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Diário Liberdade
Segunda, 17 Dezembro 2018 09:49 Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 13:31

Entrevista com Peter Mertens, presidente do Partido do Trabalho da Bélgica: “Somos um partido marxista que acredita num futuro socialista"

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País: Bélgica / Batalha de ideias / Fonte: Lavra Palavra

Entrevista com Peter Mertens, por David Broder, via Jacobin Magazine, traduzida por Gabriel Landi Fazzio

A Bélgica não parecer ser um lar muito óbvio para o radicalismo político. No debate público em outros países europeus, a palavra “Bruxelas” é usada como sinônimo das instituições de uma União Europeia distante e burocrática. No entanto, a classe trabalhadora belga também tem sua própria história de exploração e luta, desde os mineradores de carvão do Borinage até a greve geral de 1960. E hoje, como o panorama político é polarizado entre nacionalistas flamengos de extrema-direita e um centrismo devastador, a esquerda também está ressurgindo em novas formas. Um partido marxista-leninista estabelecido há muito tempo, o Partido do Trabalho da Bélgica (PVDA-PTB [o antigo partido de Ludo Martens]) [1] fez avanços particularmente notáveis nos últimos anos, atingindo 12% dos votos nas eleições locais de outubro, na capital.

David Broder, da Jacobin, falou com o presidente do partido, Peter Mertens, sobre as mudanças recentes em seu partido, as razões de seus avanços e como ele enxerga as possibilidades de uma transformação mais ampla da ordem europeia.


David Broder: O Partido do Trabalho da Bélgica obteve avanços nas eleições locais de outubro. Em Bruxelas, vocês marcaram quase 12% dos votos, e também tiveram bons resultados nas cidades maiores da Flandres e, mais ainda, na Valônia. Que tipo de apelo vocês são capazes de fazer e que tipo de preocupação dos eleitores vocês estão respondendo?

Peter Mertens: Iniciamos cada campanha realizando um amplo questionário entre o público, para decidir quais são as principais questões de nosso programa em que nossa campanha se baseará. Em Bruxelas, como em outras cidades, começamos a distribuir entre os eleitores folhetos com vinte perguntas, questionando quais eram suas principais preocupações em seus bairros. Essa primeira fase de pesquisa ocorreu há um ano e, em uma cidade como Antuérpia, por exemplo, coletamos as respostas de 9.000 pessoas. Este é um trabalho intensivo – significa que nossos militantes têm uma discussão de vinte minutos, porta a porta em cada bairro de todas as cidades. Na maioria das cidades, as questões que surgiram foram a questão da habitação, a da pobreza e, em terceiro lugar, a da mobilidade – a falta de transporte público ou seu alto custo.

Quem decide o tópico da eleição tem uma grande vantagem sobre os outros partidos. Sabíamos que os partidos de direita, incluindo o maior – o nacionalista flamengo N-VA – queria fazer como [o ministro do interior italiano e líder da Lega] Matteo Salvini, fazendo dos refugiados, migrantes e da segurança – o medo de ser “invadido” – o assunto principal. Mesmo que fossem eleições locais, os partidos de direita queriam definir isso como a questão central. Enquanto isso, os grupos de ação local da classe média queriam que o ar limpo – sem dúvida uma questão importante – estivesse no centro da campanha, assim como os partidos Verdes. Em vez disso, queríamos colocar a questão social centralmente na agenda, o que quase sempre significava um foco central na moradia. E, por exemplo, em habitações sociais, uma área na qual não houve investimentos e nada foi feito em anos para resolver problemas como infiltrações nas paredes [precariedades de infraestrutura dessas habitações], nestas questões nós mesmos tomamos medidas concretas, colocando isso também na agenda da mídia. Nossa estratégia é começar com as preocupações do público e martelar em cima das mesmas questões, ao invés de que adotar um discurso meramente genérico.

DB: Você está falando sobre questões muito concretas. Mas enquanto muitas outras forças em ascensão, como Podemos ou France Insoumise, se apresentam como algo que vai além da esquerda, seu partido vem de uma formação marxista-leninista, fazendo parte do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. No entanto, ao longo da última década, o seu partido mudou sua abordagem: como isso aconteceu e o que o levou a isso?

PM: Vimos como os partidos de direita são bem-sucedidos em contar histórias; eles pegam histórias concretas e partem delas para ideias mais gerais ou agendas imperialistas. Eles começam, no entanto, por problemas como pessoas que recebem de modo fraudulento benefícios sociais destinados a pessoas com deficiência – o tipo de situação que pode se tornar uma manchete de primeira página, e todos podem dizem que conhecem alguém que está abusando da previdência social. Depois, há uma espécie de esquerda – na Bélgica, mas acho que é mais ampla – que responde com estatísticas e gráficos de distribuição de renda, o que é correto, mas muito abstrato e pouco emotivo, envolvendo apenas o cérebro e não o coração. Nós, como uma esquerda, também temos que encontrar nossa própria narrativa na vida real e depois ir para o nível abstrato.

Precisamos das nossas próprias histórias, por exemplo, sobre pensionistas que recebem apenas € 800 por mês e têm que gastar € 500 no aluguel, sendo deixados apenas com € 10 por dia para viver. Então dizemos que não é só a Sra. X que vive nessa situação, mas um milhão de pessoas, por causa da política belga e europeia. Por isso, ligamos histórias emotivas ao nível político mais abstrato. Esta foi uma mudança na qual embarcamos em 2008 [quando Peter Mertens se tornou Primeiro Secretário]. O PTB tem estado ativo há décadas, mas não estava crescendo, e a primeira geração do partido teve dificuldades em se renovar. Nós estávamos sob o risco de ficar cada vez menores, rumo à extinção. Então, mudamos nossa abordagem para comunicação e organização; continuamos a ter unidades básicas nos locais de trabalho, que é o trabalho principal de nosso partido, mas também com grupos de vizinhos e trabalho em conselhos de rua.

Nós costumávamos ter critérios bastante rigorosos para se tornar um membro do partido. Agora temos diferentes níveis de associação, incluindo um círculo daqueles que gravitam em torno do partido. Eles pagam € 20 por ano, on-line, e não são totalmente organizados (nós os chamamos de “membros que dão conselhos”, que de acordo com nossos estatutos não podem votar em nossos congressos). Introduzir esta mudança foi um grande passo para o nosso partido, em 2008; pois enquanto você tinha que ser um marxista consciente para se juntar ao partido, agora temos essa camada mais ampla que educamos ao longo de sua própria atuação, gradualmente.

DB: O sistema político belga é altamente fragmentado, principalmente porque a maioria dos partidos não se organiza nacionalmente, mas apenas na comunidade flamenga ou francófona. Essa fragmentação significa que as preferências dos eleitores estão propensas a mudar? E que tipo de eleitores estão chegando ao PTB – ex-eleitores do Parti Socialiste ou do Socialistische Partij Anders?

PM: Eu caracterizaria os eleitores do PTB como diversos, mas principalmente da classe trabalhadora. No sul [francófono] do país, eles vêm principalmente do Parti Socialiste, que, comparado a outros países da Europa, ainda é um poderoso partido social-democrata na região da Valônia. Nós ganhamos muitos eleitores deles, irritados com seus antecedentes no governo, impondo medidas como limites de tempo para a disponibilidade de benefícios de desemprego. Enquanto isso, no norte do país, competimos com partidos de direita e até de extrema-direita.

Jornalistas de classe média lutam para entender como os eleitores poderiam estar em dúvida entre essas forças e o PTB. Mas é muito lógico: muitas pessoas definem seus problemas em nível social, dizendo que “nossas aposentadorias são muito baixas” ou “agora temos que trabalhar até os 67 anos antes de nos aposentarmos, e as aposentadorias estão caindo”, ou “minha irmã tem que pagar € 2.300 por mês para estar em uma casa de repouso pública, mas sua pensão é de apenas € 1.100”. Então a questão é quem eles consideram responsável: migrantes e refugiados supostamente pegando tudo e conseguindo todas as moradias sociais, ou – seguindo nossa lógica – demandado mais infra-estrutura pública e maior investimento, fazendo com que o grande capital pague por ele em vez de esconder seu dinheiro nas Bahamas e no Panamá. Você toma uma solução racista e chuta os de baixo, ou um anticapitalista que atinge os de cima?

Em Bruxelas, onde obtivemos quase 12 por cento dos votos nas eleições do mês passado, muitos jovens votam no PTB. Essa é a fonte da pequena onda vermelha na capital. Uma coisa que tem funcionado particularmente bem tem sido o uso das mídias sociais com vídeos de Raoul Hedebouw, nosso membro do Parlamento, falando uma linguagem totalmente diferente das outras presentes no Parlamento. Os outros partidos chamam isso de “populismo”, mas esses clipes de suas intervenções são vistos 400.000 ou 500.000 vezes, o que é enorme para um país do tamanho da Bélgica [11 milhões]. Isso é muito popular entre os jovens, que vêm um político que dialoga com eles e tem a ousadia de confrontar os outros.

DB: Falando da direita radical: é notável que as áreas do nordeste da França, logo ao sul do seu país, sejam redutos da Frente Nacional de Marine Le Pen, enquanto do outro lado da fronteira, na Valônia (Bélgica francófona), não. Não parece que a extrema-direita tenha decolado. Por que você acha que isso ocorre?

PM: Eu acho que há duas razões para isso. No norte do país, na maior cidade industrial – Antuérpia – a social-democracia costumava ter um cinturão vermelho da classe trabalhadora, mas nos anos 80 e 90 essa região girou para a extrema-direita do Bloco Flamengo. Dissemos a nós mesmos que, mesmo que a social-democracia fosse a principal responsável por esse fracasso, também precisaríamos assumir a responsabilidade de lidar com esse problema. Vimos que ainda éramos vistos como muito sectários, dogmáticos demais e sem contato com os eleitores que realizavam esse giro. Esta foi uma razão para mudar nossa abordagem, como mencionei anteriormente. Na Valônia, fomos capazes de capturar a desilusão com a política tradicional, e foi muito importante ocupar esse espaço.

A segunda razão é que na Valônia os partidos de extrema-direita e fascistas são mal organizados. Existe um potencial para uma Frente Nacional na Valônia e mesmo se nós, e também o Partido Socialista, estamos cada vez mais fortes, isso não quer dizer que o racismo não exista. Mas se no norte da Bélgica e na França os eleitores que abandonam a social-democracia se voltaram para a extrema-direita, na Valônia eles estão vindo em nossa direção.

Houve um enorme escândalo na Bélgica no mês passado, quando foi revelado que o equivalente belga do grupo fascista francês Génération Identitaire, que se populariza através de memes, foi encontrado infiltrado na ala jovem do NVA, o partido nacionalista flamengo que também é o maior do país. Nós éramos ativos nas universidades e no movimento de jovens para nos mobilizar contra os fascistas. Mas a grande lição que tiramos das décadas de 1980 e 1990 foi que, além de nos mobilizarmos contra esses grupos, também precisamos conversar com os eleitores sobre os partidos de extrema-direita, que estão expressando sua própria raiva e desilusão. Temos que trabalhar para oferecer uma alternativa: pois, embora tenhamos que combater o fascismo, não podemos nos definir apenas em termos negativos. Nas campanhas antifascistas, os eleitores diziam: “Ok, tudo bem, não vamos votar no Bloco Flamengo, mas e depois? Não em você, porque vocês são pequenos e não são dignos de crédito”. O combate à extrema-direita tem que andar de mãos dadas com uma alternativa pós-capitalista que possa contar sua própria história. Você não pode conquistar corações e mentes sem construir um projeto socialista.

DB: Alguns partidos de esquerda europeus responderam ao debate sobre a imigração, abordando questões como o “dumping social” ou a Diretiva dos Trabalhadores Destacados da UE, para falar sobre o efeito que a migração pode ter sobre os salários e direitos trabalhistas. Qual é a posição de vocês sobre isso?

PM: Nossa palavra de ordem é “mesmo trabalho, mesmo salário”, em todos os lugares. Somos a favor da colaboração europeia, e da reunião dos países; há, de fato, muitos problemas mais bem resolvidos na escala continental, e não somos favoráveis ao retorno do nacionalismo ou do independentismo [da União Europeia]. No entanto, pensamos que a UE de hoje não é a melhor estrutura para essa cooperação, porque ela sistematicamente favorece as grandes empresas e os banqueiros e organiza a competição entre as classes trabalhadoras de diferentes países. Na verdade, organiza o “dumping social”, o que é particularmente um problema na indústria da construção. Temos uma forte linha antirracista e não temos posições como “Bélgica para os belgas”.

DB: Exemplos recentes de governos de esquerda, desde a administração socialista francesa de François Mitterrand nos anos 1980, até o Syriza na Grécia desde 2015, mostraram a dificuldade de construir a “social-democracia em um só país”, mas também os limites específicos impostos pelas estruturas europeias a essas experiências. Se o seu partido não prevê um “caminho belga para o socialismo” independente, que mecanismos considera que poderiam ser usados para reformar a Europa como um todo?

PM: Eu não acho que a história apenas se move em uma direção. Crises vão acontecer de novo, mesmo nos próximos cinco a dez anos. Hoje, podemos ver que a humanidade enfrenta uma variedade de questões, desde a desestabilização do Oriente Médio até as tensões militares entre os Estados Unidos e a China, o desastre climático crescente, a crise econômica em curso desde 2008 e a especulação no real imobiliário que está criando hoje uma nova bolha, que eventualmente explodirá. O importante é que sejamos a força mais bem preparada para esse momento e – em meio a essa crise – poder empurrá-la para outro tipo de colaboração europeia, outro acordo europeu. Temos que nos preparar para esse impulso, pois não podemos permitir que a extrema-direita ou os neoliberais respondam sozinhos à crise.

É impossível dizer exatamente como esta crise emergirá, mas talvez haja dois, três, quatro, cinco países que estão procurando seguir seus próprios caminhos e que colaborarão juntos de uma maneira diferente. Não creio que todos os países da Europa evoluam em uma direção, mas existe a possibilidade de que várias populações estabeleçam um novo acordo, algo que poderíamos chamar metaforicamente de uma ALBA europeia [semelhante à Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, criada por governos de esquerda na América Latina e no Caribe]. Esse é um caminho possível, mas não há um plano predeterminado para um futuro que ainda está por vir.

Nas atuais estruturas da União Europeia, não é possível passar por essa mudança: é preciso haver um momento qualitativo de ruptura para romper com seus tratados e as medidas de austeridade, a privatização, o processo Semestre Europeu [verificações da Comissão Europeia sobre orçamentos nacionais] que essas estruturas impõem. Penso, no entanto, que é possível trabalhar nos marcos do sistema político europeu e não acreditar na abstenção, mas no sentido de avançar para essa ruptura.

A Bélgica é um país pequeno e somos modestos quanto ao nosso tamanho como um partido. Mas a situação entre as forças à esquerda da social-democracia na Europa hoje é caótica. Precisamos ter uma plataforma comum básica e ampla, semelhante à da Primeira ou Segunda Internacional, pois ainda não está claro qual é o melhor rumo. No momento, acreditamos no GUE/NGL [um grupo da esquerda do Parlamento Europeu] como uma plataforma para todas as forças de esquerda autênticas. Há, naturalmente, muitos pontos de vista diferentes – nós mesmos trabalhamos em estreita colaboração com o partido comunista português (PCP), o cipriota (AKEL) e o PCF da França, mas também temos contatos com Jean-Luc Mélenchon (France Insoumise) e ambos Die Linke e o Partido Comunista na Alemanha.

Somos um partido marxista que acredita num futuro socialista e não na adaptação do capitalismo. Mas acreditamos na necessidade de uma discussão entre todas as forças de esquerda autênticas sobre o caminho para superar o capitalismo e o imperialismo, e sobre nossas experiências no combate ao racismo e na organização da classe trabalhadora. Se cada partido de extrema-esquerda simplesmente recuar para sua parte privada da verdade, isso não nos levará a lugar algum.


[1] PDVA-PTB é um partido bilíngue e, portanto, com dois nomes: um em neerlandês (Partij Van De Arbeid van België) e um em francês (Parti du Travail de Belgique). As traduções inglesas se valem do termo “Worker’s Party”, Partido dos Trabalhadores. Optamos, como outras traduções para o português e o espanhol, por “Partido do Trabalho”.

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