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Diário Liberdade
Quinta, 22 Fevereiro 2018 22:50 Última modificação em Terça, 13 Março 2018 01:04

Pesquisa mostra a verdadeira causa da desigualdade salarial por gênero

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/ Mulher e LGBT / Fonte: Vermelho

A diferença de salários entre homens e mulheres, segundo essa pesquisa realizada por um professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, é realmente uma penalidade para quem dá assistência na infância aos seus filhos.

É fato que- independente do país ou da época- mulheres ganham menos do que os homens. Esta é uma verdade nos Estados Unidos (onde mulheres ganham aproximadamente 79% do que os homens ganham), no Japão (onde mulheres ganham 73% do que os homens ganham), na Dinamarca (onde a diferença salarial é de 15%). Procure pelo mundo todo, e você não irá encontrar um país em que homens e mulheres tenham salários iguais.

O grande debate não é se existe desigualdade salarial, mas por que ela existe. Alguns pensam que é uma causa da discriminação de gênero, em uma economia que não acredita no potencial das mulheres como no dos homens. Outros argumentam que mulheres escolhem áreas que pagam menos- enquanto outros citam os tipos de educação recebidas por homens e mulheres.

Um importante estudo traz argumentos convincentes, apontando para outra explicação: a diferença salarial devido ao gênero é principalmente uma penalidade por ter filhos.

A pesquisa foi feita por Henrik Kleven, um economista da Universidade de Princeton. Ele usou dados de um país com uma das redes de segurança nacional mais robustas do mundo: a Dinamarca. Esse país oferece aos novos pais e mães um ano inteiro de licença remunerada após o nascimento de uma criança. O governo oferece cuidados de enfermagem pública para menores de 3 anos no equivalente 737 dólares por mês- uma fração dos custos típicos nos Estados Unidos.

Ainda assim a Dinamarca tem uma diferença salarial devido ao gênero quase na mesma proporção do que nos EUA, um país onde as mulheres não têm garantia de uma licença maternidade remunerada e onde a assistência infantil custa cada vez mais do que um aluguel. Como isso pode ser possível?

Kleven mostra um declínio acentuado no ganho das mulheres após o nascimento de seu primeiro filho- sem queda salarial compatível para os homens. O efeito cumulativo é enorme: as mulheres acabam ganhando 20% menos que os seus homólogos no decorrer de sua carreira.

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"Ganhos de mulheres caem significativamente após ter filhos. Os dos homens não".

O estudo está entre um crescente número de pesquisas que discutem e sugerem que o que geralmente pensamos como uma diferença de remuneração entre homens e mulheres é mais precisamente uma lacuna salarial ou uma penalidade devido a maternidade.

As mulheres sem filhos têm ganhos bastante semelhantes aos salários dos homens, enquanto as mães apresentam uma diferença salarial significativa. Estudos realizados nos EUA chegaram nessa descoberta- e a pesquisa de Kleven também. Esse gráfico, por exemplo, mostra trajetórias de lucro muito diferentes para as mulheres que tem filhos, se comparadas a aquelas que não são mães.

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"Ter filhos significa ganhar menos para as mulheres".

Ter filhos, o estudo estima, representa 80% da diferença salarial por gênero na Dinamarca.

A pesquisa de Kleven usa dados dinamarqueses, mas estudos semelhantes realizados nos EUA chegaram em resultados semelhantes. A economista de Harvard Claudia Goldin descobriu que a diferença salarial entre os gêneros na América é maior para as mulheres com 30 anos- ou seja, os primeiros anos da maternidade.

Um estudo realizado em 2009 por Marianne Bertrand, da Universidade de Chicago, faz ecoa com a mesma conclusão. Examinados os ganhos de milhares de graduados das universidades de negócios (administração ou economia), descobriu que as mulheres obtiveram salários médios de 115 mil dólares logo após se formarem, enquanto os homens ganharam 130mil. Os homens também trabalharam, em média, mais algumas horas semanais e tiveram um pouco mais de experiência prévia quando entraram no mercado de trabalho.

Mas após nove anos em suas carreiras, as mulheres viram seus salários subir para uma média de 250 mil dólares- enquanto os salários masculinos progrediram em 400 mil dólares. Os homens estavam ganhando mais de 60% do que as mulheres.

“A única coisa que não muda é o efeito das crianças” diz Kleven sobre a diferença salarial por gênero. “Isso é um fator muito persistente e constante. Todos os outros indicativos estão em declínio, mas o efeito da criança sobe, e acaba sendo assumido como o principal fator”.

Os impulsos históricos da diferença salarial entre homens e mulheres- a falta de educação para as mulheres, por exemplo- estão desaparecendo. Mas a multa profissional que as mulheres enfrentam por ter filhos é teimosa e persiste.

Na Dinamarca, a gravidez causa uma diferença de salários de 20%

Parte da pesquisa de Kleven é projetada para desvendar o que acontece exatamente depois que as mulheres têm filhos e que levam a essa diferença salarial. Ele descobriu que as mulheres começam a gravitar por diferentes empregos após o nascimento de uma criança, com menos horas e salários mais baixos. Dez anos após o parto, as mulheres têm uma probabilidade 10% maior de entrar em um emprego no setor publico do que os homens. Esses trabalhos que tipicamente oferecem “horários flexíveis, dias de férias caso a criança fique doente, e uma visão favorável sobre a licença maternidade”.

Os homens, no entanto, veem suas carreiras inalteradas, já que pais e não-pais ganham aproximadamente igual no decorrer das décadas.

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"Ter filhos não afeta o salário dos homens".

A política de licença na Dinamarca pode chegar a exacerbar a diferença salarial por gênero, afastando as mulheres do mercado de trabalho por longos períodos de tempo.

Em teoria, a política dinamarquesa permite aos pais dividir e compartilhar sua licença. Mas na prática, as mulheres dinamarquesas são as que tiram a maioria do tempo de licença após o nascimento de uma criança. Dados recentes mostram que os homens dinamarqueses representam apenas 10% da licença paternal tomada no país.

“Quando a licença paternal é neutra (não especificamente dividida entre os dois pais), não esperamos que ela apresente uma mudança positiva para a diferença de gênero”, diz Kleven.

Embora a licença maternidade seja, sem dúvida alguma, uma política positiva para a família, não é o tipo de política que irá corrigir a diferença salarial entre homens e mulheres. Seja como for, tem potencial para ampliar a diferença salarial entre homens e mulheres, afastando as mulheres do trabalho por um ano e provavelmente reduzindo seu potencial de ganhos no futuro.

Outros países escandinavos revisaram suas políticas de licença parental para resolver esta questão. A Islândia, por exemplo, reserva 13 semanas de licença parental para pais- e agora tem mais de 90% de novos pais usando o benefício.

A questão não respondida: por quê existe penalidade de assistência à infância?

Perguntei a Kleven por que a penalidade da criança é tão persistente e teimosa enquanto outras causas parecem desaparecer.

“Essa é a questão do Santo Graal”, diz ele. “Nós não respondemos, mas é uma das coisas em que continuo trabalhando”.

Não está totalmente claro por que, por exemplo, as mulheres dinamarquesas ainda aceitam a grande maioria da licença parental que poderia ser usada por qualquer um dos dois pais.

Segundo Kleven, existem duas explicações possíveis- não necessariamente mutualmente excludentes. Uma é a explicação ambiental, onde as normas sociais tornam mais difícil as mães permanecerem no mercado de trabalho. Sob esta explicação, as mães podem achar que não lhes são oferecidas certas oportunidades- um trabalho que exige viagens significativas ou longas horas, por exemplo- por causa da percepção de que elas devem ser as principais cuidadoras de uma criança.

Os dados da opinião pública que Kleven cita mostram, por exemplo, que a maioria dos adultos dinamarqueses (e adultos americanos, para esse assunto) acreditam que as mulheres com crianças pequenas não devem realizar empregos em tempo integral.

O outro é uma explicação biológica: as mulheres podem ter uma maior preferência por passarem mais tempo em atividades relacionadas à assistência à infância.

"O que nossa evidência mostra é que muita desigualdade de gênero está associada a escolhas que sugerem diferentes preferências", diz Kleven. "O santo Graal é entender se essas preferências são normas sociais, ou algo mais intrínseco".

Mais uma vez, a política desempenha um papel aqui também - os países têm a capacidade de moldar o que a criação de filhos é, por meio da estruturação de políticas de licença parental, por exemplo. Fora da Dinamarca, a maioria dos outros países escandinavos decidiram que é um bem social para encorajar os homens a se divertirem após o nascimento de seus filhos - e atribuíram uma quantidade total de licença apenas para os pais.

É uma decisão que cada país deve fazer: promulgar políticas que trazem mais igualdade para as forças trabalhistas, ou aquelas que colocam desproporcionalmente o cuidado de crianças para as mulheres.

Tradução por Alessandra Monterastelli

Fonte: Vox

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