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Diário Liberdade
Terça, 10 Janeiro 2017 22:24 Última modificação em Terça, 31 Janeiro 2017 21:45

A esquerda e o “socialismo árabe-islámico” da Líbia de Kadafi Destaque

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País: Líbia / Batalha de ideias / Fonte: Blog de Nazanin Armanian

[Nazanin Armanian, traduçom do Diário Liberdade] Cinco anos após a agressom militar da NATO a Líbia e o dramático fim do coronel Kadafi, as forças progressistas maniqueias de meio mundo continuam divididas entre os defensores do homem que governou 41 anos o país, e os que, no seu apoio às “bombas com rosto humano”, afirmam (nos seus cómodos sofás) que é melhor para dezenas de milhares de libios morrerem e terem as suas “almas" libertadas, que viverem sob a opressom daquele ditador.

A Líbia, a primeira reserva de petróleo de África que durante o domínio do colonialismo italiano perdeu umha terceira parte da sua populaçom polas guerras e a fame, passou durante os 41 anos do regime individual de Moammar al-Kadafi por três períodos chave:

1. Entre 1969 e 1990: os Oficiais Livres nasseristas, marcados pola derrota dos árabes na guerra de 1967 com Israel, derrocam o regime semifeudal do rei Idris e realizam umha série de reformas como desmantelar as bases militares dos EUA e Itália, nacionalizar as companhias e os bancos estrangeiros, industrializar um país subdesenvolvido, fixar impostos sobre as rendas altas, erradicar o analfabetismo, converter a previdência e a educaçom acessível para todos e promover ajudas integrais às famílias trabalhadoras. Paralelamente, mantivérom umha ditadura política, e sob o pretexto da “democracia popular” proibírom o Partido Comunista e todo o tipo de sindicalismo e liberdades políticas. As reformas económicas realizadas, bem como o seu apoio a diferentes movimentos de libertaçom nacional do mundo, supugérom-lhes umhas amplas sançons económicas por parte dos países ocidentais, o que terminou por empurrá-los para o bloco socialista. Moscovo e Pequim fôrom generosos com a Líbia anti-norte-americana, embora também anticomunista (ou seja, anti-classe operária): já que se tratava de um atrativo novo sócio em África no quadro da Guerra Fria, este controverso socialismo islámico ou árabe —como o chamava Kadafi— recebeu apoio e justificaçom pola teoria da “via nom capitalista do desenvolvimento” elaborada por Rostislav Olianovski. O académico soviético propunha que os governantes "progressistas" dos países em via de desenvolvimento (que incluíam também o Iraque do partido Baas, a Síria de Hafiz al Assad ou a Argélia de Ben Bela), apesar de serem ditatoriais, tinham capacidade de contornar o capitalismo e dirigir o país para o socialismo, como se fijo na URSS mediante a NEP, a Nova Política Económica, proposta por Lenine em 1920. Olianovski destroçava assim dous dos pilares do marxismo. Por um lado, o facto de que medidas como a NEP podiam dar resultados positivos só se estivessem supervisionadas pola classe trabalhadora dirigida pola sua vanguarda comunista e nom polos militares pequeno-burgueses de fidelidades tribais, nacionalistas ou religiosas, carentes de visom de classes; por outro, que a NEP era umha etapa do socialismo da URSS, e nom umha terceira via entre o capitalismo e socialismo, simplesmente porque tal via nom existe. É assim como parte da esquerda chegou a defender os regimes de corte fascista (que desfrutam do apoio de sectores da populaçom), com os seus foleiros cultos à personalidade, porque repartiam algumha caridade entre os pobres, enquanto na sua pantomima lançavam gritos anti-estado-unidenses (convertido no principal critério de ser considerado "progressista”!).

2. Com a queda da URSS em 1991, o efeito borboleta da Perestroika também leva o neoliberalismo à Líbia: a privatizaçom das empresas estatais, os cortes, o despedimento de dezenas de milhares de servidores públicos, a liberalizaçom dos preços, o desemprego, a inflaçom e, portanto, o descontentamento popular. A receita para a crise foi aplicar “mais capitalismo”, e disso se encarregárom Seif al-Islám Kadafi e o economista norte-americano Michael Porter, contratado por Kadafi.

3. A invasom do Iraque em 2003, liderada polos EUA, servirá como "pedagoga do terror”: “Se vires as barbas do vizinho a arder, pom as tuas de molho”, agilizando a viragem de 180 graus da Líbia para o imperialismo: Kadafi renuncia às armas de destruiçom em massa (e desarma-se), aponta-se à fictícia guerra de Bush contra o terror, reabre a embaixada dos EUA em Trípoli, deixa entrar a petroleiras como Chevron, BP, TOTAL, Agyp e Repsol, financia –segundo a imprensa francesa– a campanha eleitoral do direitista Nicolas Sarkozy com 50 milhons de euros, e presenteia a José María Aznar o cavalo Raio do Líder, valorizado em dous milhons de euros antes de lhe comprar armas no valor de 3,83 milhons. Era o mesmo ano em que o primeiro-ministro italiano, o mafioso Silvio Berlusconi, lhe encomendava ser o “Gendarme do Mediterráneo”, retendo os desesperados africanos que fugiam das guerras e a pobreza nos seus terríveis campos de detençom em troca de 5.000 milhons de dólares (agora terám que pagar mais a Erdogan!). Deparamo-nos entom com o outro Kadafi, um líder de férreas convicçons anticomunistas que em 1971 nom duvidava em devolver o aviom dos dirigentes comunistas sudaneses que fugiam do ditador Yaffar al-Numeiry para serem executados. Dous anos depois, declarou o marxismo como a principal ameaça para a humanidade e pediu que o Iémen socialista do Sul se dissolvesse no Iémen capitalista do Norte. Sentiu-se frustrado quando os aiatolás do Irám se negárom a convidá-lo ao país. Acusavam-no de comunista! e de ter matado em 1980 o clérigo iraniano Musa Sadr, líder dos xiítas libaneses durante a viagem dele a Trípoli. Em 1987, com o fim de promover o seu nome, patrocinou com 9.00.000 dólares a equipa alemá de hóquei ECD Iserlohn, em falência, em troca de levar nas suas t-shirts o logótipo de seu “Livro Verde”. Obviamente nom tinha nada de “socialismo” nem de reivindicar o orgulho africano erguer a sua tenda no jardim dos palácios dos presidentes europeus, patrocinadores dos piores crimes contra a humanidade no Iraque e Afeganistám. Afinal, a sua ditadura nom tinha nada que invejar à dos regimes europeus “livres" com a sua corrupçom, leis mordaça, centro de detençom de imigrantes e hipocrisia. Entre os motivos da matança de civis líbios pola NATO nom está evitar o massacre cometido por Kadafi. As forças especiais da Aliança já estavam no país em janeiro do 2011, dous meses antes do início dos protestos. Os matizes do “mea culpa” de Obama pola atual guerra civil na Líbia, bem como a “Operaçom Nova Normalidade” do Pentágono na Líbia som anúncios de futuras agressons militares ao estratégico país africano, e a morte doutros milhares de pessoas no Mediterráneo. A Líbia da “oitava maravilha do mundo”, deixou de ser em 2011 o país com maiores serviços sociais de África onde nom se viam crianças malnutridas. O assassinato do chefe de Estado líbio, organizado por Hilary Clinton, foi celebrado por todos os governos de Oriente Próximo -desde Israel até Arábia Saudita, Qatar, Irám ou Turquia. Assim é a solidom dos ditadores independentes.

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