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Diário Liberdade
Terça, 28 Junho 2016 05:45 Última modificação em Sexta, 01 Julho 2016 18:22

Estado Espanhol: fim do bipartidarismo, muito mais crise

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País: Estado espanhol / Institucional, Batalha de ideias / Fonte: Gazeta Operária

[Alejandro Acosta] No dia 26 de junho, aconteceram novas eleições gerais no Estado Espanhol após seis meses de paralisia institucional. Após as eleições gerais realizadas em dezembro do ano passado, nenhum dos principais partidos burgueses conseguiu a maioria parlamentar necessária para formar governo.

O abstencionismo representou 30% dos votos.

O direitista PP (Partido Popular), atingido em cheio por denúncias de corrupção, apareceu como o vencedor com 137 vagas, de um total de 350, 14 a mais que nas eleições passadas. Longe dos 10,86 milhões dos votos de 2011, mas favorecido pela restruturação do sistema eleitoral, por territórios.

O outro braço do bipartidarismo espanhol, o Psoe (Partido Socialdemocrata Espanhol) obteve 90 vagas, cinco a menos que nas eleições passadas; os piores resultados da sua história. A direita reciclada, Cidadãos, perdeu oito vagas, de 40 para 32.

A “socialdemocracia reciclada”, Podemos, aliado de Esquerda Unida, obteve 71 vagas, contra as 69 de dezembro, após ter propagandeado que iria deixar o Psoe muito para trás e ter enfrentado resistência interna sobre essa aliança. O cálculo era que, somando os votos obtidos em dezembro por ambos partidos (seis milhões), ficaria por cima do Psoe. Mas acabou ficando quase 400 mil votos abaixo.

O drama do governo espanhol ficará mais claro a partir do dia 19 de julho quando serão constituídas as Cortes para a XII Legislatura.

O bipartidarismo é o regime ideal para o grande capital que depende do controle do estado para garantir os lucros.

GOVERNO FRACO PARA APERTAR O “AJUSTE”

A imprensa burguesa tenta apresentar uma direita fortalecida. Esses resultados foram impostos, em grande medida, por meio de uma campanha feroz, por meio do medo da saída da União Europeia, após a vitória do Brexit, o medo de perder o mercado europeu, de perder a livre circulação na Europa e de que a extrema direita voltasse a levantar a cabeça. Na realidade, o regime burguês de conjunto foi atingido em cheio pela crise. Para governar, se precisa 176 vagas, o que requer alianças complexas em meio ao aprofundamento da crise capitalista. Em aliança com a direita reciclada de Cidadãos, conseguiria somar 169 vagas.

No centro da política para o próximo período, estarão os “planos de austeridade”, os cortes de despesas no setor público, os despejos, o aumento dos impostos. O aprofundamento da crise capitalista está colocado, assim como o repúdio da esmagadora maioria da população a essas políticas que levaram ao completo sucateamento das condições de vida: 22% de desemprego (oficial), queda dos salários e aposentadorias, pioria dos serviços públicos, imigração em massa. E tudo para continuar garantindo os lucros de um punhado de parasitas. As massas farão a própria experiência no próprio período, mas deve esperar-se crises em larga escala, principalmente conforme a crise continuar escalando nos países centrais.

A implosão do bipartidarismo revelou claramente os problemas que lhe são inerentes, como a corrupção generalizada, a incapacidade de resolver os gravíssimos problemas que atingem o país e o crescente esgotamento dos colchões de controle social, entre outros.

O bipartidarismo espanhol atual foi criado no final da ditadura de Francisco Franco, na primeira metade da década de 1970. A fragmentação parlamentar reflete o fracasso das políticas de austeridade. A evolução da situação política revela que a crise tem como tendência se acentuar.

A CRISE DO REGIME POLÍTICO

A crise do regime político reflete o aprofundamento da crise capitalista. O país se encontra em recessão há sete anos.

Nas últimas eleições autonômicas, que aconteceram em 13 das 17 autonomias, no ano passado, o PP ganhou na maioria dos lugares, mas não conseguiu maioria em nenhum dos parlamentos regionais e na maioria das assembleias municipais.

Um governo da esquerda do regime ficou muito complicado, pois geraria um governo muito fraco que, além do Psoe e de Podemos, requereria a participação dos partidos menores.

Mariano Rajoy, o atual primeiro ministro, do PP, tem como aliado prioritário o Psoe. O problema é que uma “Grande Coalisão”, seguindo o modelo alemão, tem sido a realidade do sistema, de maneira recorrente e de maneira formal ou informal. Com a crise o desgaste escalou. Rajoy é identificado com os planos de austeridade, ainda mais que o próprio PP. O desemprego tem sido mantido em torno aos 22%, nos últimos anos, mas os novos empregos são cada vez de pior qualidade. A qualidade da vida está piorando enquanto avançam as políticas de “austeridade”.

O Psoe entrou em crise, ameaçado de se tornar o Pasok grego, uma espécie de cadáver político. Uma aliança com o PP poderá deixar claro a direitização do Partido e implodi-lo. No dia 9 de julho, acontecerá a reunião do Comitê federal do Psoe para tomar posição oficial. O mais provável é que o Partido se mantenha na oposição, o que inviabilizará, mais uma vez, a formação da maioria necessária para governar. O principais dirigentes têm declarado que não irão formar governo e que ficarão na oposição, mas que não irão “obstaculizar” que Rajoy governe.

O PP, que agrupa a todas as alas da direita, até a extrema direita franquista, enfrenta o crescente repúdio das massas perante os planos de ajuste/ austeridade. E o pior ainda está por vir. O que está colocado, da mesma maneira que acontece em escala mundial, é quem e como conseguirá aplicar ataques ainda maiores contra as massas por causa da incapacidade para colocar em pé uma política alternativa ao “neoliberalismo” perante o acelerado aprofundamento da crise.

SE ACENTUARÁ O NACIONALISMO SEPARATISTA

O principal instrumento do imperialismo espanhol para conter o independentismo, em termos eleitorais, no País Basco e na Catalunha, é o Podemos, onde se tornou a primeira força eleitoral. O mesmo papel cumpriu em relação a canalizar os gigantescos protestos que aconteceram há três anos para a via eleitoral.

Na Catalunha, Podemos superou a ERC. A CUP não participou nas eleições.

No País Basco, EH Bildu perdeu 20% dos votos, em relação a dezembro, e ficou em quarto lugar junto com o PP. Na Galiza, o PP se fortaleceu e a esquerda reformista se enfraqueceu.

A burguesia local persegue melhores condições de negociação com o imperialismo espanhol e europeu, pois percebe que lhe será impossível conter as massas por causa do aprofundamento da crise capitalista e dos apertos promovidos pelos planos de austeridade.

As sucessivas derrotas da direita europeia e mundial representam a crise das possibilidades eleitorais, a rejeição no plano eleitoral devido ao movimento geral de desagregação e desintegração da Europa imperialista, como um dos aspectos chave da crise geral. Fatos similares somente aconteceram pela última vez no século XIX, após as revoluções de 1848, quando começaram a ase desenvolver os movimentos nacionais, o que dá uma ideia do tamanho da crise.

A partir de uma análise impressionista, uma parte significativa da esquerda conclui que a democracia é forte e que esquerda está se fortalecendo enquanto a direita está em franco declínio. Essa visão coloca somente uma parte do problema.

As tentativas de atacar as massas em larga escala, pela direita tradicional, estão enfrentando crescente oposição e enormes dificuldades para avançar, no Estado Espanhol e em escala mundial. Mas a burguesia não tem nenhuma outra política a não ser atacar as massas.

A diferença entre um governo da ala esquerda da burguesia imperialista, como o governo francês, por exemplo, e um governo de direita, como o espanhol, é que o primeiro ataca as massas de maneira confusa, enquanto a direita promove os ataques de maneira organizada, mas tanto um quanto o outro refletem a crise do regime político. Essa crise representa o fim de uma era, a derrota do neoliberalismo, a desmoralização da direita no terreno eleitoral, que também acontece com a esquerda.

O esgotamento do neoliberalismo de maneira definitiva após o colapso capitalista de 2008, mostra, em termos políticos, a inexistência de outra política, alternativa ao “neoliberalismo”, além de “mais do mesmo”, e a inviabilidade de impô-la por meios parlamentares.

A DIREITA RUMO À EXTREMA DIREITA

O processo independentista na Catalunha tem aberto uma crise enorme no decrépito imperialismo espanhol e também no imperialismo europeu. Criou um precedente crítico na Espanha e na Europa, que recentemente se manifestou na vitória do “Brexit” na Grão Bretanha, onde a opressão das minorias e o movimento independentista têm escalado por causa do aprofundamento da crise capitalista. As burguesias nacionais estão perdendo dinheiro e, por isso, impulsionam o separatismo. O imperialismo tenta conter os movimentos separatistas, mas, com pouca “bala na agulha”, a contenção fica muito mais difícil.

No centro da política dos governos autonômicos, para o próximo período, foram colocados os planos de austeridade, os cortes de despesas no setor público, os despejos, o aumento dos impostos. O aprofundamento da crise capitalista está colocado, assim como o repúdio da esmagadora maioria da população a essas políticas que levaram ao completo sucateamento das condições de vida.

A certa “estabilização” obtida por meio dos gigantescos repasses do BCE (Banco Central Europeu) aos bancos espanhóis e europeus está com os dias contados. Ela já fracassou nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, e no Japão, onde a economia segue no chão. Os crescentes déficit e o governo fraco são os ingredientes para a União Europeia aumentar os apertos contra o Estado espanhol, o que somente pode conduzir a novas e mais profundas crises. Os novos trilhões de euros são direcionados para a especulação financeira por meio das conhecidas medidas ultra podres de QE (quantitative easing ou alívio quantitativo).

A burguesia local persegue melhores condições de negociação com o imperialismo espanhol e europeu, pois percebe que lhe será impossível conter as massas por causa do aprofundamento da crise capitalista e dos apertos promovidos pelos planos de austeridade.

As sucessivas derrotas da direita europeia e mundial representam a crise das possibilidades eleitorais, a rejeição no plano eleitoral devido ao movimento geral de desagregação e desintegração da Europa imperialista, como um dos aspectos chave da crise geral. Fatos similares somente aconteceram pela última vez no século XIX, após as revoluções de 1848, quando começaram a ase desenvolver os movimentos nacionais, o que dá uma ideia do tamanho da crise.

A direita, perante a rejeição eleitoral, está se deslocando para o plano extra-eleitoral, onde ela têm promovido uma série de medidas na direção do fascismo. Os grupos de extrema direita têm crescido não somente na Europa, mas também no mundo todo. Onde a crise tem se aprofundado, a movimentação toma matizes muito evidentes, como pode ser visto com muita clareza na Inglaterra, na Grécia, na França, na Polônia, na Áustria e até na Alemanha.

A tendência política pode ser avaliada inclusive pela Revolução Espanhola. A direita tentou conter a crise com a ditadura de Primo de Rivera. Quando não o conseguiu mais, o golpe militar apareceu como a única alternativa e acabou se concretizando numa das mais sanguinárias ditaduras que o mundo já conheceu, o Franquismo.

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