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Diário Liberdade
Quinta, 09 Novembro 2017 18:00 Última modificação em Domingo, 12 Novembro 2017 20:35

A “Revolução Brasileira” de Nildo Ouriques: entrevista com o pré-candidato à Presidência pelo Psol

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Roberto Bitencourt da Silva

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[Roberto Bitencourt da Silva*] "Temer é um governo sem qualquer apoio popular e, por isso mesmo, decisivo para a burguesia e suas frações (bancária, industrial, comercial e latifundiária). Ele terminará seus dias na cadeia, muito provavelmente, mas realiza o trabalho que a burguesia quer lubrificado com alta corrupção".


Economista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, importante pensador brasileiro que tem contribuído bastante para o debate público nos últimos anos, Nildo Ouriques é pré-candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol) à Presidência da República.

Esse catarinense nascido na cidade de Joaçaba, de 58 anos de idade, engenhoso e aguerrido intelectual norteado por ideais nacionalistas, anti-imperialistas e de esquerda, lançou a sua pré-candidatura tem poucos meses. Desde então, Nildo tem circulado pelo País, em contato com estudantes, professores, ativistas e militantes de movimentos sociais e demais organismos populares e de esquerda.

Com os declarados objetivos de “divulgar o Programa da Revolução Brasileira, conscientizar nosso povo desta oportunidade histórica, liquidar as ilusões liberais (de esquerda e direita)”, além de encontrar-se muito preocupado com as atuais ameaças que pairam sobre os destinos do Brasil, o professor da UFSC concorrerá, no Congresso do Psol a ser realizado em dezembro, com a ex-deputada federal Luciana Genro à indicação eleitoral pelo partido.

Desempenhando o típico papel do intelectual defendido pela perspectiva do filósofo italiano Antonio Gramsci – isto é, alguém detentor de saber especializado, mas que, com desprendimento, se engaja na tentativa de esclarecimento e resolução dos problemas públicos que ultrapassam, e muito, a sua área profissional –, o professor Nildo Ouriques rejeita o academicismo, que considera nefasto à universidade e ao Brasil, devido a sua postura de distanciamento em relação às causas que afligem o povo.

No livro “O colapso do figurino francês: crítica às ciências sociais no Brasil” (publicado pela editora Insular, em 2014), além de criticar o insinuante colonialismo mental e o padrão academicista da universidade no Brasil, o professor teoriza com clareza o que tem praticado: a produção de um saber mergulhado na ação e na reflexão prática. Ademais, segundo o pré-candidato, na lastimável quadra histórica em que nos situamos, o “Psol vive este desafio: ou traduz a crise na superação do sistema ou será inexoravelmente tragado por ela”.

Tendo em vista conhecer e contribuir para fazer conhecer um pouco mais as ideias, avaliações, propostas e expectativas políticas do pré-candidato do Psol à Presidência da República, entrei em contato com o professor Nildo Ouriques solicitando entrevista. Em meio à sua atribulada agenda de compromissos e viagens, ele gentilmente respondeu por e-mail às questões enviadas. A entrevista segue abaixo.

 “A guerra de classes declarada pelo liberalismo corrupto de Temer exige uma resposta firme das classes subalternas”.

Qual a formação e a trajetória acadêmica, profissional do senhor? Como se deu o seu “encontro” com a teoria marxista da dependência?

NILDO OURIQUES: Formei em economia na UFSC e realizei meu doutorado também em economia na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México). Logo que concluí minha graduação fui trabalhar no Rio de Janeiro na Fundação Escola do Serviço Público (FESP), um organismo do governo fluminense que, a época era coordenado por Theotônio dos Santos. Lá, recém-formado, trabalhei e conheci grandes teóricos marxistas e a fina flor do pensamento crítico latino-americano. Theotônio dos Santos, René Dreyffus, Vania Bambirra e especialmente Ruy Mauro Marini. Mas também na experiência da FESP conheci Ernest Mandel, André Gunder Frank (de quem me tornaria próximo), Perry Anderson, Immannuel Wallerstein, entre outros intelectuais europeus. Mas conheci também os melhores intelectuais latino-americanos, entre os quais destacaria Orlando Caputo, Pablo González Casanova, Orlando Fals Borda, Pedro Vuskovich, Aníbal Pinto, Hector Oqueli etc. Depois conheci outros tantos como Agustín Cueva, Sérgio de la Peña, José Valenzuela...

Foi este contato inicial com o melhor da intelectualidade dos anos sessenta que atiçou ainda mais minha curiosidade intelectual, característica que já acumulava da militância clandestina contra a ditadura nas filas do MEP (Movimento pela Emancipação do Proletariado), uma variante da POLOP [Organização Revolucionária Marxista — Política Operária]. Portanto, já na militância iniciada no movimento estudantil – nos anos 1980 – eu entrei em contato com a crítica da POLOP ao PCB, na qual estava implícito o programa de pesquisa que atualmente adoto, ou seja, a Teoria Marxista da Dependência. No fundo, necessitava explicar o fracasso do desenvolvimentismo e teorizar sobre a transição ao socialismo na América Latina, perspectiva aberta com a Revolução Cubana em 1959, ano em que nasci.

Nos últimos anos estudo a relação entre o marxismo e o nacionalismo, também desde uma perspectiva crítica que inicia com Marx e termina em Gondin da Fonseca. Neste aspecto, tenho tido uma fecunda relação com Gilberto Felisberto Vasconcellos [sociólogo, professor da UFJF e colunista de Caros Amigos], o cara mais versado em cultura brasileira que conheci. Mergulhei fundo nas pistas que ele me passou e, modestamente, indiquei pra ele os autores latino-americanos que a formação uspiana dele impediu. Alego sempre que não é uma "troca desigual", mas uma troca de equivalentes, pois ambos nos beneficiamos. E claro, a relação com os estudantes que sempre me estimulou e indicou novos caminhos e desafios pois a curiosidade de muitos deles é muito fecunda!

O sr. sempre ressalta a engenhosidade e a fecundidade da teoria marxista da dependência. Porque ela é importante?

NILDO OURIQUES: Você sabe, seguimos atolados no subdesenvolvimento e na dependência, a despeito e, diria, precisamente porque sofremos sucessivos processos de modernização impulsionados de fora para dentro e de cima para baixo. Afinal, por que aqui nós estamos presos ao desenvolvimento do subdesenvolvimento? Por que não superamos a miséria? Por que o país exporta quase que exclusivamente produtos agrícolas e minerais? Por que não superamos a dependência científica e tecnológica? Por que a destruição da natureza no país que possui imensa biomassa e que poderia ter, mas não tem, outras fontes limpas e eternas de energia limpa? Enfim, necessitamos uma teoria para explicar a dependência do país ao imperialismo e não existe outra teorização capaz de fazê-lo. Agora, estamos avançando no programa de pesquisa, incorporando novos fenômenos, ausentes no impulso teórico inicial e no desafio lançado por Ruy Mauro Marini de uma teoria marxista da dependência.

Professor, quais as suas experiências políticas anteriores? Como veio a integrar o Psol e porque a escolha em ingressar nesse partido?

NILDO OURIQUES: Fui militante do PT em 1979/1980 e estou entre os 100 primeiros filiados no partido em Santa Catarina. Era um tempo difícil de ser petista. Muito difícil. É algo impensável para alguém de 20 anos hoje, pois a crise política e a decadência moral e ética do PT e seu principal líder (Lula) é completa. Mas na luta contra a ditadura e construção de um partido de massas, apoiado na classe trabalhadora (cidade e campo) não pode ser esquecida. Tenho orgulho de ter pertencido ao PT quando era muito difícil ser petista. Saí do PT em janeiro de 2005, portanto, no segundo ano do primeiro mandato do governo Lula, quando Palocci, este mesmo que é um funcionário dos bancos e amarga prisão, aplicou um ajuste fiscal pior do que aquele realizado nos 8 anos pelo ministro Pedro Malan do governo FHC. Saí do partido, portanto, quando existiam cargos, possibilidades, portas abertas e muitos convites.

Nunca pertenci a diretório municipal, estadual ou nacional. Nunca desfrutei de cargo nos governos petistas. Saí por convicção que o PT estava se transformado no que, de fato, é hoje: um partido da ordem, a serviço das classes dominantes. Durante todos os governos do PT mantive o trabalho nos sindicatos, movimentos sociais e na universidade, formando alunos, fazendo a crítica ao colapso que era inevitável e previsível, tal como agora todos podem ver. Bueno, todos não, porque ainda há muita gente boa que se ilude com Lula....

No entanto, devo esclarecer algo essencial: se nunca me afastei da militância política (mesmo sem partido) somente decidi voltar a vida partidária porque a crise inaugurada com o ajuste aplicado por Dilma – após vencer Aécio prometendo fazer o contrário do que de fato fez – e aprofundado pelo governo liberal e corrupto de Temer, requer nova práxis política. Esta é uma crise que não pode ser banalizada como indicam aqueles que julgam que apenas sofremos os efeitos negativos de uma recessão passageira. É ilusão conveniente. A guerra de classes declarada pelo liberalismo corrupto de Temer exige uma resposta firme das classes subalternas. Voltei ao combate partidário porque agora, o sistema político não representa mais ninguém. Meus vizinhos não acreditam nos políticos vulgares que dominam as manchetes dos jornalões. Não acreditam no Congresso Nacional, um covil de ladrões.

Tampouco alimentam ilusões sobre as cortes, como demonstrou as acusações entre o ministro Barroso do Supremo contra Gilmar Mendes. Um escândalo televisionado! E a presidência de Temer completa o quadro da descrença popular. Aqui, a questão relevante: agora, precisamente quando a maioria não acredita mais no sistema político dominante, temos a oportunidade histórica de romper com este sistema corrupto e favorável as classes dominantes. Não tem sentido atuar como se fossemos o "espirito crítico" do petismo, ou ainda a "reserva moral" do sistema! Agora existe a possibilidade histórica – eu diria, a exigência histórica! – de romper com sistema. O PSOL vive este desafio: ou traduz a crise na superação do sistema ou será inexoravelmente tragado pela crise.

É desafio histórico, enorme, de profundas implicações! O PSOL nasceu da revolta contra o petismo que se entregou e se vendeu, especialmente na primeira "reforma" da previdência realizada pelo Lula. Foi um ato de rebeldia importante. No entanto, agora o desafio é muito maior: trata-se de superar um sistema político no qual o PT e o PSDB (com o PMDB, DEM etc.) representam os mesmos interesses e divergem apenas em questões menores. O petismo adotou o Plano Real que, em nome do combate à inflação, aprofundou a dependência e o subdesenvolvimento ao ponto que o bordão atual é dado pela Globo ("o agro é pop, é tech, é tudo. O agro é a riqueza do Brasil!”). Pode isso? É um conceito anterior a Adam Smith!!! Por isso escolhi o PSOL, porque não possui a tradição do PCB e do PSTU, partidos pelos quais tenho grande admiração e respeito. Mas é no PSOL que posso discutir, teorizar e praticar as exigências da Revolução Brasileira que está em curso fora de um corpo teórico que com imenso respeito verifico no PSTU e no PCB.

“Somente a ruptura com este sistema rentístico e corrupto poderá abrir as portas para contemplar os interesses populares. É, neste sentido, um período histórico para a Revolução Brasileira”.

Porque a candidatura à Presidência?

NILDO OURIQUES: No Brasil, vamos deixar claro, não vamos mudar nada com eleições. A razão é simples: nenhum país no planeta mudou com disputa eleitoral. É a luta de classes, ou se você quiser, as lutas sociais, que mudam o estado, a economia, a cultura. Mas, precisamos disputar eleições para divulgar o Programa da Revolução Brasileira, conscientizar nosso povo desta oportunidade histórica, liquidar as ilusões liberais (de esquerda e direita), avançar na organização a partir de uma nova práxis que renove nossos sindicalistas, militantes sociais, juventude etc. O povo acredita com razão no PRESIDENCIALISMO e por isso mesmo negou duas vezes as tentativas da classe dominante em implantar o parlamentarismo. FHC, Lula, Dilma e Temer atuaram sabotando as virtudes do presidencialismo e divulgaram a "teoria" do "presidencialismo de coalisão". Uma farsa!!!

No entanto, farsa destinada a atender os interesses da classe dominante e iludir o povo com a versão que sem base parlamentar não se governa o Brasil. Sacanagem pura! Sem convocar o povo para as grandes lutas, consultando, com referendos, as grandes questões, o Brasil vai afundando cada dia mais. FHC, Lula, Dilma e Temer são iguais no essencial. Veja o Lula agora, já falando em "Lulinha paz e amor" novamente, fazendo alianças com Renan, Eunício, e toda a corja de políticos corruptos! Lula fala inclusive em "perdão" aos golpistas, revogando, na prática, o discurso do golpe que o petismo ainda alimenta por pura conveniência. Lula está, na prática, costurando novo "presidencialismo de coalisão", ou seja, novo pacto de classe que somente legitimará a miséria de nosso povo, consolidará a falta de soberania nacional e alimentará um sistema político em que nosso povo é reduzido a opinar a cada 4 anos nas eleições! Ora, eu valorizo as virtudes de nosso presidencialismo que consiste em primeiro lugar, na obrigação do presidente em convocar o povo para as grandes lutas (reforma agrária, auditoria da dívida, controle da conta de capitais, extinção do Senado e criação de um sistema unicameral, reforma urbana etc.).

O senhor é bastante crítico aos anos de governos Lula/Dilma. Quais foram as limitações e os problemas principais dos governos destes presidentes? Quais os eventuais avanços ou aspectos positivos em relação aos anos do período FHC?

NILDO OURIQUES: Nem Lula, nem Dilma, convocaram o povo para uma luta sequer. Nem mesmo quando estava perdendo o mandato para uma corja de ladrões, Dilma e Lula convocaram o povo para defender seu governo. Por quê? Porque no fundo eles sabem que se o povo começar a lutar, apreenderá a lutar. E se isso ocorrer, não ficarão limitados à aliança de classe que eles querem comandar. A principal limitação dos governos petistas, portanto, foi jamais ter convocado o povo para a luta. Confinaram nosso povo à condição de eleitor de um sistema corrupto que os dois pretendiam manejar a sua maneira. Mas esta não é a única opção perniciosa. A segunda, igualmente grave, foi dar continuidade ao Plano Real e aprofundar a dependência econômica, científica e tecnológica. Em poucas palavras, Lula e Dilma alimentaram mais do que FHC a República Rentista, ou seja, a hegemonia das finanças no desenvolvimento do capitalismo dependente. Por isso afirmo – para desespero do petista ingênuo – que seus governos são iguais aos de FHC. De fato, nas questões centrais são iguais. Até mesmo a desigualdade de renda e riqueza aumentou durante os anos do PT a despeito da propaganda dos programas sociais...

“Sem convocar o povo para as grandes lutas, consultando, com referendos, as grandes questões, o Brasil vai afundando cada dia mais. FHC, Lula, Dilma e Temer são iguais no essencial”.

A integração regional sul-americana foi intensificada nos últimos anos, sobretudo por intermédio das iniciativas adotadas pelos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Lula e Dilma. Particularmente por meio da União de Nações Sul-americanas (Unasul), esteve em curso, ao menos até recentemente, medidas de cooperação em infraestrutura e a criação do Conselho Sul-americano de Defesa, em que se esboça, ou ensaiou, uma potencial aliança militar regional com vistas ao delineamento de uma diretriz comum de defesa regional, visando a proteção dos imensos recursos naturais e a criação de uma cadeia produtiva/industrial autóctone no setor militar. Como avalia essas ações, suas virtudes e limitações?

NILDO OURIQUES: Bueno, há imensas diferenças. Enquanto Hugo Chávez tinha evidente clareza sobre a importância de um bloco regional coeso, Lula e Dilma nunca deram importância de fato. Os governos petistas trabalharam dentro da perspectiva de Washington, ou seja, pretendiam – e de fato realizaram – um contraponto à perspectiva bolivariana. Lula no primeiro mandato ignorou Chávez e mantinha relações meramente protocolares; no segundo, exerceu ativismo diplomático destinado a esterilizar as propostas feitas por Chávez. Nunca aceitou o Banco do Sul, por exemplo; embarcou nos BRICS que é uma proposta da China sem conseguir fazer nada relevante lá. Enfim, atuou na América Latina com a "doutrina" da "liderança natural" que a diplomacia estadunidense fomenta como meio de dividir os países latino-americanos.

Ora, como alguém na Venezuela, no Equador ou na Bolívia aceitará a "liderança natural" do Brasil se precisamente aprenderam a respeitar a soberania nacional como nunca antes nestes países? No entanto, a criação da CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] é importante e nós ainda necessitamos levar a sério uma política externa completamente soberana que, nas condições históricas, significa enfrentar o expansionismo estadunidense. Aquele bordão simpático do Chico Buarque, segundo o qual a diplomacia do Lula "não fala fino com os Estados Unidos nem grosso com o Paraguai" é enganosa. É machadiana, diria. Afinal, Capitu traiu ou não? É ambígua!

Um meio cabotino de não afirmar uma política anti-imperialista sem a qual jamais teremos soberania e tampouco poderemos utilizar a riqueza e o potencial do Brasil. E, claro, uma linha de atuação central no terreno de uma política externa realmente independente é a militar: sem superar a doutrina kennedyana da "defesa hemisférica" permaneceremos dominados pelos Estados Unidos. Ademais, temos que superar a dependência científica e tecnológica em que estamos afundados. No ano passado, o Brasil pagou quase 5 bilhões de dólares de royalties e importou quase 20 bilhões de dólares de máquinas e equipamentos em compras e aluguel. É o fim da burguesia produtora de capital fixo. Dependência máxima! A integração latino-americana, prevista no primeiro capítulo de nossa Constituição, é alavanca para nossa soberania e independência.

Como o sr. enxerga o chamado “avanço conservador” no Brasil?

NILDO OURIQUES: Não enxergo! Conservadores e fascistas sempre existiram, mas uma onda fascista e/ou conservadora é, antes de mais nada, uma muleta pra justificar a volta do Lula, como se ele fosse, de fato, nosso horizonte possível, alguém capaz de pelo menos parar com o avanço do conservadorismo. É leitura falsa ou equivocada. No mundo, aliás, há o avanço dos progressistas e da esquerda. Veja os Estados Unidos: Trump despenca na popularidade e Bernie Sanders foi a novidade política que empolgou a juventude e grande parte dos trabalhadores; na Europa, veja o avanço de Malenchon! Marie Le Pen sempre existiu, mas a força nova, realmente nova, foi Malenchon. Na Inglaterra também. E na América Latina indique um governo conservador com popularidade. No México, Peña Nieto é governo sem apoio popular mínimo. Macri na Argentina igualmente. Santos na Colômbia tampouco tem apoio popular. Temer no Brasil é o limite extremo e as pessoas falam em "avanço conservador"! O que nos falta é ter clareza que se nós da esquerda – especialmente o PSOL, o PCB, e o PSTU – não avançarmos com força, figuras ridículas e direitistas como Bolsonaro ocuparão o NOSSO espaço! É elementar, básico!

De resto, a existência de gente de direita e mesmo fascistas no Brasil não constitui novidade alguma. Creio que o discurso que vê fascistas até em baixo da cama é apenas um discurso para justificar a passividade em alguns setores progressistas e, no limite, justificar o "voto útil" em Lula como se o país estivesse ao borde de uma ditadura. Ocorre que não existe possibilidade de ditadura agora. As ditaduras somente emergem quando a ordem burguesa está seriamente ameaçada pelo avanço da luta dos trabalhadores e do socialismo. Nossa situação é diferente: temos enorme possibilidade de superar a conciliação de classe a partir do fracasso histórico do petismo, mas estamos apenas começando a avançar.

“Nós necessitamos levar a sério uma política externa completamente soberana que, nas condições históricas, significa enfrentar o expansionismo estadunidense”.

Como interpreta o governo de Michel Temer (PMDB)? Quais os potenciais danos a serem causados para o País, os riscos que nos assombram com as medidas por ele adotadas?

NILDO OURIQUES: O governo liberal e corrupto de Temer aprofunda o ajuste iniciado por Dilma. Na prática, tal como a ex-presidente, Temer moveu uma guerra de classes contra nosso povo. É governo sem qualquer apoio popular e, por isso mesmo, decisivo para a burguesia e suas frações (bancária, industrial, comercial e latifundiária). Ele terminará seus dias na cadeia, muito provavelmente, mas realiza o trabalho que a burguesia quer lubrificada com alta corrupção. Tem no Congresso Nacional um covil de ladrões e corruptos que legalizam em termos parlamentares este assalto ao Estado que as distintas frações necessitam no rentismo atual. Temer terminará o trabalho iniciado por Dilma e [Joaquim] Levy, aquele office boy do Bradesco que foi seu ministro de economia.

Temer fará todas as ditas "reformas" para que o novo governo – Alckmin ou Lula, não importa – não necessitem fazê-las. Por isso, Lula já afirma que "perdoa os golpistas", mantém sólida aliança com Renan Calheiros, recebeu apoio de Eunício, o presidente do Senado acusado de corrupção. Lula já monta o cenário para montar o mesmo pacto de classe que levou ao golpe contra Dilma e a guerra de classes contra nosso povo. Os danos, portanto, são enormes e ninguém de dentro do sistema poderá estancar o processo. Por isso, insisto que somente uma candidatura antissistêmica (não uma anticandidatura!) poderá oferecer uma resposta real, viável, capaz de varrer a corrupção do sistema petucano em que Aécio e Lula fazem parte.

Professor, o senhor tem preconizado a necessidade de as esquerdas partidárias e as forças populares, os movimentos sociais, realizarem esforços em prol da “Revolução Brasileira”. Essa temática e visão há muito foi escanteada no Brasil. Com ênfase e vigor, o tema foi bastante explorado pelas análises e diretrizes políticas das antigas esquerdas nacionalistas do pré-1964, tendo em expressivos personagens do campo intelectual, como o historiador Nelson Werneck Sodré e o sociólogo Guerreiro Ramos, alguns dos seus defensores. Em que se assemelha e em que se diferencia a “Revolução Brasileira” no século XXI? Quais os meios para construí-la e os objetivos a que se destina?

NILDO OURIQUES: Na periferia capitalista uma política reformista sempre será importante desde que apoiada por massas. Revolução não se faz sem reformas, ensina Rosa Luxemburgo. No entanto, as políticas públicas desenvolvidas nos anos do petismo sequer caracterizam um processo de reformas! Portanto, articular política pública com reformas é decisivo, na mesma medida em que estas, as reformas, sem revolução, terminam no fracasso e no avanço da direita. É lição histórica elementar que somente a miséria do petismo com a sua digestão moral da pobreza tenta ocultar. Lula e Dilma evitaram toda política reformista e se limitaram a fazer política pública nos marcos do rentismo, ou seja, da política de superávit fiscal que vingou até 2014! Imagine um governo com superávit fiscal e transporte de quinta categoria! Superávit fiscal e o sistema de saúde em frangalhos! Superávit fiscal e expansão das universidades públicas a conta gotas! Esta é a miséria do lulismo!

Esta política evitou o debate sobre a Revolução Brasileira na tradição de Werneck, Guerreiro Ramos, Ruy Mauro Marini etc. O lulismo, com a sua cínica consigna de "lulinha paz e amor", num dos países mais desiguais do mundo, "escanteou" (para usar o teu termo) o debate sobre a Revolução Brasileira. Mas com o fracasso histórico dos governos petistas, derrubados por um golpe parlamentar armado naquele covil de ladrões, o petismo revelou sua impotência. Em consequência, abriu-se um novo período que somente pode ser entendido e solucionado nos marcos da Revolução Brasileira. Ademais, a volta do Lula como meio de estancar a guerra de classes movida pela burguesia contra nosso povo é uma farsa porque o capitalismo rentístico que nos domina impede políticas de acumulação produtiva e distributiva. Enfim, somente a ruptura com este sistema rentístico e corrupto poderá abrir as portas para contemplar os interesses populares. É, neste sentido, um período histórico para a Revolução Brasileira.

Professor Nildo, vejo seu sistemático destaque concedido à questão nacional como dimensão política e programática necessária às esquerdas. Há muito, os temas relativos ao imperialismo, ao perfil de acolhimento do capital estrangeiro em nossa economia, ao padrão de inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho, foram desprezados nas diferentes hostes das esquerdas. Desde a redemocratização institucional do País, praticamente ficaram restritos à retórica e às denúncias do ex-governador Leonel Brizola. Porque é importante recuperar essas preocupações e oferecer respostas a estes desafios e dilemas?

NILDO OURIQUES: Creio que estes temas não foram esquecidos pela esquerda que não se rendeu ou vendeu. Este abandono de questões como imperialismo, o caráter nocivo do capital estrangeiro, a dependência, foi abandonado pelo PT, mas não pela esquerda. E o PT não é um partido de esquerda, ainda que muitos trabalhadores votem nele. Recorda que Lula sempre repetia que o Brasil tinha o sexto PIB do mundo? Apologia pura! O que é o PIB como medição de riqueza? Indicador muito rarefeito, especialmente quando observamos sua composição pois no caso brasileiro o PIB cresce pela agricultura de exportação e afunda na indústria.

Esta diferenciação é decisiva se, de fato, queremos compreender nossa situação atual. Ora, num país dependente a defesa da soberania é estratégica. Portanto, toda revolução, mesmo quando possui vocação universal, é nacionalista. Na verdade, cumpre funções nacionais que a burguesia não pode nem nunca poderá cumprir. Enfim, sem analisar a dominação imperialista e lutar fortemente contra ela, nada poderá ser feito num país da periferia do sistema capitalista, especialmente na América Latina. Ademais, sem perceber que o país faz parte desta cadeia imperialista e cumpre funções ultra regressivas na divisão internacional do trabalho, seremos comandados pela consciência ingênua tipicamente petista, socialdemocrata ou apenas liberal. Por isso dediquei os últimos anos ao estudo sistemático da questão nacional e da relação entre marxismo e nacionalismo. É uma questão estratégica de nosso processo revolucionário tanto para evitar equívocos sobre a "teoria" do "populismo" de extração uspiana que tantos erros produziu entre nós, quanto para potencializar a luta pelo socialismo em nosso país e na América Latina.

*Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

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