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Diário Liberdade
Sexta, 24 Agosto 2018 07:20 Última modificação em Quarta, 29 Agosto 2018 18:27

Silenciosa arma de Washington, para guerras nada silenciosas

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/ Resenhas / Fonte: New Eastern Outlook

[F. William Engdahl, Tradução da Vila Vudu] Hoje, a mais mortal das armas de destruição em massa do arsenal de Washington não está no Pentágono nem é qualquer daquelas armas de matar tradicionais. É arma silenciosa: a capacidade que tem Washington para controlar a oferta global de dinheiro, de dólares, mediante ações do banco (privado) Federal Reserve coordenadas com o Tesouro dos EUA e seletos grupos financeiros ativos em Wall Street.

Desenvolvida ao longo de décadas, desde que dólar e ouro foram separados por ato de Nixon, em agosto de 1971, o controle sobre o dólar é arma financeira contra a qual poucas nações, talvez nenhuma, têm hoje condições de enfrentar, pelo menos ainda não, até esse momento.

Há dez anos, em setembro de 2008, o secretário do Tesouro dos EUA e ex-banqueiro de Wall Street Henry Paulson deliberadamente tirou da tomada o sistema global do dólar, ao deixar que um banco de investimentos de tamanho médio de Wall Street, Lehman Bros., quebrasse. Naquele momento, com ajuda do recurso para criar dinheiro infinito no Fed, conhecido como "Alívio Quantitativo" [ing. Quantitative Easing], os meia-dúzia de maiores bancos de Wall Street, entre os quais o próprio banco de Paulson, Goldman Sachs, foram 'resgatados' de uma debacle criada pela exótica finança securitizada deles mesmos. 

O Fed também agiu para dar linhas de crédito sem precedentes, de centenas de bilhões de EUA-dólares, a bancos centrais da União Europeia de modo a evitar carência de moeda que claramente teria levado ao desmoronamento de toda a arquitetura financeira global. Naquele momento, seis bancos da eurozona deviam, em dólares, mais de 100% dos respectivos PIB.

Um mundo cheio de dólares


Desde então, há uma década, a oferta de dólares baratos para todo o sistema financeiro global subiu a níveis sem precedentes. O Institute for International Finance (IIF) em Washington estima que a dívida das famílias, governos, empresas e setor financeiro nos 30 maiores mercados emergentes chegou, no início de 2018, a 211% do PIB doméstico. Era de 143% no final de 2008.

Outros dados do IIF indicam a escala de uma armadilha de dívida que está só nos estágios iniciais de detonar as economias menos avançadas, da América Latina à Turquia e à Ásia. Com exclusão da China, a dívida total dos mercados emergentes, em todas as moedas, incluindo dívidas domésticas, quase dobrou, de 15 trilhões de dólares em 2007, para 27 trilhões de dólares no final de 2017. A dívida da China, no mesmo período foi, de 6 trilhões de dólares para 36 trilhões de dólares, segundo o IIF. 

Para o grupo de países dos mercados emergentes, suas dívidas denominadas em dólares cresceram para cerca de 6,4 trilhões de dólares, a partir de 2,8 trilhões de dólares em 2007. Empresas turcas devem quase 300 bilhões em moedas estrangeiras, mais da metade do próprio PIB, a maior parte dessa dívida, em dólares. Os mercados emergentes preferiram o dólar, por muitas razões.

Enquanto aquelas economias emergentes estavam crescendo, recebendo dólares de exportação a uma taxa crescente, a dívida foi administrável. Agora, isso está começando a mudar. O agente dessa mudança é o banco central mais politizado do mundo, o Federal Reserve dos EUA, cujo novo presidente Jerome Powell é ex-sócio do sinistro Carlyle Group. Sob o argumento de que a economia doméstica dos EUA é suficientemente forte e que é possível devolver os juros dos EUA-dólar para o patamar "normal", o Fed iniciou deriva titânica para liquidez em dólar na economia mundial. Powell e o Fed sabem muito bem o que estão fazendo. Estão apertando os parafusos do dólar, para precipitar uma grande nova crise econômica em todo o mundo emergente, especialmente em economias eurasianas chaves, como Irã, Turquia, Rússia e China.

Apesar de todos os esforços de Rússia, China, Irã e outros países, para se afastarem da dependência do EUA-dólar para comércio internacional e finança, o dólar ainda é moeda de reserva dos bancos centrais do mundo, cerca de 63% de todas as reservas dos bancos centrais do Banco de Compensações Internacionais (ing. BIS). Além disso, quase 88% de todos os negócios diários em moedas estrangeiras são feitos em EUA-dólar. A maior parte do comércio de petróleo, ouro e commodities é denominado em EUA-dólar. Desde a crise grega em 2011, o euro jamais foi rival sério contra a hegemonia do dólar como moeda de reserva. Hoje, cerca de 20% das reservas são em EUA-dólar.

Desde a crise financeira de 2008, o EUA-dólar e a importância do Fed cresceram a níveis sem precedentes. Só agora o mundo começa a perceber, pela primeira vez desde 2008, real falta de dólares, o que significa custo muito mais alto para tomar novos empréstimos em dólares para refinanciar velhas dívidas em EUA-dólar. O pico dos vencimentos da dívida total em EUA-dólar dos mercados emergentes acontece em 2019: estarão vencendo dívidas num total de mais de 1,3 trilhão de dólares.

Aqui vem a armadilha. O Fed não está avisando apenas que aumentará mais agressivamente os juros para emprestar em dólares ainda esse ano, adiante, e no próximo ano. Está também reduzindo a quantidade de dívida do Tesouro dos EUA que comprou depois da crise de 2008, o chamado Arrocho Quantitativo [ing. QTQuantitative Tightening).


Do Alívio Quantitativo, ao Arrocho Quantitativo


Depois de 2008, o Fed iniciou o que foi chamado de Alívio Quantitativo. O Fed comprou dos bancos soma estarrecedora de bônus do Tesouro, até um pico de 4,5 trilhões de dólares, a partir dos apenas 900 bilhões no início da crise. Agora o Fed anuncia que planeja reduzir as compras em pelo menos um terço, nos próximos meses.

O resultado do Alívio Quantitativo foi que o Fed inundou de liquidez os grandes bancos que estiveram por trás da crise financeira de 2008, e os juros caíram a zero. Aquela liquidez dos bancos foi, por sua vez, investida em qualquer parte do mundo que oferecesse retorno mais alto, enquanto os papéis dos EUA pagaram juro zero. Virou papel podre no setor do petróleo de xisto, num novo mini-boom da construção nos EUA. Mais marcadamente, os EUA-dólares líquidos foram para mercados emergentes de mais alto risco, como Turquia, Brasil, Argentina, Indonésia, Índia. EUA-dólares fluíram para a China, onde a economia vivia um boom. E EUA-dólares escorreram para a Rússia, antes que as sanções, no início desse ano, começassem a assustar investidores estrangeiros.

Agora, o Fed começou o Arrocho Quantitativo [ing. QT – Quantitative Tightening] – o contrário do Alívio Quantitativo. No final de 2017, o Fed lentamente começou a fazer encolher a própria carteira de bônus, o que reduz a liquidez de EUA-dólares no sistema bancário. No final de 2014, o Fed já parara de comprar novos papeis do mercado. A redução da carteira de papéis do Tesouro no Fed, por sua vez, empurrou os juros para cima. Até esse verão, tudo foi feito despacito, despacito. Até que o presidente dos EUA lançou uma ofensiva de guerra comercial com alvo determinado, gerando terrível incerteza na China, na América Latina, na Turquia e por toda parte, e novas sanções econômicas contra Rússia e Irã.

Hoje, o Fed está deixando que 40 bilhões de dólares de seus papeis do Tesouro e de empresas amadureçam sem substituí-los, quantia que subirá para 50 bilhões de dólares mensais adiante, esse ano. Significa que todos esses dólares são tirados do sistema bancário. Além disso, para agravar o que rapidamente se vai convertendo em claro e absoluto racionamento de dólares, as leis de cortes de impostos do governo Trump estão acrescentando centenas de bilhões ao déficit que o Tesouro dos EUA terá de financiar mediante emissão de novos papéis da dívida. Com o aumento na oferta de papéis da dívida do Tesouro, o Tesouro será forçado a pagar mais juros, para conseguir vendê-los. Juros mais altos nos EUA já estão operando como um ímã, para trazer de volta os dólares que se espalharam pelo mundo.

Para aprofundar o Arrocho global, sob pressão da dominação do Fed e do dólar, o Banco do Japão e o Banco Central Europeu foram obrigados a anunciar que não mais comprarão bônus nos respectivos programas de Alívio Quantitativo. Desde março, o mundo já entrou, de fato, na nova era de Arrocho Quantitativo.

Visto desse ponto, a coisa parece estar ficando dramática, a menos que o Federal Reserve pare tudo, desista e recomece uma nova operação de Alívio Quantitativo, para evitar crise sistêmica global. Não parece provável que aconteça. Hoje, os bancos centrais, mais até do que antes de 2008, dançam pela música que o Federal Reserve está tocando. Como consta que Henry Kissinger teria dito nos anos 1970s "Se você controla o dinheiro, você controla o mundo."


Nova Crise Global em 2019?


Embora até aqui o impacto da contração do dólar tenha sido gradual, está às vésperas de tornar-se dramático. Os balanços dos bancos centrais somados do G-3 mostram crescimento de apenas 76 bilhões na primeira metade de 2018, comparados aos 703 bilhões de dólares de crescimento nos seis meses anteriores – quase meio trilhão de dólares saíram do pool global de dinheiro a emprestar. Bloomberg estima que as compras líquidas [orig. net asset purchases] pelos três principais bancos centrais cairão a zero no final de 2018, dos quase 100 bilhões de dólares mensais no final de 2017. Anualmente, isso se traduz no equivalente a 1,2 trilhões de dólares a menos na liquidez em dólares no mundo em 2019.

A lira turca caiu pela metade desde o início desse ano em relação ao EUA-dólar. Significa que as grandes empresas turcas de construção e outras que conseguiram tomar empréstimos em dólares "baratos" terão de arranjar o dobro da quantidade de dólares que tomaram, para pagar os empréstimos. A maior parte da dívida não é dívida do estado turco, mas de empresas privadas. Empresas turcas devem estimados 300 bilhões de dólares em moeda estrangeira, a maior parte da dívida em EUA-dólares, quase metade de todo o PIB do país. Essa liquidez em EUA-dólares manteve o crescimento da economia turca desde a crise financeira dos EUA em 2008. E não só a economia turca. Países asiáticos, do Paquistão à Coreia do Norte, exceto a China, tomaram emprestados estimados 2,1 trilhão de dólares.

Enquanto o dólar esteve barato, contra essas moedas, e o Fed manteve baixos os juros – como de 2008 a 2015 –, o problema foi pequeno. Agora isso estão mudando e mudando dramaticamente. O dólar está subindo fortemente contra todas as outras moedas, esse ano, 7%. Isso, combinado com as guerras comerciais que Washington está deliberadamente começando, provocações políticas, quebra unilateral do tratado nuclear com o Irã, novas sanções contra Rússia, Irã, Coreia do Norte, Venezuela, além de provocações sem precedentes contra a China. Ironicamente, as guerras comerciais de Trump levaram a uma "corrida para segurança", para longe de países emergentes como Turquia ou China, para os mercados dos EUA, mais notavelmente para o mercado de ações.

O Fed está usando o EUA-dólar como arma de guerra, e as precondições são, em muitos sentidos, semelhantes às que se tinha durante a crise da Ásia em 1997. Naquele momento, bastou um ataque concertado de fundos 'abutres' norte-americanos contra a moeda do terço mais pobre das economias asiáticas, o baht tailandês, para disparar o colapso por quase todo o sul da Ásia, até a Coreia do Sul e até Hong Kong. Hoje, o gatilho é Trump e seus tuítos belicosos contra Erdogan.

As guerras comerciais dos EUA de Trump, as sanções políticas e as novas leis de impostos, no contexto da clara estratégia do Fed de arrocho na oferta de dólares, oferecem o pano de fundo para uma guerra do dólar contra opositores globais dos EUA, sem sequer ser preciso declarar guerra. Bastaram algumas provocações comerciais contra a economia gigante da China, provocações políticas contra o governo turco, novas sanções sem qualquer fundamento contra a Rússia e bancos de Paris a Milão, Frankfurt e New York e quaisquer outros que tenham dívidas em dólares, para que mercados emergentes, de maior risco, começarem a corrida rumo à porta de saída. O colapso da lira como resultado de um quase pânico de venda, ou a crise da moeda do Irã, a queda do rublo russo. Tudo isso reflete o início, como também o declínio do renminbi chinês, de um 'racionamento' global do dólar.

Se Washington conseguir dia 4 de novembro cortar todas as exportações de petróleo do Irã, os preços mundiais do petróleo subirão acima de 100 dólares, o que aumentará dramaticamente a falta de dólares no mundo em desenvolvimento. É guerra, por outros meios. A estratégica do dólar, do Fed, está operando hoje como "arma silenciosa" para guerras nada silenciosas. Se isso continua, pode ter efeito grave na crescente independência dos países da Eurásia em torno da Nova Rota da Seda da China e da alternativa Rússia-China-Irã ao sistema dólar. O papel do dólar como principal moeda global de reserva e a habilidade do Federal Reserve para controlar o processo é arma de destruição em massa e pilar estratégico para que a superpotência norte-americana mantenha-se como tal. As nações da Eurásia, e mesmo o Banco Central Europeu estão preparados para enfrentar tudo isso efetivamente?

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