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Diário Liberdade
Segunda, 03 Dezembro 2018 14:14 Última modificação em Segunda, 03 Dezembro 2018 14:39

Zé Dirceu: memórias da amargura

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Mário Maestri

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Não é pouco. José Dirceu, primeiro homem do PT após Lula da Silva e, a seguir, a besta-fera do “Mensalão”, propor despir-se diante de todos, ao escrever sua biografia, do nascimento até 2005, quando foi atirado pelos companheiros petistas aos leões famintos da Justiça torta e da direita ensandecida.


Valoriza o texto ser escrito pelo autor nos “sóbrios e tristes” sábados e domingos na prisão, “sentado na cama”, pois sem direito a “mesa e cadeiras nas celas”. A narrativa, sempre interessante, merecia ter tido uma atenção maior antes de ser publicada. Apesar de revisto por amigos e profissionais, traz alguns chavões atrozes - “Rever os filhos [...] isso não tem preço”- e lapsos terríveis: “[...] os partidos sociais democratas da Europa são filiados à Internacional Socialista e ao governo da União Soviética [...].” [49]  
 
Pouco importa se o estriptise não é literalmente elegante.  A escritura não é a praia de José Dirceu. A Estante Virtual registra apenas um seu ensaio, Tempos de planície, de 2011.  Quase nada, para uma militância de meio século. Ainda mais que uma autobiografia desse porte permite-nos geralmente construir uma opinião mais precisa sobre o autor. Entretanto, José Dirceu se despe cobrindo cuidadoso seus recantos íntimos. Jamais torna-se um nosso conhecido, ainda mais próximo. Ao concluir o “tijolaço”, podemos defini-lo como um homem de ação, pragmático, carreirista, sedutor - não apenas na política. No livro, registra seus muitos - e bota muito nisso! - amores. Amores rápidos ou duradouros, que rememora no quase meio milhar de páginas do primeiro tomo de suas memórias, que já supera os trinta mil exemplares vendidos, no que contribuíram os lançamentos incessante do autor através do país. Sobretudo, não se trata de um livro diletante. Dirceu não escreve para contar sua vida, simplesmente. Procura, sobretudo defender a “sua obra”, com destaque para a construção e direção do PT, do qual foi presidente em 1995, 1997, 1999, 2002. 
 
Dirceu narra sua visão dos sucessos, comumente apoiada na sua memória, que propõe não ser das melhores. Nesse processo, ataca seus inimigos na política, Justiça e mídia; afaga amigos, aliados e personalidades [alguns paradoxais, como José Sarney]; alfineta concorrentes no partido, sobretudo da ala mais à “esquerda”. Cobre Lula da Silva de elogios, chorando as mágoas e injustiças sofridas em suas mãos. O texto privilegia as descrição minuciosa dos fatos, no espaço e tempo em que ocorreram, sobretudo da vida interna petista. Peca, fortemente, pela falta de avaliação dos sentidos profundos dos sucessos vividos e protagonizados. Trata-se de espécie de história política do PT, bastante árida para os não enfronhados nos grupos, tendências, lideranças, etc. em eternas disputas. Sobretudo falta dimensão histórica nesse texto sempre instigante e informativo. 
 
Primeiros Tempos
 
Dirceu arranca falando pouco da sua infância e bastante mais de juventude. Seu pai, udenista, explorava, em sociedade, pequena tipografia, na pequena cidade de Passa Quatro, Minas Gerais, na fronteira com São Paulo. A celebrada mineiridade e a admiração quase incondicional por JK, que escancarou o Brasil aos capitais estrangeiros, são pistas sobre as visões de mundo do futuro militante. José Dirceu teria sido um adolescente pouco interessado nas coisas livrescas e da cultura. Apesar de assinalar livros lidos na juventude, não há referência àqueles que lhe impressionaram, encontrando-se entre as raras exceções o clássico Tesouro da Juventude. Ele refere-se ao banquete pantagruélico permitido pela biblioteca da prisão, que lhe permitiu por-se em dia com o mundo dos livros e diminuir o tempo de pena. Algumas suas reflexões sobre a história brasileira espantam pelo simplismo.
 
Jovem de “boa família” sem maiores recursos, desdobrou-se em São Paulo para trabalhar e estudar. Como dezenas de milhares de outros jovens através do Brasil, galvanizado pela oposição à Ditadura Militar, mal de pernas nos anos castelistas, e pela revolução mundial em avanço, envolveu-se na política estudantil, destacando-se pelas qualidade de articulador e orador de fala mansa e envolvente, que o consagraria anos mais tarde. Dirceu é preso quando do desastrado congresso de Ibiúna, em outubro de 1968, que ele ajudou a organizar. Nesses tempos, segundo conta, simpatizava com a proposta de luta armada incondicional, sem se jogar ainda de ponta cabeça na sedução abismal que arrasou a toda uma geração de militantes, não apenas no Brasil. Incluído na lista dos quinze prisioneiros políticos trocados, em 1969, pelo embaixador estadunidense, chegou a Cuba como “independente”, mas próximo à ALN. Mesmo fornecendo rica informação sobre os sucessos, a reflexão sobre o sentido daqueles anos é bastante limitada. 
 
Em Cuba, com 23 anos, Dirceu se sentiu em casa. Seguiu curso de guerrilha, sem muita dedicação, aprendendo a disparar até mesmo “canhões sem recuo”. Preocupou-se em aprender também alguns outros ofícios.  Exercendo uma sua indiscutível qualidade, estabeleceu relações com políticos e intelectuais cubanos, algumas de longa duração. Nesse período, caiu em “profunda depressão”, que exigiu longo tratamento médico. Na esquerda corre o boato de Dirceu ter mantido “afinidade eletiva” com o serviço de informação cubano. O texto mais sugere do que afasta essa possibilidade, que não seria nenhum demérito. De certo é que contou sempre com o apoio dos barbudos. São ricas suas lembranças sobre Cuba.
 
No Brasil: Idas e Vindas
 
É muito pobre a informação sobre sua volta ao Brasil, como guerrilheiro urbano do Movimento de Libertação Popular, nascido da ruptura com a ALN ocorrida em Cuba, formado sobretudo por ex-universitários paulistas, em 1970.  As “lembranças e recordações” da “presença em São Paulo, entre 1971 e 1972”, seriam “remotas e fragmentadas”, segundo ele, talvez devido a um “bloqueio” ou “por um trauma pelas perdas e derrotas” vividas pelo grupo. Explicação pouco crível. Pela dramaticidade dos fatos, o muito pouco que diz são momento altos do relato. 
 
É também pobre a informação sobre as razões políticas que o levaram a abraçar a luta armada e seus projetos de militância. Escusa-se na luta pela democracia, que na época não interessava a ninguém na esquerda revolucionária. Escuda-se igualmente no frágil argumento de uma tradição histórica brasileira de enfrentar os problemas políticos com as armas - 1922, 1930, etc. “A luta armada existiu como imperativo moral e político.” [67]  Portanto, não discute as raízes profundas de uma opção militarista, totalmente estranha ao marxismo, que se destacou por sua indigência política. Praticamente não se refere àqueles que na esquerda revolucionária assinalavam o desatino dessa opção. Não reflete sobre a destruição de toda uma geração, através da América Latina pelo foquismo. É quase como se esses fossem temas de pouco interesse, pertencentes a um passado já perdido nos tempos.
 
Dirceu retornou à Cuba, já que demasiadamente conhecido para viver na clandestinidade. Na ilha, preparou cuidadosamente o retorno ao Brasil, realizando cirurgia plástica para tal. Partiu levando algum dinheiro, pontos de contato, pistola. No Brasil, em inícios de 1975, quando a luta armada já agonizava, borboleteou sem rumo e se estabeleceu no Paraná, com alfaiataria e loja de roupas masculinas. Casou-se com pequena empresária, com quem teve um filho. Tudo sob nome falso e sem revelar à consorte seu passado. O relato sugere que tenha permanecido semi-imóvel, em uma espécie de “espera de Godot” de companheiros para tentar reconstruir o MOLIPO, já esfacelado, anos antes. Ou qualquer coisa parecida. No frigir dos ovos, se não fosse a anistia, teria possivelmente se transformado em empresário de sucesso. Os acontecimentos que se sucedem a esses mal-elucidados tempos são também nebulosos. Com o início da abertura, restabelece contato com os cubanos, viaja à Ilha, desfaz a cirurgia plástica, retorna ao país como se tivesse permanecido na Ilha. Por que, não sabemos.
 
Oficialmente no Brasil, retoma contatos com grupo de ex-militantes da ALN-MOLIPO que, sem avaliação das incongruências políticas propostas, definem sem pejo o certo e o errado para o PT. “[...] não seríamos mais um partido de vanguarda, marxista, leninista, revolucionário dentro de PT como as outras correntes e partidos [....].” O paradoxal é que a ALN-MOLIPO haviam atirado às traças a proposta do partido marxista, leninista, vanguarda do proletariado, e abraçado a defesa de revolução de perfil blanquista, promovida por jovens guerrilheiros de destinos prometéicos, indiferentes aos trabalhadores das cidades e do campo. Nada disso é discutido. Dirceu apenas relata que o “Coletivo” de militantes da ex-ALN bateu o martelo e passou a espaldar Lula da Silva e os sindicalistas, na luta contra a esquerda do partido e as propostas de organizá-lo desde as bases. Aponta o momento da disputa inicial que selou o destino do PT e os bons serviços prestados por ele e seus companheiros ao desastre histórico, que celebra como vitória. “Foi a primeira e principal disputa que definiria, para o bem ou para o mal, seu futuro e destino [do PT].” A “aliança entre os sindicalistas, as bases católicas [...], a intelectualidade [...], os petistas independentes, particularmente os oriundos da luta armada” formou o  centrãArticulação” - que permitiu liquidar com a proposta de um partido anti-capitalista centrado em militantes de base nucleados. [181]
 
Um Partido para Governar
 
Dirceu pouco fala desse debate que definiu a orientação petista, levando o partido e o país ao desastre histórico que vivemos. O debate confrontou, por um lado, a proposta de partido de simples aderentes, sem qualquer compromisso militante, e, por outro, de partido de militantes organizados em núcleos, como os tradicionais partidos operários socialistas e comunistas europeus, de milhões de filiados. Partidos com sua própria imprensa, jornais, rádios, escolas, clubes, etc. Oposição que Dirceu resolve com  simples asseveração. Para ele, a “experiência histórica” [sic] comprovara o “fracasso” da última forma de “organização”. [180] Acusava essa proposta de querer um PT para transformar a sociedade,  que se negaria a “obter e exercer mandatos e legislar”.  O resultado foi a vitória do modelo de partido estadunidense, que já ganhara a Europa, com dirigentes questionados apenas em congressos, onde votavam todos que pagassem algumas poucas mensalidades, e de militantes mobilizados apenas para as eleições. Com a mídia privada fazendo a ligação entre uns e outros. Um partido para conquistar e se manter no governo e despreocupado com a luta pela transformação da sociedade. O resultado, conhecemos na sua plana dramaticidade.
 
Dirceu ignora olimpicamente o rápido controle do partido pelos setores inseridos ou ávidos de se inserirem no Estado, pródigo no Brasil quanto às benesses concedidas aos seus administradores. Ignora o rápido abandono do PT de sua fase heróica inicial, para metamorfosear-se em em partido eleitoral, de governo, com direções escolhidas em plenárias de militantes literalmente arrebanhados por aqueles que tinham condição de fazê-lo - governadores, parlamentares, prefeitos, vereadores, administradores, tendências, etc. Para tudo isso, ele contribuiu, em forma consciente. Em 2001, concorrendo em eleições diretas à direção do PT, Dirceu chegou ao desplante de defender que até simpatizantes votassem no pleito! Ou seja, sequer necessitariam estar inscritos ao PT. Ele assinala, porém, sem tirar as consequência, o mostrengo que ajudou a criar. “O peso institucional - governos, mandatos, cargos, eleições - começava a influir no partido e na sua natureza, sobretudo os mandatos parlamentares, dos gabinetes, assessores, recursos; dos prefeitos, governadores, secretários; dos sindicatos [...].” [destacamos, 240] Muito logo, pagaria-se para que militantes agitassem as bandeiras petistas, quando das eleições, como todos os outros partidos das classes dominantes. Realidade jamais abordada no livro. 
 
Dirceu se transformaria no segundo homem do PT assimilado à ordem vigente, após Lula da Silva. Ele surge, então, talvez, como o primeiro interlocutor da nova militância petista. Nas Memórias, seguimos a escalada do partido pelo ex-guerrilheiro: secretário-geral do Diretório Regional e Estadual paulista; presidente diversas vezes do PT; candidato a deputado estadual, federal e a governador paulista e, finalmente, chefe da Casa Civil e esperado sucessor de Lula como candidato presidencial. Após a expulsão das tendências trotskistas, o principal entrave à escalada de José Dirceu no comando do PT foi a Articulação de Esquerda, despegada em 1993 do grupo-pai, que chegou a conquistar transitoriamente a presidência do partido, sem qualquer modificação de qualidade.
 
PT de Vento em Popa
 
Na leitura do autor, a metamorfose petista consolidara as para ele corretas e imprescindíveis propostas de alianças com partidos fora do espectro da “esquerda” e “centro-esquerda”. Tudo deveria ser feito para conquistar os governos dos estados e a cereja do bolo - a presidência.  “A vida real do partido implicava dar respostas às demandas populares nas cidades. Nelas, as alianças eram amplas para que se pudesse aprovar projetos nas câmara, o mesmo acontecia nos governos estaduais.”[257, 269] Dirceu sequer critica a aliança suicida feita, mais tarde, com o PMDB. Para ele, deveria ter sido feita mais cedo! Nesse contexto, nos capítulos seguintes, abordam-se, sempre com informação controlada, a participação na Assembléia Constituinte; as conquistas municipais e estaduais; as fracassadas campanhas presidenciais. Impressiona o elogio automático e amplo a todas as administrações municipais e estaduais de PT, com meros e raros reparos pontuais. 
 
Segundo José Dirceu, na história do petismo, nada se fez de errado e tudo corria bem, em direção a uma futura e certa conquista presidencial, por Lula e, logo, por ele mesmo, é claro. Não há referência ao abandono das bandeiras fundacionais e ao deslizar ético-político petista, ao tornar-se “partido de governo”, para ele, um verdadeiro progresso. Apenas, ao se referir à campanha de Suplicy ao governo de SP, Dirceu propõe que o “ovo da serpente que envenenaria o PT” nos “trinta anos seguintes” fora o “marketing  político”, que “acabou por assumir, assaltar as direções, primeiro das campanhas e depois funestamente dos governos, fora o custo astronômico e inacreditável que, a cada eleição dobrava, triplicava [...].” Eufemismo para o chapéu que foi passado incessantemente para que os empresários forrassem a “caixa dois” do partido, com os desvios tradicionais de destinação dos valores obtidos. [207] 
 
No 8º Encontro Nacional, de 1993, Lula e Dirceu perderam o controle da direção do PT para a “esquerda”, como proposto, sem maiores decorrências políticas. Quase com alegria, Dirceu observa que as instâncias petistas orgânicas haviam perdido força e poder, sendo que a ação real do partido era governada pelos envolvidos no aparelho do Estado - governadores, prefeitos, deputados, vereadores, administradores, etc. No frigir dos ovos, o PT deixara de ser partido para tornar-se sobretudo uma “legenda”. Dirceu festeja a impotência da esquerda petista. “A Nova Esquerda assumiu a maioria do partido, mas não sua direção real. Criou-se uma crise de legitimidade na nova direção que, embora  majoritária, não tinha nem liderança, nem hegemonia no conjunto do partido, em seus governos municipais e estaduais, junto as suas bancadas e lideranças sindicais e populares.” [257] 
 
Gênese e Consolidação do Lulismo
 
Nos fatos, nesses momentos, a perda de substância do PT, transformado em mera legenda, era geral. Nada disso é discutido pelo memorialista.  En passant, ele refere-se ao surgimento e consolidação anterior de um “Lulismo” orgânico, com a autonomia crescente em relação à direção e ao próprio PT.  À ligação dos “dirigentes” do PT aos eleitores, por sobre uma militância já dizimada, correspondeu a ligação de Lula da Silva com o eleitorado, independente dos “dirigentes” e, de certo modo, do próprio PT.  Movimento institucionalizado com a fundação do Instituto da Cidadania, de 1990. A perda das ligações do PT com as bases não assusta Dirceu. A autonomia de Lula da direção petista, sim. “Sentia Lula cada vez mais entrincheirado no Instituto da Cidadania, com assessoria própria, estrutura, recursos [...] organizando os seminários e as caravanas.” [254] Em 1992,  a população radicalizava-se e Lula encastelava-se no Instituto, mantendo as melhores relações com Itamar Franco, contra as orientação da direção do partido de flexão à esquerda. “[Lula da Silva] Era ouvido, participava e aconselhava o governo [Itamar]. Chegou a propor nomes para o primeiro governo [...].” “Lula e seu entorno [...] viviam de ilusões sobre o PSDB”, tendo, segundo o autor, apoiado na prática Covas contra a candidatura de José Dirceu - como também o fizeram Genuíno, Tarso Genro e outros caciques petistas. [260, 5] O Instituto da Cidadania terminaria sendo financiado pelas grandes empreiteiras, com doações superiores a dezoito milhões de reais. Após as gestões presidenciais, Lula da Silva fundaria a LILS Palestras e Eventos, que propiciaria mais de vinte milhões ao ex-presidente, como remuneração de palestras. [FS, 29/08/2016]. Se Lula se encerrava no Instituto da Cidadania, obcecado em chegar à presidência, Dirceu - homem do aparelho - se esforçava em se manter como intérprete e correia de transmissão dos milhares de parlamentares, governantes, administradores, funcionários etc. que dependiam do sucesso eleitoral. Porém, em suas memórias, Dirceu se auto-designa como representante de uma geração que combatera pelo socialismo, luta que propõe, entretanto, encerrada, em 1989, com a “Queda do Muro”.
 
Em 1994, Lula da Silva estende a mão a José Dirceu, com objetivo de reconquistar a direção do PT. “Eu e Lula estávamos em sintonia [...].” “Na minha primeira entrevista [...] deixei clara a nova orientação do partido para o poder, abri-lo para as alianças e para poder governar [...].[276] Certamente tudo que Lula queria ouvir.  Segundo ele, apesar do fracasso de 1995 e 1998, Lula seguiria “candidatíssimo desde que nas condições dele: com Duda Mendonça, com alianças, com recursos, com o PT sob sua ou nossa direção.” [300] A referência ao marqueteiro tem sentido claro - sua contratação exigia os rios de dinheiros, ao qual o autor se referira, ao abordar a campanha de Suplicy. Dirceu não dá um pio sobre a fome de leão da caixa dois que nesses momento se estendera a praticamente todos os níveis do partido com real expressão. Mesmo sem o apoio de Lula, em 2001, Dirceu elege-se pela Articulação para a presidência o PT. Disputaria-se já o poder no presidência que se esperava ganhar? No novo contexto, de desmoralização plena do PSDB, a direção do PT atira pela borda ao mar a “suspensão do pagamento da dívida externa e a reestatização das empresas privadas.” Se “consolidava a estratégia para 2002” - propõe.  As portas do paraíso se escancaravam para Lula, Dirceu e a direção petista. [314]
 
Às Portas do Paraíso
 
Na campanha de 2002, convergiram orgânica e politicamente o candidato Lula da Silva, encastelado no Instituto da Cidadania, e José Dirceu, representante do núcleo parlamentar-administrativo colaboracionista, já solidamente incrustado ao Estado. Para  Dirceu, a  “Carta ao Povo Brasileiro” foi um detalhe, pois tudo estaria já acertado. O ex-guerrilheiro celebra como momento de glória sua viagem aos USA, para beijar a mão do Partido Republicano no poder. “(...) os americanos [sic] ficaram realmente perplexos. Não esperavam ouvir o que um ex-guerrilheiro de esquerda estava falando.”  “Anos depois eu soube que um funcionário do setor da inteligência havia feito um relatório no qual dizia que na esquerda brasileira havia ´gente jogando a bola na direção correta´.” [329] Referia-se a Lula, Dirceu, Palocci et caterva  que haviam vendiam seus passes para o time do grande capital nacional e internacional. 
 
Vitória alcançada, Dirceu sugere que Lula queria mandar só. Para tal, nomeia Palocci e Meirelles - “dose cavalar” - como chefes da “tesouraria” e da orientação [nos fatos social-liberal/ do governo.  Palocci não tinha controle sobre o aparelho do PT, nesse momento nas mãos de Dirceu. O ex-guerrilheiro teve suas indicações como chefe da Casa Civil e responsável pela articulação política efetivadas apenas passados quarenta dias das eleições. E elas foram obtidas um pouco a fórceps. Por essas épocas, a capa da Veja estampava José Dirceu como “segundo homem da República” - algo prá lá de mal recebido pelo ex-metalúrgico, segundo o autor.  Foi José Genuíno e não Dirceu que fez o discurso da “vitória em nome do PT, na avenida Paulista, em 27 de outubro.” [340] Entretanto, não podemos considerar que houve perseguição individualizada  a José Dirceu. Em verdade, o ex-metalúrgico sempre se esforçou para que não surgisse qualquer liderança que lhe fizesse alguma sombra no partido. Mais tarde, como sabemos, designaria petista sem tradição e carisma como seu substituto. Dirceu não faz qualquer crítica de fundo à primeira administração e à sua participação nela. Apenas assinala que Lula da Silva “foi tradicional e conservador” ao “tratar a alta oficialidade e as instituições militares” herdadas do golpe de 1964. Registra que nada se fez no relativo ao monopólio privado da imprensa. Jura, porém, que jamais disse que já se tinha a Globo, ao ser perguntado por que o PT não criava imprensa própria. Formulação que cai no campo do “Se non è vero è ben trovato”. Ressalta a não realização de qualquer “devassa na gestão do PSDB”, deixada para a Justiça, se ela tomasse a iniciativa!  Alonga-se na explicação dos energúmenos indicados para o STJ.
 
  José Dirceu defende com fervor a reforma da previdência pública, que literalmente destruiu as condições de existência de milhões de aposentados, justificada devido a serem as pensões privadas miseráveis! [369] Ele expressa permanente irritação com os servidores públicos que pressionavam por “aumentos de salários”, “justos, mas irreais e insustentáveis” devido às finanças dos estados.” [281] A ordem era para que apertassem os cintos, para o PT sair bem na fotografia. [216, 368] Não pia sobre o pagamento canino da dívida externa e interna, o verdadeiro ralo por onde escorrem os recursos do país. Dirceu registra sua insatisfação com a política de saneamento liberal de Palocci-Meirelles, sob a orientação de Lula, por temer a sorte do segundo mandato e os reflexos eleitorais. Queria materializar a prometida emancipação social através do “mercado interno de massas”. “Dizia para Lula: ´Vamos acabar o governo sem nenhuma obra de infraestrutura!´.” [400] Propõe que restasse, portanto, impulsionar programas como a “Fome Zero”, a “bolsa família”, etc. Levanta loas ao “crédito consignado” e ao “lento, seguro e gradual processo de expansão do crédito para a base da pirâmide social e de bancarização de dezenas de milhões de brasileiros”. Iniciativa que massacrou e massacra a população do país, praticamente como um todo, para o gáudio do grande capital bancário. [364] 
 
Páginas Finais
 
As páginas finais sobre o “Mensalão” são decepcionantes.  Disserta longamente sobre a fúria anti-governamental da imprensa, do PSDB, etc. O que não devia ser novidade nem surpresa.Em teoria, o PSDB jogava na oposição! Sugere que, se lhe houvessem dado ouvidos, a aliança imediata com o PMDB “propiciaria maioria e estabilidade à base aliada” [acordo desautorizado por Lula], o que não obrigaria a aliança com o “PTB, PP”  e “outros pequenos partidos”, com um resultado “pior do que se poderia imaginar”. [346] A sugestão é clara: os grandes tubarões, habituados a caçarem nas profundezas, não ficariam implorando para serem alimentados no borda do aquário.
 
Dirceu surpreende-se por ter sido o primeiro alvo da “Operação Mensalão” e por ser abandonado aos leões por Lula da Silva e pela nomenclatura petista, que procuraram se safar do enorme desastre. Assim como, agora, o ex-presidente, na prisão, tem sido abandonado por enorme fatia dos capa-pretas petistas, pela mesma razão, nos permitimos lembrar. Dirceu nomeia os deputados da “esquerda” do PT que votaram pela CPI do Mensalão e, entre eles, os expulsos quando da contra-reforma da Previdência! Expulsão sobre a qual praticamente não diz nada. Indigna-se com a falta de apoio da “minoria” de esquerda petista, não envolvida nas maracutaias. Em resposta, Valter Pomar, também sem compreender nada sobre o que estava realmente em jogo, lembra que deveria se “perguntar como esta minoria foi tratada pela maioria [...]”. [http://valterpomar.blogspot.com/2018/09/o-presente-de-dirceu-versao-integral.html]
 
Não compreende que o petismo se transformara em federação de interesses, Lula à cabeça, todos preocupados em tirar suas castanhas do fogo. Era o literal “tempo de murici em que cada um cuida de si”. Sobre o presidente, escreve: “Não me pediu para ficar, não me propôs nenhuma outra tarefa, simplesmente me demitiu.” [427] Talvez, além de salvar a própria pele, também não desagradasse a Lula da Silva governar sem um “segundo homem”, candidato de recambio, para 2010. E fora do PT, na esquerda moderada, centrista e extrema, esperava-se que a dissolução do lula-petismo abrisse espaço para novos protagonistas e suas ambições políticas.  Ninguém compreendeu que o assalto geral centrado em José Dirceu almejava muito mais do que a cabeça do segundo petista e, eventualmente, eleger o próximo presidente. José Dirceu, Lula e o núcleo duro petista, afinados com o grande capital, ficaram literalmente semi-imobilizados, sem nada compreender, ao serem feridos por aqueles aos quais haviam servido e serviam. As valiosas Memórias de José Dirceu nos sugerem que o autor segue ainda sem compreender realmente o ocorreu e ocorre atualmente.
 
DIRCEU, José. Zé Dirceu: memórias. São Paulo: Geração, 2018. 495 p.
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