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Diário Liberdade
Sexta, 24 Agosto 2018 07:56 Última modificação em Quarta, 29 Agosto 2018 20:09

De como Putin resolveu os problemas da Europa, ao passar, com La Merkel

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País: Rússia / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: The Vineyard of the Saker

[Rostislav Ishchenko, Tradução da Vila Vudu] Aleksandr Sergeyevich Pushkin não foi o primeiro poeta russo. Antes dele houve ZhukovskyDerzhavine até Lomonosov. Belos, melodiosos versos foram compostos por muitos depois de Pushkin. Mesmo assim, ele é "nosso tudo". Sem ele, sem a linguagem de Pushkin, não só a poesia russa, mas a própria linguagem russa é incompleta...

Pushkin é preciso e extremamente lacônico. Sabe bem prender muitos significados em apenas umas poucas palavras. E não usa palavras desnecessárias. Vocês lembram: "Lá, ao passar, um príncipe captura um czar assustador". Um, só um, sintagma– "ao passar". Mas como estão completamente caracterizados gentes e processo! Ao resolver problemas mais importantes, muito depois, um dado príncipe captura ao seu tempo um czar (poderoso, forte, ameaçador) assustador (significa que o conquistou, o exército dele e seu estado).

Não sei se foi ideia de Peskov ou se apareceu por si, mas a mídia russa, ao manchetar a visita que o presidente Putin fez à Alemanha, concentrou-se no casamento austríaco, no samovar de Tula, antigo samovar, uma antiga máquina de bater leite, o coro Kuban e uma pintura de pintor desconhecido (para nós, até agora) [os quatro presentes que Putin levou aos noivos (nota dos tradutores russos)]. O encontro com Merkel e resolver os difíceis problemas globais (inclusive os europeus) aconteceram en passant, ao passar. Quer dizer: foi ao casamento e, ao mesmo tempo, cuidou de uns casos por lá.

Fato é que a visita à Alemanha não é só simbólica – é criticamente decisiva. Pela terceira vez em 100 anos, o Reich está em posição de impasse rígido com os mesmos anglo-saxões que criaram e nutriram o impasse para a luta contra a Rússia. Apenas que dessa vez a Alemanha mais sábia tenta conservar a França como aliada (em vez de esmagá-la como nas duas vezes anteriores), e absolutamente não está ansiosa por uma campanha de Moscou. Bem ao contrário – tenta alcançar um acordo com a Rússia concernente a um posicionamento conjunto contra a agressão anglo-norte-americana.

É processo muito difícil. Não se trata só de história e de "valores", mas de uma consciência muito cara aos bürgersburgueses – mercados que geram renda multibilionária ligando Berlin e Washington. É quase impossível escapar de abraços "fraternos" sem sofrer dano considerável. Por muito tempo, a Alemanha sequer tentou, unida obedientemente ao regime das sanções. Primeiro, a introdução de sanções ainda era modelada por pretextos mais ou menos aproveitáveis, por exemplo: "Culpa da Rússia, o golpe organizado pelo ocidente na Ucrânia, e agora ucranianos se matam lá, em êxtase, em guerra civil". Quatro anos passaram, e são impostas sanções, hoje, até porque os britânicos, de medo, mataram o gato dos Skripals, e também por os norte-americanos terem elegido Trump, presidente, não a Clinton.

Até com isso o "sombrio gênio alemão"[1] se reconciliaria. Já se contabilizaram perdas por causa das sanções, e já se encontraram vias para contorná-las. Os que podem entrar no mercado russo com oferta exclusiva lá permanecem. Os outros calculam as perdas. A Rússia, sob a denominação de substituição de importações, reorganiza radicalmente a própria economia. O setor focado na produção nacional festeja. O setor focado nas importações chora.

Mas aqui se tornou claro que os norte-americanos querem roubar dos alemães a sua "vaca" – a União Europeia, para ordenhá-la sozinhos, só eles. E em troca a Alemanha ganha o direito "honroso" de multiplicar por quatro os próprios gastos militares e de trocar o gás russo pelo gás – três vezes mais caro – norte-americano.

Nesse ponto, algo pulou em sobressalto, no íntimo dos alemães. Não se deve excluir que tenham lembrado até que Hitler, nos últimos cinco anos de vida, culpava a "plutocracia" (palavra de Hitler) anglo-saxônica servindo-se de palavrões ainda piores do que os que usava para judeus e eslavos que tanto odiava. De modo geral, entrou na cabeça dosbürgers burgueses que a Alemanha tem dois caminhos: ou perecer outra vez, ou ficar amiga da Rússia e suave mas rapidamente – porque o tempo para pensar já acabou há cinco anos – reorientar a própria economia, do mercado norte-americano, para o mercado eurasiano.

É processo muito difícil e doloroso, e os alemães tentaram nada mudar até o último segundo, na esperança de que, se sabe lá como, saíssem ilesos. Mas não saíram. Os EUA enfraquecidos na proporção inversa perderam de tal modo a vergonha que tentaram resolver pela Alemanha quais gasodutos o país deve construir e quais "agridem a segurança europeia".

Se a crise em curso não se transforma em conflito militar global catastrófico, e se toda a história do mundo persistir, nesse caso as futuras gerações de historiadores sem dúvida apontarão a discussão sobre "Nord Stream-2" [gasoduto Ramo Norte 2] como uma das principais razões para a desintegração da OTAN e para a reorientação da União Europeia, afastando-se dos EUA, em direção à Rússia. 

Na noite do casamento austríaco, Putin destacou tópicos de futuras discussões em Berlin, bem como uma conversa sobre questões globais, incluindo economia e segurança; e também destacou a questão do "Nord Stream-2". Em troca, os alemães, na noite do encontro, mais uma vez repetiram que "Nord Stream-2" é assunto resolvido e absolutamente não será discutido, de modo nenhum, com os norte-americanos.

Na verdade, isso é tudo que se deveria saber sobre essa reunião. Putin voou para Berlin não para conseguir um acordo nem para sincronizar os relógios. De fato, os acordos já estavam conseguidos antes da visita. Em Berlin só se discutiram os modos pelos quais o problema norte-americano pode ser resolvido. Como mais completamente acalmar um touro, sem que haja consequências muito sérias para a loja de porcelana. Em Berlin estudaram-se as formas mais gerais de soluções técnicas para o problema que é o mundo pós-EUA. Importante é que, a julgar pelos rostos satisfeitos dos participantes, e com mínima informação, a compreensão e o entendimento mútuos foram amplos e abrangentes.

Poderemos ver os principais resultados dessa reunião ao longo dos próximos 12 meses, e se manifestarão na reaproximação, cautelosa, mas rápida, entre Alemanha e Rússia, contra o pano de fundo da política contraditória e desnorteada dos EUA. Por falar nisso, a questão de reconhecer a Crimeia como novamente russa surgiu em Washington só porque os EUA nada têm a oferecer que impeça essa cautelosa mas rápida reaproximação. E no quadro dessa reaproximação, a Europa, mais cedo ou mais tarde, afinal de contas, reconheceria mesmo o atual status da Crimeia.

Putin também falou, assim, ao passar, mas muito concretamente, sobre as possibilidades de resolver esse problema, bem como de resolver toda a crise ucraniana. Perguntado por um jornalista, Putin respondeu que nós também discutiremos a Ucrânia.

Esse "também", para Kiev, é pior que tanques russos na [principal rua de Kiev] Khreshchatyk. O ocidente resolve o problema ucraniano com a Rússia sem a Ucrânia, entre outros assuntos. A Ucrânia nem é principal assunto de alguma reunião: é um dentre muitos, a natureza, se chove, se faz sol, sobre os papuenses e também sobre a Ucrânia. Na mídia, o tópico Ucrânia é muito menos importante que o casamento austríaco e que o Coro Kuban de Cossacos ter chegado 10 minutos atrasado.

Não é só política efetiva. É também uma bela performance. Putin foi a um casamento, ao mesmo tempo, ao passar, resolveu problemas europeus num contexto global, e até conversou sobre Ucrânia.*******



[1] Orig. The "gloomy German genius" citado entre aspas, parece ser versão em inglês de um verso de Alexander Blok, muito frequentemente citado em várias línguas sobre a Alemanha (NTs port.).

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