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Diário Liberdade
Segunda, 08 Abril 2019 06:27 Última modificação em Quinta, 18 Abril 2019 00:50

Essa incômoda Venezuela

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País: Venezuela / Resenhas / Fonte: Diário Liberdade

[Anisio Pires*] Um velho companheiro de lutas do Movimento Estudantil, da Geração Henfil, postou no facebook matéria da BBC no intuito de fazer uma “reflexão” e uma “autocritica” sobre os rumos da esquerda. Seu título. “Crise na Venezuela: o custo do governo Maduro para a esquerda na América Latina” (https://bbc.in/2FMSLYn).

Matérias como essa vêm se repetindo. Sua característica em comum é a de se apresentarem como “opiniões equilibradas”, nem declaradamente favoráveis nem explicitamente contrárias ao processo político venezuelano.

Outras notas também da BBC, mais argutas, mostram certas verdades favoráveis à Revolução Bolivariana (que a maioria da mídia não admite) para, na sequência, inocular ataques já conhecidos, tentando legitimá-los a partir desses surtos momentâneos de honestidade. Os thinking tanks (tanques pensantes) imperialistas sabem que existe um público honesto que procura um ponto-de-vista intermediário, mas sabem também que há outro público ávido de argumentos que sirvam de álibi para tomar distância da Venezuela pela “esquerda”.

Essa matéria que o algoritmo do facebook colocou na minha frente não é nem melhor nem pior, é diferente. Seu duplo “mérito” é o de servir de Cavalo de Tróia para atacar a Revolução Bolivariana de um jeito “cabeça”, “inteligente” e dar voz aos que querem sair desse incômodo anonimato de nada dizer a respeito. A palavra Venezuela parece atualizar aquela misteriosa força anunciada no Manifesto Comunista: “Um fantasma percorre o mundo ...”

Esse novo produto informativo da BBC é no mínimo confuso, do tipo “nem isto nem aquilo, mas tudo pelo contrário”. Não traz essa "reflexão" que seduziu um velho combatente, senão, como já tínhamos afirmado, uma crítica velada contra a Revolução Bolivariana, justo no momento em que ela virou o alvo principal do IMPERIALISMO. Um termo, aliás, atualíssimo por escancarados fatos, mas que não aparece em nenhum momento nessa matéria sobre a “esquerda na América Latina”. Um descuido conceitual?

Ilustrada para ficar mais arejada (“Getty Images”), a matéria inclui, entre outras, uma foto muito indignante para um venezuelano, pois vai da crítica velada direto para a manipulação. Algo não percebido pelo leitor que achou pertinente e divulgou a matéria. Descuido novamente ou predisposição?

Na foto em questão aparecem jovens terroristas venezuelanos (chamados de guarimberos), carregando um deles aparentemente ferido. São os contratados pela direita como tropa de choque nos acontecimentos recentes do dia 23 de fevereiro na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, quando montaram aquele show da suposta “ajuda humanitária”. Por trás deles, aparecem dois policiais. Ao pé da foto, uma nota que diz: “Venezuelanos enfrentam escassez de alimentos e repressão há anos”. Ou seja, o contexto criado induz a pensar que eles são vítimas de agressão do governo venezuelano, seguindo o roteiro de “Maduro ditador”. Mas tem um detalhe: os policiais que ali estão, claramente identificados pelo uniforme, são da polícia colombiana. E não estão reprimindo esses encapuzados, mas lhes dando cobertura por ordens do governo da Colômbia. Esses terroristas da foto atiravam pedras e bombas molotov contra a Polícia Nacional Bolivariana e a Guarda Nacional Bolivariana que se encontravam na outra ponta da ponte, no lado venezuelano. Quando a BBC manipula o contexto da foto é porque trocou as práticas jornalísticas pelas mercenárias?

Imagens manipuladas desse mesmo dia foram usadas como propaganda de guerra. A mídia bombardeou o mundo inteiro repetindo, ao estilo de Goebbels, a fake de que “caminhões com ajuda humanitária tinham sido queimados pelos corpos repressivos venezuelanos”. Duas semanas depois, um vídeo do New York Times provava que os caminhões tinham sido queimados pelos encapuzados da foto e não pelo governo venezuelano (https://bit.ly/2SZdmvO). Mas nessa altura, como aconteceu com o “kit gay”, o trabalho já estava feito.

Onde está a “autocrítica” de se identificar com uma matéria que privilegia uma suposta “esquerda emergente” se valendo de manipulações para estigmatizar a chamada "velha esquerda"?

A Venezuela é uma parceira de luta contra as injustiças e está assediada pelo mesmo inimigo que ataca a soberania do Brasil e do resto da América latina. Se eu me encontro assediado numa trincheira junto com outros soldados (cheios de falhas, defeitos e imperfeições humanas), o que devo fazer? Fortalecer a unidade dos que me ajudarão a preservar a vida (a minha e a deles) ou dedicar minhas energias para expor, segundo minha opinião, quais seriam suas falhas e defeitos?

Se a Venezuela está sob um perigo real, semelhante ao da Síria, qual deveria ser a atitude dos humanistas consequentes? Por que artigos como esse, e outros que parecem sob encomenda, conseguem seduzir pessoas que, sabidamente, não querem nenhum mal para o povo venezuelano?

Tudo indica que na base dessa autocrítica, que querem compartilhar, está a ilusão de que é possível uma “terceira via” que os mantenham incólumes da direita e da “velha esquerda”. Como isso não existe (pois a esquerda é imperfeita e plural), acabam pela lógica inexorável da realidade, levando água para o moinho hegemônico dos EUA. O único país do mundo que até hoje usou bombas nucleares e que, ano após ano, chacina após chacina, invasão após invasão, prova uma e outra vez que não possui nenhum constrangimento ético nem moral para assassinar homens, mulheres e crianças a fim de fazer valer seus interesses.

Para reforçar essa inversão de valores, a matéria da BBC tenta introduzir um argumento de autoridade científica: “... alguns analistas afirmam que a esquerda da região, de uma forma ou de outra, está pagando o preço pelo que vem acontecendo no país comandado pelo chavismo.”

A reflexão deveria sensibilizar e criar essa empatia vital capaz de colocar os sujeitos pensantes, de qualquer país, no lugar de uma família síria com familiares mortos pelos bombardeios e extrapolar, sem dificuldade, que esse perigo ameaça a outros povos do mundo e, neste momento particular, ao povo venezuelano. Para nós, latino-americanos que conhecemos tantas experiências trágicas da nossa história passada e recente, deveria ser mais fácil.

Por outro lado, limitar a questão “Venezuela” a um debate sobre a esquerda latino-americana é um reducionismo pré-globalização que o artigo passa também de contrabando. O mundo assiste hoje ao surgimento de uma multipolaridade de forças que estão impedindo, com fatos, as históricas pretensões dos EUA de dirigirem unipolarmente o mundo. Estas pretensões tinham ganhado um novo fôlego após o choque produzido com a queda do muro de Berlim e, por isso, os EUA agiram com impunidade produzindo as tragédias já conhecidas do Iraque e da Líbia. Agora, já não. A virada, com a presença da Rússia, começou na Síria que vinha sendo massacrada pelos terroristas que recebiam apoio dos EUA. Obama tinha dito que o Presidente sírio, Bashar al-Ásad, tinha que cair fora e, no entanto, aí está, mais firme do que nunca, apoiado pelo seu povo, com quase todo o território sírio recuperado das mãos dos terroristas. Essa vitória é de todos nós. O mundo está dizendo chega! Não mais a barbárie em nome da democracia.

Nesse contexto é que deve ser visto o que está acontecendo na Venezuela. Ela é peça estratégica dessa nova ordem pluripolar que não vai por aí invadindo territórios e que pede respeito pela autodeterminação dos povos. O Brasil dos BRICS estava inserido até o golpe contra a Presidenta Dilma nessa nova dinâmica. Foi um dos motivos para afastá-la. O Brasil é um ator global.

Recentemente, e não por acaso, a China falou contundentemente frente às ameaças dos EUA contra Venezuela, dizendo que “América Latina não pertence a nenhum país e não é o quintal de ninguém”. A Rússia, por sua vez, comparou os EUA ao império Romano e declarou frente às ameaças norte-americanas que “nem a Rússia e nem a Venezuela são províncias dos EUA”.

Estamos assistindo aos combates, tensões e decisões políticas pelos destinos da humanidade. Neste começo do século XXI, quem não inserir os debates e disputas de seu país dentro desta dinâmica global possui uma perspectiva limitada do que está acontecendo no mundo ou age de má-fé, favorecendo os inimigos dos povos. Repitamos, não há terceira via.

Enfim, espero que a Venezuela deixe de ser o bode expiatório usado como recurso de alguns analistas para se desfazerem daqueles sonhos de redenção e utopia dos tempos do movimento estudantil. Lutas que inseríamos numa outra bem mais abrangente e generosa e que tinha, por horizonte, a superação desta ordem capitalista que ameaça hoje, mais do que nunca, destruir nossa civilização e nossa espécie.

A Venezuela continuará todos os dias nas manchetes do mundo inteiro recebendo ataques de todo tipo. Nosso pacífico povo nem pediu nem escolheu que fosse assim. No entanto, não vamos fugir dessa luta, negando a história dos nossos libertadores. Duzentos anos atrás encabeçamos a luta contra o império espanhol conquistando nossa liberdade à custa de muitos sacrifícios. Parece que a história nos chamou para estarmos de novo na frente de batalha.

Venezuela é neste momento, no nosso continente, a chama mais acesa no caminho para deixarmos para atrás esse mundo de trevas e barbárie que os juvenis quixotes da Geração Henfil ousaram combater. A solidariedade internacional que cresce todos os dias vem demonstrando que os povos do mundo também sabem que na Venezuela se trava uma batalha que é de todos e de todas.

Certamente a guerreira Graúna, como idealizada por Henfil, acompanha a luta do povo venezuelano e estará sempre na linha de frente para defender a Revolução Bolivariana.

Leais sempre, traidores nunca!

Unidade, Luta, Batalha e Vitória!

(*) Venezuelano – Cientista social pela UFRGS

NOTA: Este texto foi elaborado nesta alterada vida cotidiana que estamos vivendo os venezuelanos pelos ataques que está recebendo o pais. Poucas horas antes de enviá-lo para sua publicação o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tinha falado a todo o país que entraríamos num Regime Especial de Administração de Cargas, por um mês, que permitirá equilibrar o Serviço Elétrico Nacional após os atentados terroristas que atingiram, nos últimos dias, a Hidroelétrica Simón Bolívar, a principal do pais.

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