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Quinta, 13 Julho 2017 11:18 Última modificação em Segunda, 17 Julho 2017 23:38

Tancos e muito mais

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País: Portugal / Institucional / Fonte: Jornal Mudar de Vida

[Manuel Raposo] A pergunta que tem faltado na discussão sobre o caso de Tancos é esta: pode um roubo de tal dimensão ser praticado sem colaboração interna? Tudo aponta que não. A

A incúria, a vedação furada, a falta de vídeo-vigilância e de rondas, e tudo o mais que se descubra, são, quando muito, como é bom de ver, incidentes que podem ter facilitado a operação, mas que não explicam a limpeza como pôde ser levada a cabo. De resto, como poderiam os gatunos saber destas facilidades se, mais uma vez, não tivessem informação de dentro?

Depois do foguetório inicial da comunicação social e das forças políticas, a discussão está agora a ser reduzida a um problema de “falha de segurança” e é dentro desse âmbito fechado que se procuram “responsáveis”. Percebe-se porquê: a resposta à pergunta que levantamos implica não com “incúrias” mas com corrupção e redes de tráfico de armas. E para o poder, é claro, importa ilibar as forças armadas, e as instituições em geral, desse tipo de crime.

A questão, porém, subsiste. O próprio PR disse que outros roubos tinham sido praticados em países da NATO, insinuando que o de Tancos poderia ser mais um. Um entendido em segurança e questões da NATO (Álvaro Vasconcelos, TSF, 7.7.17) sublinhou a ligação íntima entre tráfico de armas e tráfico de drogas, que não são praticados por amadores. Além de Tancos, houve recentemente o roubo de armas na PSP. E está sob investigação, já com 12 militares presos, o desvio de dinheiros das messes da Força Aérea, na ordem dos 10 milhões de euros. E antes, houve os escândalos, nunca averiguados até ao fim e abafados, das compras de material militar (como os submarinos e blindados Pandur). Tudo isto aponta na mesma direcção: corrupção praticada de alto a baixo a coberto da autoridade.

Podia alargar-se o leque à corrupção no SEF e em serviços do ministério da Justiça, às discriminações praticadas no Colégio Militar, às violências (com mortes) praticadas nos cursos de Comandos, às mortes em operações stop (de que Portugal é um triste recordista), aos espancamentos levados a cabo em esquadras de polícia, ou mesmo às brutalidades e arbitrariedades das seguradoras privadas. Em qualquer destes casos, um ponto comum: os criminosos actuam a coberto da autoridade que lhes é dada.

Todas estas forças têm por missão, em última análise, a violência. Por detrás da cortina da defesa nacional, da segurança dos cidadãos, da ordem pública estão na verdade instituições destinadas não só à prática da violência mas com o exclusivo da violência. Mais: para que os agentes não hesitem na aplicação da violência, têm de ter a certeza de que gozam da protecção dos seus superiores, mesmo nos limites da infracção. É por isso que a grande maioria dos casos de violência policial, por exemplo, acabam impunes.

Não admira, assim, que haja no comportamento dos diversos agentes (em toda a hierarquia) uma certa moral espartana: podes violar as regras desde que não sejas descoberto; se fores descoberto, pagas — o que te obriga a refinar a astúcia.

O “desinvestimento” nas forças armadas e de segurança foi mote para tentar justificar o que se passou em Tancos, não só por parte de militares, mas também — pasme-se! — por parte do PCP e do BE. Foi a primeira tentativa de desviar atenções do fulcro da questão e de evitar tocar no nervo sensível da situação geral, que é este: longe de se tratar da proverbial “meia dúzia de maçãs podres”, os factos apontam a tendência para o aumento dos casos de corrupção numa instituição que a população vê como um corpo inútil para o país e que apenas serve para alinhar atrás das aventuras militares das grandes potências.

De facto, nenhum dos adeptos da tese peregrina da “falta de meios” se atreveu a pôr em causa os gastos com a NATO ou as missões militares no Afeganistão, no Kosovo, no Mali, nas costas da Somália e por aí fora — missões que custam milhões ao país, mas que pagam bons salários aos militares destacados e justificam os postos do oficialato.

A prova de que as coisas vão muito para além das falhas de circunstância, dos cortes orçamentais, etc. e, bem pelo contrário, implicam com a própria integridade das forças armadas (e por extensão das forças de segurança) veio pela voz de Adriano Moreira, esse guru da defesa das instituições que sabe bem, desde os tempos do salazarismo e da guerra colonial, como se assegura a coesão do Estado.
Disse ele que, na circunstância presente, é “indispensável separar o incidente [de Tancos] do respeito pelas Forças Armadas”. É preciso, sublinhou, “não fazer nada que afecte o respeito e a autoridade que [as FA] ganharam” junto da NATO. E para que todos entendessem bem, insistiu dizendo que “a democracia não é composta só por cidadãos, mas por instituições, que têm também direito a respeito” (declarações à TSF, 7.7.17).

Eis pois a directiva do velho estratego para conter os prejuízos: salvar a imagem das instituições, mesmo quando — sobretudo quando — não se pode salvar a sua natureza.

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