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Diário Liberdade
Sexta, 24 Fevereiro 2017 08:51 Última modificação em Domingo, 26 Fevereiro 2017 17:42

EUA vs Irã: guerra de maçãs podres vs laranjas podres

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/ Batalha de ideias / Fonte: The Vineyard of the Saker

[Anwar Khan; Tradução do Coletivo Vila Vudu] "E pergunto: a mídia alternativa tem necessariamente de alinhar-se com o Irã e o Hizbollah na luta para se opor aos desígnios do Império? A mídia alternativa ocidental não pode se manter, como se espera que seja, neutra?"

Estava lendo recente artigo de nosso muito estimado Saker, "EUA vs Irã – guerra de maçãs vs laranjas", que examina resultados potenciais e cenários que poderiam ser criados por uma guerra entre Irã e EUA. Mais uma vez, fui iluminado pela brilhante análise militar – análise de alta qualidade que só o Saker oferece hoje. Só alguém ainda mais entendido que ele em questões militares poderia discordar do que ali se lê. Mas isso só até o Saker acrescentar opinião sua numa questão religiosa. De repente, todo o artigo pareceu-me um pouco mais enviesado, um pouco mais opinioso do que se deve esperar, quando o Irã e os xiitas apareceram inflados [ing. the lionization of Iran and Shias], como se vê com muita frequência em estudos e comentários políticos russocêntricos. Disse o Saker:

"A maior parte dos iranianos são xiitas, o que todo mundo sabe. O que nem tantos conhecem é o motto inspiracional dos xiitas, o qual, creio eu, expressa belamente um dos traços chaves do ethos xiita: "Todos os dias são Ashura e todas as terras são Karbala". (...) Basicamente, a frase manifesta a disposição para morrer pela verdade a qualquer momento e em qualquer lugar. Milhões de iranianos, mesmo os que não são necessariamente muito religiosos, foram educados sob essa determinação de lutar sempre e resistir sempre, custe o que custar."[1]

Antes de avançar, permitam-me deixar aqui bem claro, em termos que não deixem qualquer dúvida, que viés não é crime. Todos temos vieses em algum ponto de nossas percepções. O viés de modo algum pode ser evitado sempre, em todas as frentes e em todos os casos; sequer pode ser evitado na maior parte das vezes. Uma visão de mundo russocêntrica dos tempos que vivemos naturalmente impede visão muito objetiva do Irã, uma vez que o país é visto como importante aliado nos esforços russos para desafiar o paradigma anglo-sionista unipolar. 

Paralelos civilizacionais entre Rússia e Irã também são frequentemente invocados, embora pareçam merecer atenção apenas secundária. É compreensível. Mas o que esse modo russocêntrico de abordar o Irã tem feito é (a) promover o Irã como entidade política passiva, tentando viver pacificamente numa vizinhança muito difícil, e passando sem ver por muitos excessos relacionados ao Irã no front sectário e político; e (b) convenientemente encobrir vozes dentro da comunidade xiita, que oferecem visão muito mais nuançada do algoritmo de ser, do que somos levados a crer. Não me parece que esse tipo de análise nos possa oferecer quadro completo da realidade, ainda que quem a subscreva a considere suficientemente útil como paradigma. 

Essa posição de defender o Irã, sem levar em consideração os muitos problemas associados à política iraniana, também tem tornado a análise russocêntrica um pouco previsível demais, e sem profundidade.

Não estou sugerindo que o Saker promova conscientemente (a) e (b). De fato, incontáveis vezes leu-se na introdução de seus escritos que o autor não pressupõe que o estado iraniano seja perfeito. Mas ainda assim, a visada suavizada, apenas muito levemente encoberta sempre que o assunto é o Irã, transparece naquela análise, e obriga a levantar algumas questões sobre a objetividade da análise. 

O pessoal do blog Soul of the East [Alma do Oriente] vive à procura de um laço metafísico que conecte o ethos xiita ao ethos cristão ortodoxo, cuja corporificação estaria, segundo eles, no sacrifício de Jesus Cristo e no martírio do Imã Hussein em Karbala.[2] Esse último item está fora do objetivo desse escrito, mas podemos examinar rapidamente os pontos (a) e (b), para ver o que teriam a ver com a frase tão repetida quanto mal compreendida, "Todo dia é Ashura e toda terra é Karbala", ou com "a disposição para morrer pela verdade a qualquer momento e em qualquer lugar".

O ponto (a) – passar sem ver por muitos excessos relacionados ao Irã no front sectário e político – não é muito difícil de demonstrar. Basta examinar o Iraque pós-2003 ocupado pelos EUA e o papel do Irã para converter o país – para todas as finalidades – em província iraniana; e parcialmente, se não plenamente, responsável por desencadear contra a população uma viciosa política sectária, convertendo-a em pesadelo, no qual qualquer ideia de convivência pacífica entre sunitas e xiitas vai-se tornado absoluta impossibilidade. 

Cada um escolha a teoria que prefira. Ou o Irã desencadeou propositalmente toda essa violência, empregando grupos sectários, ou fez que não via o que estava acontecendo, mesmo sabendo bem que teria como impedir que acontecesse. Temo que não haja terceira via. Posso escrever um livro sobre essa questão, mas não acho que seja necessário, porque os que quiserem refinar a própria compreensão podem fazê-lo mesmo sem volumes monumentais de dados; e os que padecem da Síndrome da Certeza Inabalável não serão convencidos nem que os oceanos sequem de tanto mostrar o óbvio.[3]

Vivi sete anos na Jordânia, e conheci muitos refugiados iraquianos que se tornaram meus bons amigos, e a história deles, de sofrimentos, tortura e assassinato de entes queridos nas mãos de milícias xiitas, como a Brigada Badr, Jaysh al Mahdi, Kataib Hizbollah e Asaib Ahl al Haq, teve sobre mim impacto pessoal direto. O que sei não aprendi de documentários no cinema. Tive diante de mim uma janela para um mundo do qual poucos analistas não muçulmanos (e também muçulmanos, tanto faz) sabem sequer alguma pequena parte. Essas histórias dolorosas foram suplementadas por pesquisa que eu mesmo desenvolvi sobre a política sunita-xiita no Iraque, e a conclusão absolutamente indesmentível de que essa trágica política sectária nunca poderia ter sido conduzida sem que o Irã soubesse, no cenário mínimo; ou sem a direta cumplicidade do Irã, no pior.

O foco da mídia alternativa sempre modelado pelo que determinem os anglo-sionistas – por exemplo, que toda a violência é inventada e praticada pelos wahhabistas a serviço do Império – de modo geral os faz cegos para os excessos de grupos xiitas e do Irã, sempre apresentados como parte do bloco "da resistência". 

Tomemos o exemplo das recentemente formadas e altamente romantizadas Unidades de Mobilização Popular iraquianas (al Hashd al Shaʿbi), infladas até a perfeição na mídia alternativa, especialmente pelos analistas russocêntricos (dentre os quais South Front), por seus esforços para recuperar territórios perdidos para o ISIS

Mas a mídia alternativa raramente menciona os horrores – que teriam deixado orgulhoso o Ustace croata [grupo fascista croata, ultranacionalista e terrorista, ativo de 1929 a 1945 (NTs)] – que infligiram à população sunita em geral. (...) 

Muitos desses crimes foram praticados deliberadamente diante de câmeras de vídeo. Foram cometidos para serem filmados. São sempre acompanhados de gritos e slogans que invocam o sacrifício do Imã Hussein em Karbala. Não canso de me surpreender com a quantidade de terror sectário praticado pelas milícias xiitas que jamais chega às páginas da mídia alternativa, enquanto o terror sectário dos wahhabistas jamais sai daquelas mesmas páginas. Será que o desejo de mostrar o Irã e grupos xiitas como bloco "da Resistência" tornou cegos até os melhores analistas, que não veem esses crimes óbvios? E quando acontece de os crimes dos xiitas serem mencionados, sempre de passagem, a linguagem é suavizada.

Não se pode simplesmente negar o que está acontecendo. Pode-se racionalizar, seja de um modo, seja de outro, em termos de, como ouço com frequência, "sim, é horrível, mas estão reagindo ao que sofreram nas mãos de ISIS & Co.", ou "os sunitas procuraram por isso, ao se aliarem ao ISIS", etc. etc. Mesmo que se deixe sem comentar a falta de rigor nessas comentários, e a óbvia falta de humanidade, e mesmo que tudo isso fosse verdade... Será que não temos nada melhor que isso, a dizer? 

O Imã Hussein admitiria que tais horrores fossem perpetrados em nome dele, quando deu a vida para elevar a condição humana acima dessa mesma depravação? O significado do sacrifício do Imã Hussein em Karbala terá dado à luz mais barbárie, como resposta à barbárie? Trata-se disso em "Todo dia é Ashura e toda terra é Karbala? Não. Aí se trata de assumir que todas as vítimas seriam ligadas ao ISIS – quando a maioria delas nunca passaram de vítimas inocentes do ódio sectário. 

Para os que pensem em argumentar que esses excessos são ações de grupos sectários iraquianos – operando independentes do estado iraniano – é posição que mostra compreensão errada do nexo Iraque-Irã depois de 2003. 

O Irã governa o Iraque. Simples assim. Não se trata de manchete da revista Foreign Affairs ou The Atlantic. Nem é ira de sunita obsessivo. É a conclusão a que chega qualquer observador objetivo, que tenha pesquisado diligentemente a geopolítica daquela região. Ainda se pode dizer que muitas das operações em campo daquelas milícias sectárias são conduzidas sem o conhecimento das autoridades iranianas; mas pretender que o Irã nada teria a ver com a política generalizada de 'limpeza sectarista' é ignorar os fatos.

Se isso não basta para esvaziar o mito da "disposição para morrer pela verdade a qualquer momento e em qualquer lugar", pensem em outros traições cometidas pelos que erguem o estandarte do martírio do Imã Hussein, por exemplo a cooperação com os EUA para derrubar o governo dos Talibã, baseada em pretexto totalmente inventado – e do qual, e de que era falso, a inteligência iraniana tinha pleno conhecimento. Não desperdiçarei lágrimas com os Talibãs, entidade que detestei empenhadamente. Mas nenhuma guerra conduzida sobre um mentira será jamais justificada, nem se o inimigo forem os Talibã. 

Há uma entrevista na BBC, na qual Khatami, então presidente do Irã, pavoneia-se por ter cooperado com os norte-americanos e comenta o quanto o fim do governo dos Talibã foi útil para o Irã. Não há dúvidas de que a cooperação do Irã – liberar o espaço aéreo iraniano para os norte-americanos – foi ato brilhante de expediente político... Mas, por favor, não misturemos o expediente político e "Todo dia é Ashura e toda terra é Karbala"Foi maquinação e maquiavelismo da mais alta ordem. E só.

E quanto à performance iraniana no Iraque, com a invasão pelos EUA em 2003? Será necessário que alguém nos relembre a completa submissão das instituições xiitas e depois a cooperação, com os ocupantes? O Irã instruiu todos os líderes religiosos xiitas, o mais influente dos quais era o Grande Aiatolá Ali al Sistani, a emitir fatwassegundo as quais ficava proibido resistir contra a invasão norte-americana. Foi movimento político calculado para garantir que o Partido Baath e instituições sunitas recebessem decidido empurrão, pelos norte-americanos, criando o espaço necessário para que grupos xiitas tomassem o poder. Outra vez, brilhante jogada política – e nada a ver com "Todo dia é Ashura e toda terra é Karbala"

Esse último ponto tem, sim, levantado muitas perguntas, que não considerarei aqui. Leitores astutos podem refletir sobre algumas delas:

– Como compreender a completa tomada do Iraque pelo Irã, depois da ocupação pelos EUA de 2003? É possível que os iranianos se pusessem a flexionar os músculos bem diante do nariz de todo o imenso poder militar do Império, de um modo jamais visto no mundo? Seria o Império ingênuo e incompetente a ponto de ver o Irã escapar carregando o butim, para em seguida reaparecer como ameaça militar e bloco da "resistência" ainda mais poderosos? Relatos de um telefonema que certo general Qasim Sulaimani teria feito para o general Petraeus, alertando e ameaçando que Sulaimani "governa o Iraque" têm qualquer credibilidade? Ou o que há é cooperação entre o Irã e o Império, num grau que os meros mortais como nós nunca tomamos conhecimento? Será que o Império realmente quer livrar-se do Irã teocrático, ou o Irã é ferramenta indispensável para promover o avanço da sangria xiita-sunita, que é um dos pilares sobre os quais se apoia o Império?

Quanto ao ponto (b) – vozes na comunidade xiita que discrepam da narrativa dominante – permitam que lhes apresente o Xeique Subhi Tufayli, primeiro secretário-geral do Hizbollah. Adiante, há a transcrição de uma breve entrevista e breve amostra de palestra de Tufayli. O Xeique Tufayli é um tipo de personagem que muitos comentaristas políticos no ocidente nem sabem que existe. 

É xiita, mas o modo como o Xeique Tufayli aborda os desenvolvimentos geopolíticos no Oriente Médio afasta-se da homogeneidade que marca toda a narrativa política xiita oficial – e faz prova de que as vozes dentro da comunidade xiita não são só uma voz e sempre a mesma; é um tipo de pensamento que muitos analistas não muçulmanos e não árabes ignoram absolutamente. Claro que Tufayli não tem total razão em absolutamente tudo que diz, mas certamente ajudou a dissipar vários dos mitos que muitos de nós cultivávamos sobre o Irã, a Síria e o Hizbollah. 

Tufayli foi chamado de várias coisas, acusado de vários erros, pelo modo controverso como aborda as questões; foi acusado de ser "agente da Arábia Saudita", "ferramenta dos sionistas" e muito mais. Sempre muito conveniente declarar que alguém seria "agente de X", porque não repete linha a linha uma determinada visão estereotipada do mundo. Esse "agente" vive no vale do Beqa, dominado pelo Hizbollah, onde pode ser facilmente encontrado e executado, pelas duras críticas que faz ao Hizbollah (provavelmente o Hizbollah o respeita, ou não o vê como perigo, dado que "poderia encontrá-lo" e "poderia matá-lo, como o autor sugere aí, mas nem o encontrou nem o matou até agora... [NTs]).

E o que sabem os analistas russocêntricos sobre as transferências de populações por linhas sectárias, que o Xeique Tufayli afirma que estariam acontecendo na Síria, com participação do Hizbollah? Serão o Hizbollah e o Irã realmente parte do Bloco da Resistência ao Império, conclusão que sempre se repete na mídia alternativa, especialmente na mídia russocêntrica? 

E por fim, a mídia alternativa tem necessariamente de alinhar-se com o Irã e o Hizbollah na luta para se opor aos desígnios do Império? A mídia alternativa não pode se manter, como se espera que seja, neutra? 

Não tenho as respostas para todas essas questões, mas estou em permanente luta para refinar cada vez mais a minha compreensão, ainda que uma compreensão refinada me cause dificuldades. Não cultivo várias das ideias enrijecidas de muitos dos meus amigos na mídia alternativa. Em muitos casos, a compreensão deles é limitadíssima, por desconhecerem os idiomas locais, as religiões, culturas e a muito complexa geopolítica dessa região. (...) 

(1) Segue a transcrição de um excerto da entrevista com Xeique Tufayli, aqui acrescentada como uma amostra do seu pensamento. Tudo sugere que tenha sido gravada em 2014-15 (e vídeo).

Moderador: Sua Eminência, hoje não passa um dia sem que se ouça sobre baixas do Hizbollah na Síria. Números recentes falam de mais de mil mortos, desde o início da participação na guerra síria. Em sua opinião, o Hizbollah está atolado no teatro sírio?

Xeique Tufayli: Em nome de Deus, o Misericordioso, o Mais Compassivo, não só o Hizbollah, mas todos nós estamos atolados no teatro sírio. Teatro de lutas que só interessam aos sionistas e aos norte-americanos. O Hizbollah e o Irã e outros países da região, estão todos atolados no teatro sírio, naquele terrível infortúnio.

Mas o que me causa mais profunda dor é ver que uma organização popular, como o Hizbollah, força que foi criada para ser front de unificação de toda a nação islâmica e liderar a luta contra o inimigo sionista; organização que se esperava que levantasse todos os estandartes e armas e meios para chegarmos logo ao objetivo mais importante – a libertação da Palestina... Mas infortúnio ainda maior, que o estado e os políticos do Irã desviassem todos os esforços e meios, e todo o trabalho do Hizbollah, a juventude, seus mártires, seu legado... E o Irã também desviou tudo isso na direção de uma luta que só interessa aos israelenses e aos norte-americanos. E que ajuda todos os projetos ocidentais em nossa região.

Não apenas o Hizbollah está atolado no teatro sírio, mas também está sendo rapidamente esvaziado de todo o próprio sangue. Assim desperdiça esforços e os rumos gerais da nação islâmica.

Assim sendo, convido todos os partidos e grupos, especialmente o Hizbollah a voltar ao caminho que mais agrada a Deus, e a pôr fim aos crimes que está cometendo contra o povo sírio. Porque a desintegração da Síria é a desintegração da nação islâmica. Hoje é a Síria, amanhã outro lugar. Não vai parar. Sim, há muitos grupos envolvidos, mas o Hizbollah também está lá.

Moderador: O senhor disse que o que está acontecendo no teatro sírio beneficia Israel. O senhor entende que as ações do Hizbollah estão a serviço de Israel?

Xeique Tufayli: Bem... As ações deles, se se avaliam bem, só beneficiam a Entidade Sionista, e todos que estão por trás dos sionistas, nos nefandos projetos deles contra nações muçulmanas. É a única conclusão possível. 

Porque o que está acontecendo na Síria é parte de um todo, está acontecendo também no Iraque e em outras terras muçulmana, terras árabes, todas essas são partes de um todo que é a destruição da nação árabe, da marginalização dos árabes, de modo que mais ninguém reste nessa região, além de Israel. E acredito que quem quer que entre no teatro sírio sabe disso perfeitamente. E aqui quero dirigir-me à liderança iraniana em Teerã. Sinto-me confuso quando os ouço falar de "unidade islâmica" e "resistência dos muçulmanos contra Israel", e outros projetos ocidentais, etc. etc.; mas... as ações [do Irã] acompanham seus slogans? Seu que vocês sabem bem que o que estão fazendo nada obtém além de ajudar o inimigo israelense, seja intencionalmente ou não, mas estão, sim, ajudando Israel. Estão ajudando Netanyahu e seus apoiadores.

Moderador: Mas o secretário-geral do Hizbollah, Hasan Nasrallah diz que a estrada até Jerusalém passa por Zabadani, Homs e Aleppo. Exatamente o contrário do que o senhor diz... 

Xeique Tufayli: Se caminharem sobre cadáveres de muçulmanos, nossas crianças, nossas casas. Sim [a estrada até Jerusalém, etc.] passa só todas as cidades muçulmanas, menos pela Palestina! São projetos que levam direto ao Inferno. Quando ouço esse tipo de slogans... Como alguém compreende esses slogans, depois de a Síria ter sido completamente destruída... Como é possível que a estrada para Jerusalém passe pela Síria?

Moderador: Dizem que combatem o terrorismo.

Xeique Tufayli: E o que restou da Síria? Há algum terrorista em Zabadani? Eles mesmos [governo sírio e Hizbollah] confessam, eles mesmos dizem que em Zabadani só há os próprios moradores de lá, que não há estrangeiros. Nada resta da Síria. Acabou. Mesmo no melhor cenário segundo eles [governo sírio e Hizbollah], querem a Síria dividida em pedaços. Querem fazer da Síria um estado pequeno em torno das Montanhas Alawitas, acompanhando linhas sectárias. Querem isso. Está tudo acabado. Nada resta da Síria. Ainda que pudéssemos garantir que o governo sírio saia vitorioso na Guerra Civil, que importância tem para nós o governo sírio? Nunca desde tempos imemoriais fizeram qualquer coisa em prol das causas populares, seja a Causa Palestina, ou qualquer outra causa popular.

O envolvimento deles [do Hizbollah] nessa guerra não tem qualquer fundamento. Queria sabe qual o sentido de transferir nativos de Zabadani [sunitas] para longe das áreas deles, e gente de outras vilas, e pôr ali outras pessoas e fazer limpeza territorial sectária? Só fazem reforçar uma divisão sectária que está em curso? Que necessidade há disso? Que sabedoria há nisso? 

Desde o início do conflito sírio venho dizendo que o plano é fazer uma aliança de minorias, sejam alawitas, xiitas ou cristãos, seguindo um plano israelense e sob gestão de Israel. E essa compartimentalização da região é muito conveniente para Israel, porque enfraquece a resistência, e já nem se cogita de desafiar diretamente Israel.

A consequência do envolvimento [do Hizbollah] na Síria sempre foi óbvia desde o início. Só poderia levar a um resultado, um só: torná-lo agente a serviço de Israel e tornar o movimento cúmplice de Israel. Hoje, pelo modo de pensar xiita, o inimigo israelense é muito preferível ao outro lado. É a lógica que se ouve nas ruas, por toda parte. Que o inimigo do xiita é o sunita e o inimigo do sunita é o xiita, que o judeu não é o inimigo. Essa é a realidade hoje. Vê-se isso por toda parte agora. No melhor cenário, teremos pequenas entidades sem poder algum, recortadas sectárias, todas orbitando como planetas em torno de Israel, a serviço de Israel e só de Israel. Oh povo, temam a ira de Deus! Voltem à sua fé! Não esqueçam que um dia todos serão chamados a prestar contas pelo pecado de se ter posto ao lado dos judeus, contra o próprio povo de vocês [fim do primeiro excerto].

(2) E uma transcrição de outra fala, de 2016

Xeique Tufayli: Todos sabem que a gente mais corrupta que há na face da terra é a atual liderança iraquiana. O sistema mais corrupto, mais baixo, mas desprezível, é o governo iraquiano. Não falo do povo iraquiano. Não. Falo do governo do Iraque. Os norte-americanos só admitem que permaneça no poder, aqui nas nossas terras, se o governo for formado de ladrões, a escória, os mais baixos dos baixos.

E hoje o governo no Iraque é governo xiita. Que ninguém se engane sobre isso. As pessoas têm o direito de dizer "esse é o governo de vocês, é governo dos xiitas, é governo xiita". O Iraque é um dos países mais ricos do mundo [em termos de petróleo], e mesmo assim o povo iraquiano sofre muito, vive miseravelmente. A corrupção no Iraque, pode dizer, é até mais perigosa, mais de arrepiar de medo, que a guerra sectária dentro do país. Mais perigosa que o terrorismo e que todas as formas de desafios. A corrupção é a força destrutiva real ativa na sociedade. Se não houvesse corrupção e criminosos nos postos de governo, muitas outras questões, inclusive os problemas sectários já teriam sido resolvidos.

É importante não esquecer que quem governo o Iraque é o establishment religioso xiita. Aqueles turbantes. Que ninguém se engane quanto a isso. O que não falta em todos os departamentos é piedade religiosa. São os mesmos que tanto falam da opressão que foi imposta contra Ahl ul Bayt (Família do Profeta Maomé), e que o Imã Hussein (Neto do Profeta Maomé) levantou-se contra os opressores e criminosos de seu tempo, e que o Imã Ali fez tais e tais e tais coisas, etc. etc. 

Oh, por favor, me poupem! Estou absolutamente convencido de que não há na história, nem na época umaiada nem na época abássida ou otomana, ninguém jamais encontrará exemplo de gente mais desprezível do que os que hoje governam o Iraque. E se nosso mestre Hussein sacrificou a vida para defender a correção e a verdade, contra opressores como Yazid, acreditem no que lhes digo: o governo do Iraque hoje é muito pior que Yazid, em todos os departamentos. Disso, não há dúvidas.

[Os iraquianos] são o núcleo da corrupção, muito mais até que os corruptos norte-americanos. É exatamente o que os norte-americanos querem ver aqui.

A amarga verdade é que nós, jogando a carta xiita versus sunita, fechamos nossos olhos a todos os tipos de atos desprezíveis, a todas as enormidades. Cometemos todos os tipos de crimes, destruímos nossas sociedades e nos deixamos governar por todos os tipos de cães, simplesmente porque "nós somos xiitas" e o inimigo é o sunita.

É olhar e ver: os norte-americanos não querem nosso governo comandado por gente digna e honesta. Na Síria nunca admitirão governo digno e respeitável. Sempre terá de ser aprovado pelos EUA. Essa é a verdade. E o mesmo, na Líbia. E o mesmo, no Egito.

Vejam, quando Morsi chegou à presidência, ele tinha um plano. Morsi pensou "querem saber? O Egito como governo influente, junto com Arábia Saudita, Irã e Turquia, devem sentar-se e resolver o problema sírio". Turquia foi até mais longe e ofereceu alguns pacotes econômicos e partilhou engajamentos de mercado. Algo desse tipo. Pesquisem e verifiquem, porque Morsi não estava errado nisso. Ouçam o que lhes digo, se Turquia, Egito, Irã, Arábia Saudita e Paquistão formassem algum tipo de aliança, alguma coisa semelhante à OTAN...

Esses cinco países têm população de mais de 500 milhões de pessoas. Têm reservas significativas de petróleo que são como o princípio vital da economia global. Têm capacidades nucleares. Têm capacidades de todos os tipos. Mas não! É indispensável curvar-se e seguir ou russos ou norte-americanos, sempre servindo às grandes potências… Em seguida, livraram-se do homem [Morsi], e puseram lá um agente 100% israelense [Sisi]. Acontece sempre assim. Sempre. Entenderam?

Vocês sabem que fui contra Morsi. Mas não significa que se devesse derrubar tudo, prender Morsi, torturá-lo. Ou nos livramos de Erdogan ou de qualquer outro, e fazemos da região uma só fossa gigante, como já foi feito no Iraque, na Líbia ou na Síria. Oh irmãos! Falo a todos que me escutam. Os muçulmanos somos atacados pelo ocidente, sem que o ocidente tenha qualquer justa causa que o ampare. Dizem que combatem "o terrorismo", mas, por Deus, estão mentindo! Eles criaram todo esse terrorismo, como um meio para nos paralisar e nos destruir (fim do segundo excerto transcrito). 


[1] "Todos os dias são Ashura e todas as terras são Karbala", é lição atribuída ao Imã Jaʿfar al Sadiq, bisneto do Imã Hussein.

[3] Para ler mais sobre isso, recomendo os escritos de Patrick Cockburn.

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