Refeição Nua (Naked Lunch).

“Uma agência enraíza-se em qualquer lado no estado, volve-se maligna como a Agência Federal de Narcóticos, e cresce e cresce, sempre reproduzindo mais do seu tipo, até que esgana o seu hospedeiro se não é controlado ou excisado.”

Quanto ao que toca ao Complexo Militar Industrial-Inteligência, uma melhor analogia que a da organização mercenária é a Guarda Pretoriana da Roma Antiga. Um antigo agente da CIA, John Stockwell, fez uma comparação, após ter denunciado atrocidades da CIA em África, ressaltando que “a Guarda Pretoriana chegou a exercer um enorme poder, fazendo e desfazendo imperadores e permitindo acções políticas e militares fora da lei.”

Os Estados Unidos nunca teve intenção de ser uma Democracia — foi concebido para ser uma Plutocracia — mas mesmo as formas limitadas de representação repartidas pelas pessoas, delineadas “Pais Fundadores”, são impossíveis quando tens um enorme e em grande medida governo sombra que não presta contas a ninguém.

É fascinante olhar para trás na história da guerrilha, mutuamente destrutiva, dentro da classe governante dos Estados Unidos, especialmente durante a Guerra Fria, mas esse não foi o meu objectivo ao fazer este filme. Já existem documentários mais que suficientes sobre o assassinato de JFK, por exemplo. Basicamente disponho-me a analisar de uma forma muito abrangente estes elementos semi-escondidos da estrutura de poder estado-unidense e a analisar o tipo de técnicas que estes empregam ao serviço das elites. Esse é o seu propósito final — servir o poder — mesmo que os envolva em lutas de facções e mesmo se se tornam um importante e semi-autónomo componente da estrutura do próprio poder.

KP: A parte 1 de Counter-Intelligence, “The Company”, discute a “negação plausível” — como agentes de patente elevada escapam à responsabilidade por se manterem fora do “laço”. Qualquer um poderia assumir que o decisor iria exigir ser mantido informado...

SN: Parece contra-intuitivo mas tem igualmente uma certa dose de sentido.

No filme eu mostro um excerto de Kermit Roosevelt, um dos primeiros agentes de operações negras da CIA, abordando a Operação Ajax — o golpe de estado para derrubar Mossadegh no Irão (1951). Além da manipulação das eleições em Itália, Ajax foi o primeiro golpe de estado da CIA, criando um modelo para futuras intervenções.

Roosevelt descreve um encontro em que participaram vários oficiais do departamento de estado, incluindo o secretário de estado John Foster Dulles (irmão do director da CIA Allen Dulles). O consenso foi que o golpe de estado deveria ser levado avante mas que “queriam saber o mínimo possível.” Então havia, desde o início, o desejo de quem toma as decisões de usar a nova agência para conduzir operações ilegais enquanto tentavam manter as suas mãos limpas.

No seu AMA (Ask me Anything/pergunta-me qualquer coisa) no sítio popular Reddit, o fundador da Wikileaks, Julian Assange, afirmou que “o secretismo nunca foi intencional para permitir a criminalidade nos mais altos cargos do estado.” Estava a ser diplomático. A verdade é que o OPC foi explicitamente desenhado para este propósito. O documento do Conselho de Segurança Nacional 10/2 declara que as operações ilegais da CIA (incluindo “sabotagem... demolição... e subversão contra estados hostis”) devem ser conduzidos de maneira a que o governo dos EUA possa “descartar de forma plausível qualquer responsabilidade.”

Em certos casos a negação plausível não é tão plausível. George H. W. Bush (e em menor grau Ronald Reagan, que apenas foi semi-lúcido na altura) estava profundamente envolvido no Caso Irão-Contras, mas alegou não ter tido conhecimento. A história que inventaram — que tinham sido vitimas de uma facção super patriota excessivamente zelosa — era obviamente um disparate, mas os média e a maioria dos Democratas corroboraram a história. Os super-patriotas também entraram na fantochada, sabendo que o seu “castigo” seria reduzido ou não existente. Ollie North cai na espada ilusória e mais tarde acabou por aceitar um trabalho na Fox News como analista político.

Negação plausível é também usada por pessoas dentro das agências de informação, indo mesmo até ao fundo da linha dos contratantes e subcontratantes. Podêmo-lo ver hoje com organizações mercenárias como Blackwater/Academi que são afiliadas muito chegadas à CIA, ainda que apresentadas como “independentes.”

Na verdade, toda a gente tenta criar uma disjunção entre a ordem inicial e a operação. Temos a impressão de Hollywood que os agentes da CIA têm o nono grau de cinturão negro e andam por aí a matar pessoas com as próprias mãos à Jason Bourne. Não é assim que funciona. Excepto com um pequeno número de indivíduos como Dan Mitrione (um sádico que dava demonstrações de tortura ao vivo aos militares no Uruguai durante a Guerra Fria), os agentes de inteligência tentam, o máximo que podem, não sujar as mãos. Estão felizes em fazer parcerias com as pessoas mais desprezíveis na Terra — barões da droga, fascistas, esquadrões da morte etc., mas tal como Stockwell o coloca, é “um tipo de relação civilizada.”

Uma das razões por que não vemos frequentemente e de uma forma extensa provas concretas, pistas em papel para as verdadeiramente controversas operações negras é porque as “ordens” podem literalmente se reduzir a um piscar de olhos ou um aceno com a cabeça. O historiador William Blum descreveu um episódio, dos anos 50, de quando uma declaração de Eisenhower dizendo que “o problema Nasser podia ser eliminado” (referindo-se a Gamal Abdel Nasser, então presidente de Egipto) foi mal interpretada pelo director da CIA, Allen Dulles, como uma ordem para o seu assassinato. O erro foi descoberto e o ataque cancelado, mas o exemplo dá-nos uma ideia de como este tipo de coisas é feito no mundo real. Há uma espécie absurda de propriedade e formalidade entre os oficiais de topo ao orquestrar os actos mais brutais imagináveis.

KP: Em o “The Company” também abordas a “necessidade de saber.”... O que é que isto nos diz de um subalterno que cumpre ordens ignorando o porquê e quais as ramificações que o cumprimento destas têm? Poderíamos arguir que os humanos têm o direito de ser informados.

SN: A compartimentação e “a necessidade de saber” são conceitos cruciais para entender as agências de informação, sem embargo permanecem virtualmente desconhecidas entre o grande público. Podíamos até alegar que esta falta de conhecimento é em si mesmo um exemplo de compartimentação com as “pessoas comuns” sendo este o grupo mais compartimentado. Sempre que alguém argumenta a favor de uma especialmente controversa “teoria conspirativa” há sempre a proclamação que “seguramente estavam todos metidos nisso!” Usando um termo da psicologia, podemos chamar a isto “realismo inocente” ou realismo de sentido comum. Olhamos as nossas experiências do dia-a-dia de uma forma equivalente àquelas pessoas empregadas no mundo altamente atípico da burocracia das agências modernas de informação. Na verdade o que a história nos mostra é que há, de facto, mecanismos que mantêm indivíduos no escuro, mesmo aqueles que participam em uma operação.

Um exemplo famoso é o Projecto Manhattan, um esforço de construção gigantesco responsável pela produção da bomba atómica. 130,000 pessoas trabalharam no programa mas apenas uma mancheia estava consciente do objectivo final. Nem sequer o Vice-Presidente Harry Truman teve conhecimento dos detalhes até à morte de FDR. Tinhas pessoas em Richland a trabalhar em engenharia, tinhas o laboratório de radiação em Berkeley, trabalhos sobre águas pesadas em Morgantown e por aí adiante. No entanto estavam praticamente todos fora do “laço”. A mão esquerda não tinha ideia do que a mão direita estava a fazer.

O documentário da BBC sobre a Operação Gládio providencia um relato em primeira mão de como — através da compartimentação — uma pessoa bem intencionada se pode volver uma parte inconsciente de uma atrocidade. Gládio é um nome generalista dado a uma campanha terrorista de bandeira falsa levada a cabo pela CIA, MI6 e a inteligência da NATO durante a guerra fria e com o seu foco primário na Europa Ocidental.

Durante os anos 80 uma série de massacres que foram levados a cabo em supermercados em Brabant, Bélgica. Homens encapuzados começaram a entrar em supermercados e a abrir fogo com metralhadoras, matando homens, mulheres e crianças. Ninguém era poupado. Isto levou a um clima de terror. O propósito, de acordo com um participante no braço italiano da Gladio, era criar uma “estratégia de tensão” com a qual o público “se voltasse para o estado”... pedindo uma “maior segurança.” Esquerdistas e comunistas eram comummente culpados pelos ataques.

Um dos homens entrevistados pela BBC declarou que o seu papel nos massacres de Brabant eram de reconhecimento. Tinha-lhe sido dito que fora a várias supermercados, fizera fotos, preparara esquemas e por aí adiante. Não tinha qualquer ideia de qual seria a finalidade. Mas este era um patriota, lutando contra os ateus comunistas e portanto cumpriu o seu dever. Foi apenas quando leu os periódicos que se apercebeu que tinha involuntariamente ajudado a orquestrar uma série de massacres. Apesar de alguns descargos de consciência este não falou sobre o assunto até que a operação fosse (parcialmente) revelada em investigações parlamentares. Por que não revelou o que sabia mais cedo? Penso que a resposta é óbvia: tinha sido feito cúmplice em um crime terrível e revelá-lo poderia muito bem acabar com ele em uma sepultura.

Tal como o Projecto Manhattan, a Operação Gládio é um excelente exemplo de compartimentação em grande escala. Havia dezenas de células em dezenas de países conduzindo ataques terroristas ao longo do curso de décadas, no entanto apenas uma mancheia de homens no topo tinham conhecimento do esquema global. Nem sequer os líderes eleitos das várias nações europeias estavam no “laço”, no entanto, havia, frequentemente, alguma coincidência com alguns oficiais seleccionados dos departamentos de defesa/inteligência.

Há uma perturbadora conclusão a ser alcançada e que muita gente é relutante a aceitar: não somos apenas governados por instrumentos visíveis do estado ou sequer da corporação. Existem, aquilo a que o participante da Gladio, Vincent Vinceguerra, chamou de “estruturas paralelas” de poder. Peter Dale Scott descreve essas redes, colectivamente, como “o estado profundo”. Instituições não democráticas como a Reserva Federal e o Conselho de Relações Exteriores [CFR] estão incluídas na definição de Scott, mas também estão grupos que actuam completamente fora da lei — ironicamente em parceria com a lei — para avançar uma agenda de elite.

KP: Daniel Ellsberg acredita que “a esmagadora maioria dos segredos não são revelados ao público estado-unidense...” Podias contrastar a posição informada de Ellsberg com o mito tradicional de que poucos segredos podem ser mantidos escondidos em “democracia”?

SN: Noam Chomsky e outros analistas dos média têm afirmado que a propaganda se torna mais necessária, não menos, em sociedades “democráticas” pela simples razão de que interessa em maior proporção o que as pessoas pensam.

A importância da opinião pública em “democracias liberais” também ajuda a explicar por que a CIA ascendeu a tamanha proeminência, e por que as operações negras se volveram o pilar fundamental da política externa Estado-Unidense. O mito dos Estados Unidos como bastião da liberdade e democracia é obviamente incompatível com o derrubamento de governos democráticos por todo o mundo. Portanto há a necessidade de o fazer em segredo. É um conceito extraordinariamente simples que parece ter escapado a grande parte do mundo académico. As Operações Negras são muito mais amigáveis das Relações Públicas e da relação preço-efectividade que uma agressão militar total. Isto não quer dizer que a agressão militar não seja importante; torna-se crucialmente importante quando outros mecanismos falham e é igualmente vital para projectar potência bruta e assegurar o controlo de recursos e localizações geoestratégicas no “grande tabuleiro de xadrez.”

Se gostas de ler periódicos podes notar que, mais ou menos a cada par de meses, algum segredo de segurança nacional já há muito enterrado é revelado sem cerimónia. Um dos meus favoritos, revelado em 1995, é que a CIA ajudou a fundar e a promover pintores expressionistas como Jackson Pollock para combater a arte “social realista” durante a Guerra Fria. Este é um exemplo estranho. Outros são consideravelmente mais perturbadores.

A Operação Mockingbird, uma tentativa de sucesso da CIA de se infiltrar e influenciar as organizações de média dos Estados Unidos, que teve início em 1948 mas que não foi exposta até 1975 — 27 anos depois. As experiências de controlo de mentes da CIA , que começaram com a Operação Artichoke em 1951, não foram reveladas por 24 anos (mesmo após ter sido revelado, de acordo com o agente Victor Marchetti, vimos apenas uma ínfima parte do que realmente aconteceu). Testes militares biológicos e químicos sobre a população dos Estados Unidos começaram a sério durante os finais dos anos 40 mas não foram revelados até aos Comités Church e Rockefeller em 1975 e Comité Consultivo sobre as Experiências Humanas com Radiação em 1994. Portanto mais ou menos 30-50 anos. Alguns destes documentos sobre estas experiências continuaram classificadas; outras foram simplesmente feitos em pedaços, tal como reconheceu o antigo director da CIA Richard Helms a respeito do MKULTRA.

Em 2006, documentos que concerniam uma campanha coligada dos EUA-Reino Unido conduzida em Albânia foi finalmente divulgada sob os termos do Nazi War Crimes Disclosure Act [Acto de Revelação dos Crimes de Guerra Nazis]. A operação variava de nome entre BGFIEND e OBOPUS, e envolvia tentativas deliberadas de fomento de guerra civil em Albânia. Passaram 59 anos até que o público tivesse conhecimento desta operação.

É reconfortante acreditar que os actos ilegais cometidos pelos governos ocidentais são imediatamente expostos por uma imprensa adversária de vigia, mas o registo histórico não dá suporte a esta visão. De facto, Ellsberg, refere que o mito da transparência é comummente aceite porque é uma maneira de elogiar e ludibriar jornalistas e os seus leitores.”

Nunca houve uma “imprensa livre” nos Estados Unidos, pelo menos não no sentido popular do termo. Tem havido muitos jornalistas e publicações excelentes — maioritariamente periódicos de trabalhadores, média underground/alternativa e o dissidente ocasional nos canais principais — mas as instituições de média dominantes (the New York Times, Washington Post etc.) sempre representaram os ricos, sempre se comprometeram na auto-censura e sempre tiveram relações incestuosas com os militares.

Walter Lippman, o “Pai do Jornalismo Moderno,” trabalhou com a Comissão Creel durante a I Guerra Mundial para, através de propaganda, levar o público estado-unidense à guerra. O mesmo para Ivy Lee e Edward Bernays, os pais da indústria moderna de Relações Públicas.

Após a II Guerra Mundial vemos um padrão semelhante. Ainda frescos do Gabinete de Informação de Guerra (OWI) e outros gabinetes de guerra psicológica do género tinhas os editores da Time e Fortune; os directores da Holiday, Coronet, Parade e Saturday Review; os responsáveis da Viking Press, Harper & Brothers, Srauss and Young; o presidente da CBS; o director da Reader's Digest e por aí adiante (ver The Science of Coercion de Christopher Simpson). Mockingbird é frequentemente apresentado como uma “infiltração” dos média pelas agências de informação, mas isso é apenas uma parte da história; a verdade é que essas instituições não necessitaram de nenhuma pressão. Os barões dos media e os senhoras da guerra eram da mesma classe e compartiam da mesma visão geral do mundo e olhavam-se uns aos outros como camaradas e não como adversários.


Considera a seguinte citação de Katherine Graham, que liderou o Washington Post por mais de duas décadas: “Vivemos num mundo sujo e perigoso. Há certas coisas que a generalidade do público não precisa saber e não deve. Eu acredito que a democracia floresce quando o governo pode tomar passos legítimos para manter os seus segredos e quando a imprensa pode decidir o que imprimir.”

Hoje a situação aproxima-se da farsa. A concentração dos media eliminou das massas todo o jornalismo que lhe era adversário e agora temos situações onde plutocratas se sentam simultaneamente nas direcções das maiores companhias de media e de produção de armas. A CNN foi apanhada a trabalhar com “guerreiros psicológicos” do exército dos EUA, durante o assalto a Sérvia. Durante a “Operation Iraqi Freedom”, com o programa “Analistas do Pentágono” via-se “ex” generais do exército dos Estados Unidos, com ligações financeiras directas a contratantes de armas, contratados como “analistas imparciais” para as notícias da noite. Reportagens dos recentes eventos em Ucrânia revelam uma trajectória em contínua queda do “Quarto Poder”.

Assange está correcto quando apelida estes órgãos de propaganda de “velha média.” Os novos média encontram-se online em sítios de notícias como “Dissident Voice, Information Clearing House, Project Censored, PR Watch, Global Research, Counterpunch, Who What Why e por aí fora.

Voltando a Ellsberg, é digno de atenção que quando ele descreve a questão do secretismo em sociedades “democráticas” este usa a frase “esmagadora maioria”: “a esmagadora maioria dos segredos não são revelados ao público estado-unidense.” Isto não é o trabalho de um desvairado em uma rádio AM — este é o homem que revelou os Papéis do Pentágono.

KP: No teu filme, o antigo agente da CIA declara que o “interesse nacional” é um instrumento político para manter o público na ignorância. Manter o público no escuro é aparentemente a política do governo. Comentas?

SN: Essa exacta ideia do “interesse nacional” é intrinsecamente falaciosa. Todos gostamos de apoiar os nossos países nos Olímpicos mas também vivemos em sociedades de classes. A função primária do estado é defender os interesses das pessoas no topo da pirâmide da sociedade. Tudo resto é secundário. Isto é natural e previsível e não deveria surpreender ninguém. James Madison, o primeiro arquitecto da Constituição dos Estados Estados Unidos, declarou explicitamente nos documentos federais que “devemos proteger a minoria opulenta contra a maioria.” A mesma filosofia está no imo dos primeiros estados (que tal como os EUA eram estados esclavagistas)

O problema, claro está, é que os interesses considerados da classe governante são frequentemente diametralmente opostos aos do resto da sociedade. Ouvimos frequentemente liberais e conservadores lamentado-se que a globalização corporativa tem sido “um falhanço total” ou “um desastre”, mas é um desastre para quem? Certamente não será para as pessoas que aumentaram imensamente a sua fortuna devido aos vários acordos de “comércio livre”. A Competição é um jogo de soma zero: o meu “sucesso” depende do “falhanço” do outro.”

Não necessitamos de depender da teoria política e económica para demonstrar que os interesses da classe governante são frequentemente diferentes dos seus subordinados. Basta olhar para a história documentada da CIA. Os primeiros dois golpes de estado foram no Irão e Guatemala. Nenhum destes “inimigos” estavam em perigo de ser tomado pela União Soviética; nenhum estava a ser tomado por “comunistas”, nenhum destes apresentava qualquer ameaça para o Estados Unidos. Eram, no entanto, uma ameaça aos interesses das grandes empresas ocidentais. Portanto foram derrubados.

Nem sempre é uma questão de benefício económico directo, de controlo directo de recursos ou sequer de geoestratégia. O mero acto de um estado afirmar independência de qualquer âmbito (“o perigo do bom exemplo”) é geralmente suficiente para usar-se o martelo do império. Durante o assalto à pequeníssima ilha de Granada durante a administração Reagan — a “guerra” mais desigual da história da humanidade — O Gipper [Reagan] na verdade até disse, “não é apenas por causa da noz-moscada, é pela segurança nacional dos EUA.”

Ouvimos cada vez menos actualmente a expressão “interesse nacional”, provavelmente porque se tornou dolorosamente óbvio que bombardear um longínquo país qualquer não tem nada que ver com os interesses do trabalhador médio José/Maria. Então foi alterada por “segurança nacional.” Esta última expressão é mais efectiva porque apela aos nossos instintos mais primários — o medo. É também uma extraordinária frase que serve vários propósitos, tal como manter documentos classificados que possam expor a perfídia daqueles que nos governam. Foi reportado, que George H. W. Bush gracejou durante o escândalo Irão-Contras, “se o povo estado-unidense descobrisse o que fizemos, seríamos perseguidos pela estrada fora e nos linchariam.”

KP: Parte II de Counter-Intelligence, “The Deep State” examina o encarceramento por lucro e o crescente número de prisioneiros nos Estados Unidos, em grande medida atribuível à chamada guerra à droga. Qual é o papel do crime organizado de tráfico de drogas, tendo em conta que autores como Gary Webb expuseram o envolvimento da CIA no tráfico de droga. Que papel têm as agências de informação na guerra à droga?

Além de isso, em um sistema que promove um forte individualismo, não será que negar o direito a um indivíduo de ingerir substâncias da sua escolha paternalista e hipócrita? Em vez de isso a polícia usa extraordinários recursos para prender pessoas que se auto-administram em vez de se focarem mais nos crimes pessoa-a-pessoa. Não seria a legalização uma melhor solução (com os impostos a irem para a educação e tratamentos de dependências sobre as drogas)?

SN: Absolutamente. No filme destaco que isto já foi há muito tempo entendido pelos decisores políticos. Os políticos sentem uma necessidade irresistível de se exibirem como “duros contra o crime” (mesmo ao mesmo tempo que mimam criminosos de colarinho branco e criminosos de guerra) mas a maior parte deles, provavelmente, sabe que a guerra à droga é uma treta.

Há várias décadas atrás um estudo da Rand Corporation determinou que a “guerra às drogas” era completamente ineficaz nos objectivos declarados. Ênfase na palavra declarados. Enquanto que a guerra à droga falha claramente no sentido de parar que as pessoas consumam substancias ilícitas, alcança outros objectivos: permite aos políticos um lugar de destaque no assunto do crime; providencia enormes quantias de capital líquido para os bancos; cria enormes lucros para os fabricantes de armas (que abastecem ambos os lados do conflito); justifica o estado policial; acrescenta dinheiro para os orçamentos negros da CIA e outras agências de informação; e talvez o mais importante, permite um mecanismo de aprisionamento de “população supérflua”, pessoas pobres que, em alternativa, poderiam estar a organizar-se pelos seus direitos.

Finalmente estamos a ver bastantes reacções negativas em relação ao assunto da proibição de Marijuana, mas ainda temos muito que andar em termos de proibição de drogas como um todo. David Simon, o criador da aclamada série de televisão, The Wire, tem, para dizer a verdade, defendido que a tendência no sentido da descriminalização da Marijuana é um passo atrás:


“Quero que a coisa caia como um único edifício. Se eles arranjam maneira de deixar umas poucas pessoas brancas de classe média de fora, é muito perigoso. Se eles arranjam uma maneira dos chavalos brancos de classe média dos subúrbios se “pedrarem” sem que tenham que ir para a prisão e levá-los a pensar que o que eles fazem está a um milhão de milhas dos chavalos negros que usam crack, isso seria o que os políticos fariam.”

Compreendo os sentimentos de Simon mas tenho que discordar. Além do facto de que milhões de pessoas estejam a sofrer neste momento devido a leis anti-canabis, considero que a tendência em direcção à legalização uma rara vitória para as pessoas comuns — brancas, negras, amarelas, roxas ou outras.

A proibição de drogas e leis “morais” são em geral uma bênção tanto para imposição de lei como para o crime organizado. A relação entre estes alegados “arqui-inimigos” é na verdade mais simbiótica que antagonista e as pessoas no topo entendem isto bem. Se vês filmes populares de gangsters ou séries de TV podes ficar com a impressão de que há uma guerra implacável entre os Tony Sopranos do mundo e os J. Edgar Hoovers. Mas, de facto, o governo dos EUA sempre teve uma relação confortável com a máfia e o crime organizado.

Durante a II Guerra Mundial, a Agência de Inteligência Naval [ONI] aliou-se com Lucky Luciano de maneira a providenciar cobertura para a invasão de Itália via Don Calogero Vizzini. Durante esse processo, os Aliados ressuscitaram, na prática, a máfia que tinha sido paralisada por Mussolini (este não gostava de competição). Após a II Guerra Mundial, a Agência de Inteligência Naval, a Agência de Serviços Estratégicos e a CIA aliaram-se com a máfia em Córsega, Marselha e outros locais estratégicos de embarque, usando o crime organizado para corromper e minar os sindicatos. Isto, por sua vez, levou à “Conexão Francesa”, que inundou os EUA com heroína.

Praticamente todas as regiões do mundo que se tornaram grandes exportadoras de drogas ilícitas foram fortemente influenciadas pelas actividades da CIA. Esta correlação é dramática, seja na Indochina, Ásia Central ou América Latina. Uns poucos agentes da DEA já o revelaram, ainda que tenham sido completamente ignorados (o ex-agente da DEA declarou, “nos meus 30 anos de história na DEA e agências relacionadas, os principais alvos das minhas investigações revelavam-se, invariavelmente, como estando a trabalhar para a CIA.”) Não devo dizer totalmente [ignorado]. No filme eu apresento um vídeo de um programa de notícias da CBS de 1982 que debate abertamente o tráfico de drogas da CIA no contexto do Banco Nugan Hand e o golpe suave da CIA contra o Primeiro-Ministro australiano Gough Whitlam. O problema é que estas denúncias são extremamente raras e rapidamente caem nas profundezas da memória.

A “guerra às drogas” tal como a “guerra ao terror” é uma empresa totalmente cínica. O Plano Colômbia de Bill Clinton é um exemplo particularmente grotesco de como estas campanhas afectam as pessoas no “Terceiro Mundo.” O grupo estado-unidense de mercenários Dyncorp, mais conhecido por traficar escravos sexuais na Europa de Leste, com a sua sede em Reston, Virginia, mesmo ao lado da CIA, foi contratado para despejar grandes quantidades de Roundup Ultra, um produto tóxico da Monsanto, em florestas e vilas por toda Colômbia. O inesperado: apenas foi pulverizado em áreas controladas pelas FARC, grupo de guerrilheiros marxista. As regiões controladas pelos paramilitares patrocinados pelo estado — as principais dos traficantes de droga — foram poupadas. Qual foi o efeito? Contaminação do ambiente, a destruição de plantações vitais (não apenas das plantas de coca mas de tudo desde a papaia até aos tomates), a morte do gado e em última instância o envenenamento de todos nas áreas alvejadas, incluindo crianças. Estudos têm relacionado o Glifosato, o principal componente de Roundup, com cancro.

Qual foi o efeito no negócio da droga? Pequeníssimo ou nenhum. De facto a guerra à droga, na Colômbia, em boa verdade aumentou as exportações de cocaína para os Estados Unidos. Sempre que o governo dos EUA declara guerra a algo é seguro apostar-se que os seus esforços irão agravar o problema. Isto não é porque os nossos líderes políticos são incompetentes (que são), é porque os objectivos declarados são geralmente propagandistas.

KP: Lançaste o filme apenas umas semanas antes das revelações de Edward Snowden. O que pensas das revelações de Snowden sobre a NSA [Agência de Segurança Nacional]?

SN: Tal como Bradley (agora Chelsea) Manning e outros delatores, e contrariamente a um sem fim de soldados rasos que seguem ordens até à sua própria sepultura, Snowden, será lembrado pela história como uma pessoa brava e honrada Snowden confirmou através de documentos oficiais o que outros delatores da NSA, como Russ Tice e William Binney, já tinham declarado; nomeadamente que a NSA está a espiar os seus cidadãos (e basicamente todos os outros) em violação directa do seu mandato oficial. Snowden também revelou o inacreditável alcance destes programas. A NSA está literalmente a “recolher tudo”, nas palavras do ex-director da NSA, Gen. Keith Alexander, e a guardar estes (nossos) dados por um período indefinido.

Quando li o livro de James Bamford, Body of Secrets (2001) fiquei chocado pela absoluta enormidade da NSA como instituição. A sua sede, apelidada de “crypto-city”, usa mais ou menos a mesma quantidade de electricidade que a capital de Maryland, Annapolis. Têm seis acres de computadores. Têm 17.000 lugares de estacionamento. Têm o seu próprio festival de cinema, clube de iate e esqui, viagens para locais chiques em Áustria e Suíça. O General Alexander construiu ele próprio um “centro de comando” de 10,000 pés quadrados que se assemelha à ponte de comando da Star Trek Enterprise, com o som característico das portas e tudo. Isto tudo com os cêntimos do contribuinte. Aparentemente nem sequer uma sede com o tamanho de quase uma cidade foi suficiente. O governo dos EUA está agora a construir outro enorme complexo da NSA em Utah, presumivelmente para guardar todos os dados suculentos que estão a extrair.

A resposta às revelações de Snowden foi provavelmente mais reveladora que as próprias revelações.

Transformando a realidade nas suas cabeças, políticos e analistas rotularam Snowden de traidor. Por quê? Porque este revelou actividades traidoras. Isto é totalmente Orwell. Entretanto, grandes segmentos da população evidenciaram uma chocante falta de preocupação com a sua própria privacidade.

O mantra dos fetichistas da segurança é “não tenho nada a esconder.” O que realmente querem dizer é que olham o estado como o seu benevolente supervisor, protector e de forma geral uma figura paternal. Dada a história que eu documento em Counter-Intelligence, tais crenças não são apenas ingénuas mas também profundamente perigosas. Se vives no “Primeiro Mundo” é altamente improvável que encontres o teu fim às mãos de um “terrorista”. A Atlantic reportou em 2012 que o número de cidadãos dos Estados Unidos que morrem de ataques terroristas é “comparável... ao número de cidadãos dos Estados Unidos que morrem pelas suas televisões ou mobília cada ano.”

É muito mais provável que o teu próprio estado te oprima ou te mate que qualquer outro inimigo externo. Considera o Projecto MINARET (1967-1973) da NSA. Implicava a criação de listas de vigilância de 5,925 não nacionais e 1690 organizações e cidadãos estado-unidenses. Entre os nomes estavam Martin Luther King, Malcolm X, Jane Fonda e o dr. Benjamin Spock.

Glenn Greenwald sugeriu que iria publicar documentos revelando que a NSA continua a espiar activistas. Já sabemos que o FBI, em conjunção com os departamentos de polícia locais e “centros de fusão”[centros de partilha de informação], vigiaram e por fim atacaram o movimento pacífico “Occupy Wall Street”. Para detalhes mais sombrios vê o meu filme “Rise Like Lions”.

Mesmo se pomos de lado temas como a privacidade, dignidade pessoal, colocar sob ameaça activistas, espionagem empresarial e os efeitos da espionagem intrusiva nas relações internacionais, ainda temos o problema da chantagem.

A CIA, e provavelmente todas as maiores agências de espionagem na história do mundo, envolveram-se em operações de chantagem de forma rotineira, frequentemente em operações “honey pot”. Um exemplo de “honey pot” seria uma armadilha orquestrada para comprometer um VIP devido às inclinações sexuais dele ou dela. Quando acrescentas o facto de que grande parte da burocracia das agências de informações foi subcontratada a empresas e grupos mercenários para gerar lucros (o próprio Snowden trabalhou para a Booz Allen Hamilton) os riscos tornam-se ainda mais dramáticos.

O delator Russ Tice, da NSA, que tinha um nível de segurança de acesso mais elevado que Snowden, declarou que a agência espia, de facto, VIP's domésticos. Novamente, isto não seria algo novo. Documentos publicados em resposta ao National Security Classification Appeals Panel, revelaram que a NSA espiara pelo menos dois senadores durante as investigações do Comité Church (1975), o Senador Howard Baker e o próprio Senador Frank Church.

De acordo com Tice, alvos mais recentes incluíram Hillary Clinton, o Senador John McCain e Diane Feinstein, Colin Powell, Gen, David Petraeus e Barack Obama quando era Senador por Illinois. Obama tinha anteriormente trabalhado para a Business International Corporation, uma conhecida organização de fachada da CIA (apenas uns poucos respeitáveis jornalistas, como John Pilger, comentaram sobre o peculiar período de Obama na BIC). Estes programas de espionagem supostamente caem sob a categoria “ECI” (informação controlada extrema) e “VRK” (informação muito restrita). Nas palavras de Tice:

“É muito compartimentado... Pode estar a acontecer algo na NSA, onde há literalmente 40 pessoas que sabem que se está a passar na agência inteira.”

As pessoas que insistem que não têm “nada a esconder” podem querer parar e considerar se o mesmo pode ser dito do seu político médio. Eu iria ao ponto de dizer que os programas de espionagem da NSA tornam a “democracia representativa” impossível. O político, que possas pensar que merece a tua maior confiança, tem, provavelmente, no melhor caso, metaforicamente, alguns esqueletos no guarda-fatos, ou no pior caso, literalmente, esqueletos no guarda-fatos.

Internacionalmente, os documentos de Snowden reafirmaram que as agências de vigilância da “Angloesfera” (EUA, Canadá, R.U., Austrália, Nova Zelândia), também conhecidos como “Os Cinco Olhos” são altamente incestuosas. Em 2013, o Brisbane Times reportava que o governo australiano estava a construir umas novas instalações de alta segurança de última geração no HMAS Harman, base de comunicações conhecida como “a caixa-forte negra” que vai “permitir às agências de informação lidar com o “dilúvio de informação” canalizados da internet e redes de telecomunicações globais.”

KP: Documentaste impressionantes manobras da CIA contra o governo australiano que eu não tinha conhecimento. Esta revelação vai mais ao coração da dissuasão da democracia.

SN: Sim, em Counter-Intelligence exploro o pouco conhecido, sem embargo incrível golpe suave conduzido contra o Primeiro-Ministro australiano Gough Whitam durante o início dos anos 70. Os estatutos da CIA demandam que os agentes não se envolvam em actos de espionagem dentro dos Cinco Olhos sem a aprovação explícita do governo anfitrião. Afinal o que realmente queriam dizer era sem a aprovação explícita das agências de informação do governo anfitrião. O pecado capital de Whitlam foi ameaçar encerrar a base militar dos EUA em Pine Gap. Este foi basicamente forçado a abandonar o seu posto. O golpe, conduzido em articulação com o MI6 britânico e a próprio ASIO australiana, foi altamente sofisticado; envolveu tudo desde documentos forjados, infiltrações em sindicatos, até campanhas de difamação do estilo “Mockingbird” conduzidas por um jovem Rupert Murcoch.

Um agente de baixa patente da inteligência estado-unidense, um administrativo na McDonnel Douglas chamado Christopher Boyve, ficou tão indignado com as actividades da CIA na Austrália que começou a passar informação classificada aos soviéticos. A saga de Boyce foi dramatizada no filme de 1985 de John Schlesinger “O Jogo do Falcão”.

Novos documentos publicados por Greenwald sugerem que a aliança tradicional Cinco Olhos se está expandir para incluir membros de outros países. O Rampart-A “permite à NSA explorar três terabytes de dados por segundo à medida que os dados circulam pelo cabo exposto [em 13 localizações secretas] à volta do mundo.” O programa é consistente com as novas realidades económicas da globalização empresarial.

O mundo não está apenas dividido em estados mas em classes e as elites dentro de cada nação têm um incentivo óbvio de trabalhar em conjunto para proteger os seus interesses de classe. Podemos ver isto não apenas em instituições como o FMI e o Banco Mundial ou grupos informais como Bilderberg, mas também em redes militares como a OTAN e agrupamentos de inteligência como o Clube de Berna, um “fórum de partilha de inteligência” entre os serviços de informação de 28 estados da UE, Noruega e Suíça. Um ramo de Berna é o Grupo Contra Terrorista (CTG) “criado após o “9/11 para aumentar a cooperação de partilha de inteligência entre as estruturas de informação europeias.” O CTG é descrito como “existindo fora das instituições da UE” mas “comunicando” com as estruturas visíveis governamentais através do Centro de Inteligência e de Situação da União Europeia (EU INTCEN). Peter Dale Scott referiu-se a um novo “estado profundo supranacional, cujas ligações orgânicas à CIA podem ter ajudado a consolidar.”

Quando olhamos globalmente para as agências de informação podemos, talvez, ser perdoados pelo assunto ser tão complicado ao ponto de levarmos as mãos à cabeça de desespero. Quantos acrónimos nos podemos lembrar, quanto mais analisar em profundidade?

O ponto importante a sublinhar é que estas instituições não estão a trabalhar para ti mas contra ti. O conceito de cadeia de comando é crítica a este respeito, porque aos oficiais de inteligência-militar nunca, alguma vez, lhes é dada ordem de ajudar a classe trabalhadora. Dão-lhes ordem de executar a operação X no sentido de ampliar o “interesse nacional”. Infelizmente o interesse nacional quase sempre se traduz nos interesses exclusivos da classe governante.

Não quer dizer que toda a gente que trabalha para estas agências seja maléfica, o problema é que estes, na esmagadora maioria das vezes, só fazem o que lhes dizem. E aí está o problema: obediência a uma autoridade injusta. Entrevistei um veterano da CIA com 25 anos de carreira, Bill Christison, pouco antes da sua morte e incluí algumas cenas no filme. Christison era um orgulhoso e frio guerreiro durante grande parte da sua carreira mas começou a questionar a política dos EUA no período [da guerra do] Vietname. Durante a nossa entrevista, Christison, fez um extraordinário mea culpa; disse ele “estou agora envergonhado de ter trabalhado” para a CIA e “quem me dera nunca o ter feito”.

É preciso ter um grande carácter e honra para perceber os nossos erros passados e tentar emendar os danos que infligimos sobre outras pessoas. Se mais agentes militares/agentes estivessem dispostos a ser sinceros, talvez pudéssemos finalmente começar a ver verdadeiras reformas.

A triste verdade é que não estamos “todos juntos nisto” para citar o poster propagandista do filme distópico clássico, Brazil: O Outro Lado do Sonho, de Terry Gilliam. É sim como George Carlin disse, “É um clube grande, e tu não estás nele”

Em Counter-Intelligence eu faço um paralelo entre a manta de vigilância da NSA o projecto de prisão conhecido como Pan-óptico. Foi criado pelo filósofo e teórico inglês, Jeremy Bentham, nos finais do séc XVIII. A ideia era que as autoridades estivessem escondidas enquanto que os prisioneiros não tivessem qualquer privacidade. Como resultado, os prisioneiros viriam a policiar-se a si mesmos. Nas palavras do filósofo francês Michel Foucault:

“Aquele que está sujeito a um campo de visibilidade e que o sabe, assume a responsabilidade dos constrangimentos do poder; faz com que estes actuem espontaneamente sobre si mesmo; inscreve nele mesmo o poder da relação na qual faz simultaneamente ambos papeis. Torna-se o princípio da sua própria subjugação.”

O mero facto de que as pessoas se apercebem de que estão a ser vigiadas tem o potencial de alterar o seu comportamento. Há um termo para isto na psicologia conhecido como reactividade “um fenómeno que ocorre quando os indivíduos alteram a sua performance ou comportamento devido à percepção de que estão a ser observados.”

Há uma passagem memorável de um dos documentos desclassificados do COINTELPRO revelando que o FBI, durante a era dos direitos civis, tentou fomentar a crença entre os activistas de que havia “um agente em cada caixa do correio.” Se fosses um activista nos anos 60 e ouvisses estalidos no teu telefone isso era, provavelmente, intencional. A paranóia é considerada desejável pelos que estão no poder. Quanto mais medo tenhas menos provável é que te levantes pelos teus direitos.

Apesar dos óbvios perigos associados com ser um activista em posição de relevo, que ameaça perturbar o status quo, ainda somos comparativamente privilegiados se por acaso vivemos no “Primeiro Mundo”. As pessoas na Colômbia são torturadas e assassinadas apenas por tentar sindicalizar-se. A pior coisa que podemos fazer é ficar em silencio ou conformar-nos com as exigências do poder. “Manter a tua cabeça para baixo” não te vai ajudar nem ti nem aos teus filhos a longo prazo. A Alemanha Nazi é um testemunho. Estas questões têm que ser confrontadas enquanto ainda há tempo.

Fim da Parte 1

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