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Quarta, 17 Abril 2019 12:09 Última modificação em Quarta, 01 Mai 2019 23:43

Assembleia dos Coletes Amarelos: “é preciso sair do capitalismo” Destaque

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País: França / Batalha de ideias / Fonte: O Diário

[Rémy Herrera] O movimento dos “Coletes Amarelos” na França prossegue a mobilização.

Mas avança igualmente em formas de organização: as assembleias e as “Assembleias das assembleias.” Na segunda, realizada no início de abril, aprovou um conjunto de posições e orientações com um claro cunho progressista. Que constituem, além do mais, um encorajador indício da sua autonomia de decisão, da sua vontade de avançar e da sua capacidade de resistir tanto à repressão como às tentativas de divisão e de manipulação a partir do seu interior.

O “Ato 21″ dos “Coletes Amarelos” ocorreu, como desde há quase cinco meses, num sábado, 6 de abril. Mas em paralelo, de 5 a 7, realizou-se em Saint-Nazaire, Loire-Atlantique, um acontecimento que irá certamente influenciar as próximas lutas no país: a segunda Assembleia das assembleias de coletes amarelos. É o ponto central do movimento. A primeira teve lugar em Meuse, Commercy no final de janeiro e tinha já reunido 70 delegações; quase 200 vieram desta vez a Saint-Nazaire, ou seja, cerca de 800 delegados presentes (dois representantes mais dois observadores por delegação). E sem contar os voluntários, jornalistas, curiosos ... Estes delegados tinham sido eleitos por cerca de 10 000 coletes amarelos, mobilizados em centenas de locais de luta: rotatórias, praças ou pedágios, mas também, quando as forças da ordem os desalojaram, em muitos lugares muito mais excêntricos e menos visíveis (até mesmo em alojamentos). Em toda a França, há resistência.

Havia, aparentemente, uma “ameaça contra ordem pública”. Foi este o pretexto invocado pelo prefeito de Saint-Nazaire (David Samzun, “socialista”, como se define ainda) para justificar a sua recusa em ceder um espaço aos organizadores. Os eleitos das comunas vizinhas fizeram o mesmo e, finalmente, nenhuma sala foi colocada à sua disposição. Então os coletes amarelos encontraram-se todos na “sua Casa”: a “Casa do povo”, antiga agência do Polo Emprego (Pôle Emploi) que ocupam juntamente com os camaradas sindicalistas desde novembro passado. A “requisição cidadã” na pura tradição histórica dos clubes de sans culottes de 1789, das bolsas de trabalho dos operários do início do século XX, das fábricas em greve da Frente Popular de 1936. Alguns trabalhos de arranjo e muita solidariedade permitiram-lhes reunir-se para se encontrarem, para se darem coragem. Para debater e lutar melhor. E se organizar.

Essa reunião tinha sido inicialmente agendada para os últimos dias de março, mas as dificuldades materiais para fazer face às despesas quando o mês chega ao fim para a maioria dos participantes – somadas às da logística – levaram a atrasá-la alguns dias; no início do mês, uma vez recebido o salário (ou mesada), aqueles que não nadam em ouro respiram um pouco melhor. Alguns queriam comparecer, mas a afluência obrigou os organizadores a fechar as inscrições. Outros, mais numerosos ainda, não puderam vir porque não podiam pagar a viagem. Contar com a generosidade de amigos, cujos meios são irrisórios. Contar com as suas próprias forças. Mas em 1864, o primeiro considerando dos estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores não dizia, “a emancipação da classe operária deve ser obra dos próprios trabalhadores”? Quando se é colete amarelo, não se tem medo de lama, da chuva nem dos bolsos vazios.

No decurso dos três dias as discussões foram sérias. Muitas vezes difíceis, tumultuadas, caóticas ...à imagem da mobilização empreendida em meados de novembro, revelaram a determinação dos coletes amarelos, a sua oposição resoluta e tenaz a esta sociedade de desigualdades e injustiças que o Presidente Macron simboliza, a sua condenação unânime da violência das repressões policiais de que são vítimas, da sua obstinada vontade de colocar no coração do movimento a democracia direta, de pensar e reinventar formas autênticas desta última, a partir da base, sem líder autoproclamado ou chefe recuperado, de encontrar o “equilíbrio entre espontaneidade e organização”. É o coletivo que vem em primeiro lugar, na “horizontalidade”. E a manutenção da unidade de um movimento que se reúne contra os riscos de divisão e fragmentação, que une um povo apesar de todas as suas diferenças (de percepções políticas, por vezes de origens sociais), que continua a beneficiar também de uma boa imagem e um forte apoio na opinião pública, que faz as lutas avançar.

Visíveis na Internet, os debates foram organizados em grupos de trabalho temáticos: os modos de ação do movimento, a comunicação interna e externa, a formulação das reivindicações, os pontos de convergência com os sindicatos e outros colectivos, o futuro da mobilização... Finalmente, a sessão plenária apresentou as sínteses das discussões das comissões (preparadas à noite ...) e um texto final. Um texto particularmente lúcido e radical. Um texto que será submetido mais tarde à votação pelas várias assembleias locais de coletes amarelos. O que diz este texto?

Coisas essenciais, na realidade. Diz que as reivindicações devem ser concentradas em aumentos salariais, das pensões de reforma e dos mínimos sociais, com uma atenção especial para os nove milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza. Diz que é necessário fortalecer os serviços públicos para todos. Eis o que é já fundamental.

Este texto diz “não” à violência imposta por uma minoria de privilegiados contra todo um povo; Diz “sim” à anulação das penas impostas a presos e condenados do movimento dos coletes amarelos. “As violências policiais são um ato de intimidação política, procuram aterrorizar-nos para nos impedir de agir. A repressão judicial vem em seguida para sufocar o movimento. (...) Aquilo que vivemos hoje é o cotidiano dos bairros populares desde há décadas “.

Diz ainda da sua rejeição da “fraude do Grande Debate nacional” desejado e manipulado pelo presidente Macron, tal como da sua recusa em participar nas eleições europeias no próximo mês: “a rua une-nos, as eleições dividem-nos”. “É na luta que a Europa dos povos será construída. (...) É através de uma luta coordenada contra os nossos exploradores comuns que lançaremos as bases de um entendimento fraternal entre os povos da Europa e de outros lugares “.

E neste 7 de abril, ao apelo da Assembleia das assembleias dos coletes amarelos de Saint-Nazaire diz também e sobretudo que “melhorar as nossas condições de vida, (...) reconstruir os nossos direitos e liberdades, (...) fazer desaparecer as formas de desigualdades, de injustiças, de discriminações “, para que finalmente a “solidariedade e a dignidade” cheguem, será necessário mudar de sistema: “conscientes de que temos de lutar contra um sistema global, consideramos que será necessário sair do capitalismo “. E para isso, “colocar o conjunto dos cidadãos em ordem de batalha contra este sistema”.

Quanto à mensagem dirigida aos ecologistas, é de uma limitação total, e tão progressista. Irão eles ouvi-la? Será necessário que o façam. Uma vez a emergência ambiental está aí, torna-se indispensável a convergência do combate pela ecologia com as lutas pelo progresso social. É «a mesma lógica da exploração infinita do capitalismo que destrói os seres humanos e a vida sobre a Terra. A fim de proteger o meio ambiente, é necessário mudar um sistema que é prejudicial aos seres humanos e ao meio ambiente». Isto, para quem tinha dúvidas sobre a orientação à esquerda do movimento.

Não foi fácil fazer emergir tais orientações e formulações. Alguns acharam-nas prematuras. Outros temem que o movimento se dogmatize, se doutrine, se endureça demais. É claro que ainda estamos muito longe de uma saída do sistema capitalista. Mas já é importante saber aquilo que precisamos combater. Porque estes coletes amarelos, reunidos na multidão e no burburinho desta Casa do povo “pela a honra dos trabalhadores e por um mundo melhor”, compreenderam claramente e expressaram muito claramente, eles pelo menos, aquilo que mais ninguém ou quase ninguém no seio das nossas altas lideranças partidárias e sindicais, entre os nossos artistas comprometidos ou nossos grandes intelectuais, compreende ou exprime. Sim, para se esperar construir um “mundo de liberdade, igualdade e fraternidade”, será necessário sair do capitalismo.

Seguramente. Sem isso, nada é possível. É por aqui que começa qualquer programa de verdadeira alternativa. Porque os coletes amarelos, levantados contra o insuportável, não se deixarão mais enganar. O século XXI não será o fim da história; será o começo de uma nova civilização. Pós-capitalista.

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