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Diário Liberdade
Quinta, 28 Abril 2016 11:51 Última modificação em Segunda, 02 Mai 2016 17:07

Lenine e o imperialismo Destaque

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Miguel Urbano Rodrigues

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A palavra imperialismo – originária do latim – é muito anterior ao aparecimento do moderno imperialismo como realidade politica, social e económica.


Mas foi Lenin quem pela primeira vez chamou a atenção para a ameaça que a nova fase do imperialismo significava para a humanidade, o que exigia uma estratégia revolucionária.

O seu livro – O Imperialismo fase superior do capitalismo – foi publicado em l917, meses antes da Revolução de Fevereiro, que derrubou a monarquia autocrática russa.

A Associação Cultural Diário Liberdade lançou agora uma edição em galego dessa obra hoje um clássico do marxismo.

No prefácio, que escreveu em Petrogrado em Abril de 17, Lenin esclarece que algumas passagens da versão original foram por ele mutiladas para que a censura czarista autorizasse a sua distribuição na Rússia. Viu-se forçado, por exemplo, a substituir Rússia por Japão para iludir os censores do czar.

No prefácio para as edições francesas e inglesa, publicadas em 1920, dirigindo-se aos leitores da Europa Ocidental, caracteriza a guerra de 1914-18 como um conflito «pela partilha do mundo, pela divisão e distribuição das colónias, das esferas de influencia do capital financeiro, etc». Acrescenta aliás que «as guerras imperialistas são absolutamente inevitáveis enquanto subsistir a propriedade privada dos meios de produção».

Um terceiro prefácio, da responsabilidade da Editora Diário Liberdade, confere à iniciativa uma grande atualidade. Os leitores apercebem-se de que, transcorrido quase um século, a reflexão de Lenin sobre a natureza do imperialismo no início do século XX os ajuda muito a compreenderem a complexidade de grandes problemas contemporâneos não obstante as prodigiosas mudanças ocorridas no mundo desde então.

Lenin foi o primeiro marxista a aperceber-se das consequências do domínio avassalador dos monopólios na nova fase do imperialismo. No seu livro – a que chamou folheto – inova também ao desmascarar a manobra da burguesia que criou «a aristocracia operária» para dividir a classe trabalhadora.

O prefácio da edição galega lembra que Lenin antecipou a importância que iriam assumir revoluções democráticas e nacionais em países atrasados (casos da persa, da turca e da chinesa) e as lutas contra o colonialismo e o imperialismo.

«As lutas nacionais – escrevem os editores – serão cada vez mais ingredientes, progressistas e revolucionárias frente ao domínio dos monopólios, o que exige a sua integração na estratégia do movimento comunista internacional».

Os cinco pontos referidos por Lenin para definir o capitalismo monopolista da sua época mantêm atualidade na caracterização do imperialismo deste início do terceiro milénio.

«A concentração da produção e do capital, mediante a hegemonia dos monopólios, tem avançado inexoravelmente durante o ultimo século – sublinham os editores –; a fusão entre capital bancário e industrial, que hoje já converteu o capital financeiro em dominante sobre o industrial e comercial; a exportação de capitais que liga diretamente com a teoria marxista da dependência, desenvolvida principalmente por autores marxistas latino-americanos a partir das decidas de 60 e 70**, de especial interesse na dialética colonial centro-periferia, soberania-dependência e do papel que, no caso da Galiza o nosso país ocupa na divisão internacional do trabalho, a repartição do mundo entre as grandes potências, cuja culminação não só não impede que continuem os conflitos, com os estende às regiões do globo de interesse extrativo, energético e geoestratégico».

Considero útil transcrever dois parágrafos do livro de Lenin. Facilitam a compreensão da crise estrutural que o capitalismo enfrenta:

«Por outras palavras o velho capitalismo, o capitalismo da livre concorrência, com o seu regulador absolutamente indispensável, a Bolsa, passa à história. Em seu lugar apareceu o novo capitalismo, que tem os traços evidentes de um fenómeno de transição que representa uma mistura da livre concorrência com o monopólio».

«O velho capitalismo caducou. O novo constitui uma etapa de transição para algo diferente. Encontrar ‘princípios firmes e fins concretos’ para a ‘conciliação’ do monopólio com a livre concorrência é naturalmente uma tarefa votada ao fracasso».

Lenin, ao escrever o seu livro em vésperas de uma revolução que abalaria o planeta, tinha plena consciência de que o capitalismo monopolista na sua fase de transição não era estático. Estava em permanente transformação.

O futuro imediato era imprevisível.

A vitória da Revolução de Outubro foi um dos acontecimentos mais maravilhosos da Historia da Humanidade. Mas o socialismo não se implantou na Europa Ocidental e, hoje a Rússia, destruída a URSS, é um país capitalista.

Nem por isso – repito – o livro de Lenin perdeu atualidade. Merece ser lido e relido.

A Editora Diário Liberdade prestou um serviço ao povo da Galiza ao publicá-lo na sua língua.

O combate dos patriotas galegos pela independência contra a dominação do Estado Espanhol é muito difícil. Não obstante, os revolucionários leninistas da Galiza irmã não baixam os braços. É sua convicção inabalável que o comunismo (com passagem pelo socialismo) é a única alternativa possível à barbárie capitalista que ameaça destruir a humanidade.

*O Imperialismo Fase Superior do Capitalismo, ed. Associação Cultural Diário Liberdade, 181 págs, Galiza, janeiro de 2016

** Sobretudo os brasileiros Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso e o chileno Enzo Faletto (nota do autor deste artigo)

Serpa, Abril de 2016

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