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Diário Liberdade
Segunda, 21 Agosto 2017 00:43 Última modificação em Quarta, 23 Agosto 2017 21:32

História de Charlottesville foi escrita em sangue na Ucrânia

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País: Estados Unidos / Antifascismo e anti-racismo, Batalha de ideias / Fonte: Counterpunch

[Ajamu Baraka, Tradução do Coletivo Vila Vudu] Qual o traço mais marcante da política da direita racista nos EUA hoje? É a atividade dos suprematistas ensandecidos que se atiram contra uma manifestação antifascistas em Charlottesville, VA, ou a garantia, que lhes dá Lindsay Graham de que um ataque contra a Coreia do Norte até pode resultar em milhares de mortos... mas são mortos "do lado de lá"? 

E o que dizer da decisão unânime das duas casas do Congresso, de apoio a Israel e crítica à ONU, que teria posição enviesada contra Israel?

Será que essas ações também são denunciadas como racistas e de extrema direita, dado que, como se sabe, o sofrimento dos palestinos não tira o sono de ninguém nessa parte do mundo?

E o que dizer da votação na Câmara de Deputados dos EUA, que ultrapassa até a proposta obscena feita pelo governo Trump (de aumentar o orçamento militar em $54 bilhões) e autoriza aumento de alucinados $74 bilhões no orçamento do Pentágono?

Acho curioso, na discussão em curso, sobre o que muitos têm chamado de "reforçar a direita radical suprematista branca", é a facilidade com que se mobiliza a oposição aparente contra os suprematistas cruéis e declarados que todos vimos em Charlottesville. É tão fácil essa oposição, que opera, de fato, como modo de esconder o trabalho muito mais difícil e perigoso que tem de ser feito para efetivamente confrontar os agentes ativos do real poder da direita nos EUA.

A supremacia branca que alguns veem como mais insidiosa, não se reflete nessas imagens simplórias, estereotipadas, de pessoas com ar ensandecido, erguendo a mão na saudação nazista tão prezada pela "alt-right" nem, sequer, em Donald Trump. Em vez disso, a supremacia branca está já normalizada e portanto já se tornou completamente invisível na ideologia do suprematismo branco inculcada nas instituições culturais e de ensino e nas correspondentes políticas que surgem dessas ideias.

Esse processo não produz só os militantes armados e enlouquecidos da direita radical, mas também os verdadeiros crentes clandestinos dessa mesma ideologia, como Robert Ruben de Goldman Sachs, Hillary Clinton, Barack Obama, Tony Blair e Nancy Pelosi – indivíduos "decentes" que jamais, nem por um instante, algum dia questionaram a superioridade da civilização ocidental, que creem cegamente na responsabilidade e no direito do Ocidente Branco, ao qual caberia determinar quais nações devem ser soberanas e quem deve reinar sobre as nações "inferiores".

Esses mesmos também creem cegamente que não há alternativa possível às maravilhas do capitalismo global, mesmo que signifique que bilhões de seres humanos estejam condenados permanentemente ao que [Franz] Fanon chamou de "zona do não ser".

Essa, sim, é a supremacia – e o correspondente suprematismo – que realmente me preocupam. E por mais que reconheça o grave perigo que advém do movimento da direita violenta, ainda assim me preocupo mais com as políticas de direita que estão sendo consagradas em lei – e igualmente por Democratas e Republicanos em todos os níveis de governo.

Há mais de dois anos, escrevi que:

"A repressão e a desumanização brutais que se viram por toda a Europa nos anos 1930s não encontrou expressão generalizada nos EUA e na Europa, pelo menos até agora. Ainda assim, grandes setores da esquerda nos EUA e na Europa parecem incapazes de identificar o eixo EUA/OTAN/União Europeia que se dedica a manter a hegemonia do capital ocidental, resultando em perigosa cooperação com forças da direita, tanto dentro como fora dos governos."

O ímpeto original daquele artigo era criticar o perigo inerente da cínica manipulação que se via acontecendo, pelo governo Obama, de elementos da direita na Ucrânia para derrubar o governo democraticamente eleito de Viktor Yanukovych. Aquela manipulação era não só perigosa e previsivelmente desastrosa para o povo ucraniano, também porque o apoio dos EUA a um movimento neofascista na Ucrânia acontecia num contexto no qual a direita política ia ganhando legitimidade e força por toda Europa.

Assim sendo, o impacto político de a direita ser empoderada na Ucrânia não poderia de modo algum ser separado do processo pelo qual a direita estava sendo empoderada em todo o mundo.

Significava que o objetivo do governo Obama, objetivo egoísta, imediatista, de visão curta e distorcida, de minar o poder da Rússia na Ucrânia teve o efeito de empoderar a direita; e de desequilibrar a favor da direita o jogo de forças em toda a Europa.

Mas, porque Obama era visto, erradamente, como liberal, ele conseguiu safar-se de quase todas as críticas contra suas políticas na Ucrânia, na Europa e domesticamente [também, muito provavelmente, na América Latina (NTs)]. De fato, ambos – os liberais e a esquerda nos EUA e na Europa – apoiaram, de modo geral, as políticas de Obama para a Ucrânia.

Mesmo assim, jogar levianamente com elementos da direita na Ucrânia e subestimar o poder crescente da direita resultou na formação de movimentos fortes e perigosos da mesma direita, e dos dois lados do Atlântico, os quais efetivamente exploraram o racismo branco que é endêmico e, simultaneamente, as contradições da globalização capitalista neoliberal. A ascensão de Donald Trump não pode ser separada das políticas raciais, de classe e das chamadas "políticas de gênero" nesse momento, nos EUA e em todo o mundo.

A extrema direita 'alternativa' [chamada "alt-right"] que se mostrou em Charlottesville no fim de semana passado imitava as táticas da linha de frente de soldados neofascistas que orquestraram o golpe na Ucrânia. Em vez de denunciarem essa verdade, todos repetem que seria resultado do governo Trump. O fato objetivo é que os EUA já estão convertidos numa perigosa sociedade de direita, culminância de um processo ininterrupto rumo à direita, que se arrasta há quatro décadas. A ideia de que a eleição de Trump teria de algum modo "inventado" essa direita não pode ser levada a sério, nem pode ser reduzida às manifestações brutais da extrema direita alternativa.

O alvo da oposição radical tem de ser as estruturas do poder banco, vale dizer, as estruturas e instituições que provêm a base material para a supremacia e o suprematismo branco euro-norte-americano e sua reprodução ideológica.

Apesar disso, a ordem capitalista e suas instituições – Organização Mundial do Comércio, FMI, Banco Mundial e o sistema ocidentalizado de formação/educação universitária que servem de base material para o poder suprematista branco hegemônico – sempre escapam de qualquer exame crítico, porque a atenção popular foi desviada cona algum David Duke ou algum Donald Trump [ou algum Temer plus STF-Br/2017 (NTs)].

Trump e a "alt-right" tornaram-se úteis como 'questões' para desviar as atenções para bem longe dos liberais suprematistas racistas brancos.

A esquerda muito mais rapidamente se deixará arrastar para a luta contra essas caricaturas superficiais do racismo, do que saberá abraçar o trabalho ideológico muito mais difícil, que envolve real autodoação e autossacrifício – livrar-se de todo o sentimentalismo associado à mitologia do lugar dos brancos, da civilização branca e da branquitude do universo, e adotar uma trilha de justiça que resultará no fim do privilégio material hoje assegurado só aos brancos.

Considerando a supremacia branca a partir desse ponto de vista mais amplo, é claro que apoiar o estado de Israel, a guerra contra a Coreia no Norte, o encarceramento em massa (de brancos e de negros pobres), um orçamento militar protesto, a gentrificação das cidades, a subversão na Venezuela [e no Brasil (NTs)], a guerra do Estado nos EUA contra a população negra e mulata de todos os gêneros, e a guerra contra direitos de reprodução estão entre as muitas manifestações de uma ideologia de direita profundamente enraizada que não pode ser convenientemente e oportunisticamente reduzida a Trump e os Republicanos [ou a Temers, tucanos, STFs, 'éticas' e tais (NTs)].

E quando compreendermos que a supremacia branca branco não é só o que haja na cabeça de um ou outro, mas é também uma estrutura global com impactos devastadores no povo do planeta, então compreenderemos melhor por que alguns de nós disseram que, para que o mundo sobreviva, os 525 anos do suprematismo branco pan-europeu, colonial/capitalista tem de morrer.

A escolha diante de todos é clara: ou os brancos unem-se a nós no serviço de cavar sepulturas, ou os brancos entregam o privilégio racial e de classe e unem-se numa frente unida branca trans-classes. A 'direita alternativa' está esperando. Enquanto isso, eles vão recrutando novos membros na esquerda já cansada das "políticas de identidades".

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